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21 January 2010

(3) MEMÓRIAS DE INFÂNCIA


Poucos sabiam do jardim secreto na vetusta e almiscarada casa da Quinta. Sebes, cameleiras, buxo e lilases escondiam o granito rasteiro que suportava, altiva, a frontaria. Mirado por fora, o jardim não chamava a atenção. Era contido por um gradeamento verde, nem alto, nem baixo, portões também verdes rangendo ao abrir. Enganava os passantes a banalidade da impressão. Não sendo jardim mas gente, dobraria cautelas - fosse eu de as ter ou sequer de as prever! - pelo ar sonso das sebes desmentido por lampejos matreiros. Culpa directa do verniz das folhas das cameleiras regateando, a quem passa, o sol.
Não sendo grande, tinha a dimensão entre o normal e o destacado, assim fazendo vénia à (in)decisão social herdada pela família proprietária. É resmoneio cuspido entre-dentes nas costas de quem a sorte ou os berços sucessivos bafejaram que, se bem vasculhada, na família se encontrará a avó forneira.
Dito injusto por confundir farruscas com deslustres ancestrais, assertivo ao dar como inexistentes genealogias alvas de mácula, se bastardias, devassos, avarentos e sacanas contarem.
O segredo do jardim começava onde acabava o telhado do verde compacto das latadas. Pelas duas e meia da tarde, chinelavam passos nas lajes de granito que apainelavam o chão. Seguros. Precisos.
Rumavam a um altar exposto ao cruzamento ogival da abóbada celeste, onde pontificava uma mesa acolitada por cadeiras e espreguiçadeiras, tudo em sólida verga. Suavizam os assentos coxins de florido cretone. O chinelado quedou-se. Quem esticar o pescoço para lá das colunas de buxo onde curva a alameda, verá pés nus, balouçando, malcriados. Cosendo a curiosidade às sebes, subirá o olhar dos pés às pernas, estas convergindo em breve outeiro. Mirada decidida avançará rente às bordas dos vales suaves, olhos postos nas colinas gémeas desafiando o sol. Numa mão um livro, na outra nada.
Pestanas longas sombreavam o alto da face.
O cabelo solto por fora da espreguiçadeira.
A minha pele solta. Nua.
Oficiando ritual pagão.

8 December 2009

A TRADIÇÃO AINDA É O QUE ERA

Maternal Kiss by Mary Cassat 1897 Philadelphia Museum of Art


Embora a maior parte das pessoas nem se lembre porquê que hoje é feriado, o facto é que se celebra hoje o dia de Nossa Senhora da Conceição. No meu tempo ( ai, como odeio esta frase...) de criança e adolescente, era também o Dia da Mãe. E assim continuou até hoje, embora em Maio a minha mãe sempre ganhe uma flor ou um livro, que são as suas prendas preferidas.
Mas o 8 de Dezembro era um dia mágico. Comíamos pouco em casa, porque naquela altura tinha que se estar 3 horas em jejum para se poder comungar, vestíamo-nos a preceito e rumávamos à Baixa.
Lembro-me de alguns dos vestidos que vestia nesse dia: uns eram de bordado inglês com uma fita de veludo na cintura e outros tinham favos. A minha mãe sempre gostou de favos nos vestidos e passou-me esse gosto. Quando chegou a altura de fazer o meu vestido de debutante, aquilo com que mais me preocupei, além do tecido que já se sabia ter que ser branco e do feitio, linha princesa, o que eu não me cansava de dizer era que tinha que ter favos.
Enfim, dizia eu que rumávamos à Baixa, mais precisamente à Igreja de S. Nicolau a cujo coro pertencia e assistiamos à missa.
Depois, seguia-se um lauto branch na Ferrari e uma visita sagrada: íamos sempre a uma papelaria pequenina, ( Papelaria da Moda) que ficava na rua de S.Nicolau, onde comprávamos os cartões de Boas-Festas para enviar a amigos e família e as folhas de papel para embrulhar os presentes.
Era uma espécie de ritual, onde não faltavam as gargalhadas, porque normalmente escolhíamos sempre os mesmos cartões e quem o visse primeiro é que tinha direito a ficar com ele.
À tarde íamos ao cinema e quando voltávamos para casa, era certo e sabido que na mesa do jantar o meu Pai resmungava:
-Pois, no Dia do Pai não acontece esta festa toda.
Claro que à sobremesa era sempre surpreendido por uma bela caixa de bolos da Ferrari, o que o levava a dizer:
-Bem, não se perdeu tudo.
Devido às circunstâncias da vida, hoje já não vamos à Baixa, nem à Ferrari nem ao cinema neste dia.
Vamos à missa, mas na Igreja do Colégio S.João de Brito e voltamos a correr para casa para o meu pai não ficar muito tempo sozinho.
E, inevitavelmente, olhamos uma para a outra, com uma lágrima de melancolia ao canto do olho: - Que saudades daquele tempo!
Mas o dia continua a ser o Dia da Mãe e para dizer a verdade, a minha mãe bem merecia que todos os dias do ano fossem Dia da Mãe.


