Eu não tenho terra. Nunca tive. Nascida e criada em Lisboa, sou aquilo que se chama uma "alfacinha de gema", embora não tenha nem um grande amor pela cidade nem nunca lhe tenha descoberto a tal
luz especial que tantos falam. Reconheço que deve ser um deficiência minha, mas é assim, os seus amantes que me perdoem. Há zonas de que gosto mais do que outras, mas amá-la, não amo.
Pequenina, no colégio, sofria daquilo que considerava um enorme defeito, que era não ter "terra". Sobretudo na época das férias grandes ou no Natal e Páscoa, quando as minhas amiguinhas iam todas para a terra e eu não.
Assim, porque mesmo pequenina já era muito voluntariosa, cheguei um dia a casa e disse ao meu Pai:
- Papá, eu quero uma terra. Tem que me comprar uma terra!
Ele olhou-me com olhos atentos como sempre fazia quando eu falava com ele e disse-me que eu já tinha muitas terras. Que agora ainda não eram minhas, mas que um dia seriam.
- Não, eu quero uma terra agora.
E expliquei-lhe o meu problema.
Mais aliviado, ele disse-me que se o problema era esse, então podia escolher entre a terra da minha mãe, no Alentejo, ou a dele, perto de Óbidos.
Resolvi ficar com ambas. Naquela altura, sentia mais a dele como minha, por ser lá que a minha avó tinha a quinta e lá passar toda a família, o Natal.
Só muito mais tarde vim a descobrir o encanto do Alentejo e por ele me apaixonei, dizendo hoje a todos que sou alentejana.
Assim, no último dia de aulas, com um ar
blasé enquanto guardava as coisas na minha minúscula pasta, deixei cair:
- Tenho que me despachar para ir fazer as malas. Logo à noite, vamos para a terra.
Ninguém me ouviu mas eu senti que algo na minha vida tinha mudado.
A casa da quinta era enorme, e disso já aqui falei o ano passado, e embora fosse na enorme sala que todos se reuniam e conversavam junto à lareira ou com os pés metidos debaixo de camilhas, em pequenas mesas redondas com braseiras, era a cozinha que me fascinava e era nela que passava parte do dia e um pouco da noite, nas vésperas de Natal.
Havia o grande fogão de ferro, com muitas bocas e outras tantas portinhas, uma de cada tamanho, onde as criadas ( que me perdoem as auxiliares domésticas) iam metendo madeira para manterem o fogo sempre aceso.
Havia uma enorme mesa com tampo de mármore onde se alinhavam os alguidares que tinham, todos um destino: o das batatas, o das couves, o das filhoses que depois era embrulhado em cobertores e posto junto ao fogão para levedarem, e um espaço destinado a bater a massa do pão e dos bolos que depois seriam cozidos no forno de lenha.
Aquela azáfama tinha uma magia que me atraía como as lâmpadas atraiem os insectos. Toda aquela gente trabalhava como uma orquestra bem ensaiada, debaixo da batuta da minha avó.
Esta minha avó não era a minha preferida. Tinha até um pouco de medo dela. Era austera demais e isso brigava com o espírito livre e desalinhado que sempre tive.
Sendo viúva, era ela que se sentava na cabeceira da enorme mesa ficando à sua frente o filho mais velho, o outro a seguir do seu lado direito e assim sucessivamente, com os filhos de um lado, as noras de outro e os netos e a neta ( eu era a única menina), intermeados no meio de toda aquela gente. Em noites de Natal, à Ceia, éramos mais de 25 à mesa.
Depois de ela fazer a oração habitual, podíamos então iniciar a refeição.
Naquela altura, mandava a tradição que depois de virmos da Missa do Galo rezada na capela da quinta, todas as crianças punham o sapatinho na chaminé, já que os presentes só eram abertos na manhã seguinte.
Nunca percebi porque razão os adultos também tinham presentes, se nunca lá vi os sapatos deles, mas isso é outra história.
Todos os Natais era a mesma coisa: depois da Missa e da Ceia, as crianças iam para a cama, o meu pai e os meus tios ficavam a conversar na sala e as mulheres iam para a cozinha, o que aliás muito irritava a minha avó.
Naquele Natal, devia ter os meus 5 anos, resolvi sair da cama e ir espreitar a chaminé para ver se já lá estavam os presentes.
Escondida atrás do reposteiro que tapava a porta da cozinha, preparava-me para espreitar quando ouvi esta frase, dita pela Ermelinda, a mais velha cozinheira da minha avó:
- Bom, vamos lá então tirar os tomates ao perú!
- Ó Ermelinda, tenha modos - ouvi a voz severa da minha avó.
Fiquei imóvel e estarrecida. Então o perú tinha tomates? E iam tirar-lhos? E comiam-se?
Dei meia volta sem seque me lembrar dos presentes e fui enfiar-me debaixo dos cobertores, na minha cama, com aquela dos tomates na cabeça.
No dia seguinte, mal o sol raiou, eu e os meus primos, todos em pijama, corremos para a cozinha, onde, como sempre, os presentes nos esperavam.
Foi a confusão do costume, à qual se seguiu um lauto pequeno-almoço com todos os doces tradicionais de Natal mais os típicos da zona e depois fomos todos arranjar-nos para a Missa do meio-dia, essa na capela da aldeia.
Quando chegou a hora do almoço, todos sentados nos seus respectivos lugares, eis que entra com pompa e circunstância o enorme perú, todo enfeitado.
Era assim todos os anos.
Depois da avó dizer a oração, o filho mais velho trinchava o perú como um ritual.
Mas aquele almoço ia ser diferente.
De repente, e antes que o meu Pai começasse a trinchar o bicho, eu cortei com os rituais e as regras todas e tornei aquele Natal tão inesquecível que ainda hoje oiço uma certa pergunta, nos almoços de Natal, hoje infelizmente já com quase ninguém desse tempo presente, excepto os meus primos e os meus pais.
Levantei-me e pus-me de joelhos em cima da cadeira para ficar
maior e alto e bom som disse:
- Eu quero os tomates do perú!
Fez-se um silêncio total por uns segundos, após o que, todos tentavam controlar o riso, excepto a minha avó, que mantendo o seu ar de sempre ( embora, acho eu, tivésse ficado com o carrapito um bocado de lado, mas se calhar foi impressão minha...) me disse:
- A menina sente-se e não diga disparates.
Depois do almoço tentei que alguém me explicasse o que era isso dos tomates e porquê que não mos tinham dado, mas o mais que consegui foi que a Ermelinda me respondesse com ar jocoso:
- Ó menina, isso o melhor é perguntar às peruas!
O facto é, que ainda hoje, à chegada do perú à mesa, me perguntam: então e continua a querer os tomates?
Só que agora essa pergunta provoca em mim um sorriso nostágico, até uma lágrima ao canto do olho, pelos Natais maravilhosos da minha infância que se foram para sempre.
Nota: este texto foi escrito para ser publicado
aqui e participar num concurso de textos com Memórias de Natal. Aqui fica a minha contribuição.
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