14 October 2009

(1) SAUDADES DA INFÂNCIA



Quando me fazem festas no cabelo fico quieta. Imóvel.
Cafuné dizem no Brasil.É tão saboroso! Eu não quero que aquilo acabe nunca!Dá uma moleza, tipo soninho de criança...
Uma paz invade o ser que sou hoje!Parece que tudo pára e me acalma.

Às vezes, eu mesma faço festas no meu cabelo.
Passo os dedos entre os fios.
Lembra a infância feliz, base da adulta que sou hoje.

30 March 2009

( 1 ) POR ESSE MUNDO FORA...MEMORIES

CUBA Fotografia minha
Muitas vezes me tenho interrogado porque razão estou sempre pronta para partir.
Partir para viajar. Tinha 16 anos quando saí do País sozinha, mas antes disso já tinha feito várias viagens com os meus pais.
Desde aí, nunca mais parei e sou uma privilegiada por conhecer tantos e tão diferentes países e gentes.
Quem viaja muito sabe que acontecem coisas, umas boas, outras menos boas e às vezes até aventuras.
Acho que poderia escrever um livro com tudo o que vi e senti, mas como isto de escrever um livro não é para qualquer um, por isso, fico-me aqui pelo meu blog.
E mesmo assim, porque uma certa vizinha passa a vida a seringar-me para que o faça. Não sei se aquilo que irei contando terá grande interesse para quem não esteve lá, mas vale a intenção.
Vou começar por Cuba, apenas por um acaso. A vizinha Si fez um post há 2 dias, que me recordou um episódio muito divertido que me aconteceu em Cuba.
Esta não era a abordagem que tinha em mente quando pensei escrever sobre Cuba, mas calhou assim.
Porque Cuba tem tanto que se lhe diga, tem tanto para ver, pode ser vista com olhares tão diferentes, que uma dezena de posts bem longos não dariam para contar tudo o que vivenciei das duas vezes que lá fui.
Disse sempre que queria ir a Cuba com Fidel no poder e a Macau ainda sob administração portuguesa.Tive a sorte de conseguir ambas as coisas.
Mas, para os menos avisados, digo já que quem se meteu no avião em Lisboa e foi directo para Varadero, não pode dizer que foi a Cuba.
Quem não tiver ido a Cienfuegos,Trinidad, Santiago de Cuba e, naturalmente a Havana, ou almoçar a casa de uma família cubana, não sabe o que é Cuba.
Cuba é muito mais que os resorts e as praias maravilhosas. Ou melhor, Cuba não é Varadero, embora lá também me tenham acontecido coisas muito engraçadas.
Por hoje vou só contar esse tal episódio que o post da Si me recordou.
Nessa altura, eu e duas amigas, formávamos um grupinho a que os nossos maridos chamavam "As Lolas", sendo que uma era a "loira",( eu ) outra a "preta" por ser morena e a outra a " mais ou menos" por nem ser uma coisa nem outra.
Ainda hoje nos tratam assim.
Entre os vários passeios que se podem fazer, um deles é ir de catamaran a Cayo Coco ou de teco teco a Cayo Largo.
Como a "mais ou menos" se recusou a entrar no teco-teco fomos a Cayo Coco.
O Catamaran era enorme e lindo. Fomos recebidos com mojitos e Margaritas e aquela musiquinha que põe qualquer um a mexer.
A determinada altura um dos "marinheiros" informou-nos que embora estivéssemos na época em que era proibido apanhar lagostas, ele ia mergulhar e ver se encontrava algumas para o nosso almoço.
E assim foi. O catamaran ficou balançando docemente nas àguas quentes e transparentes, enquanto o intrépido mergulhador, sem máscara nem oxigénio nem nenhum acessório a não ser as mãos, se atirou para dentro de àgua à procura de uma lagostinha.
Ficámos suspensos do que iria acontecer, quando de repente ele aparece com uma enorme lagosta que atirou para dentro do catamaran, enquanto mergulhava de novo. Claro que a pobre da lagosta andava de um lado para ou outro, enquanto nós nos refugiávamos na rede onde ela não poderia chegar.
Minutos depois, lá aparece o mergulhador com nova lagosta e novo mergulho.
A certa altura já havia tantas lagostas como pessoas, e a risota era geral, porque parecia que as bichinhas tinham sido lá colocadas previamente para o nosso almoço.
Ficámos sempre com essa dúvida, que preferimos não aprofundar.
Depois do fantástico almoço, da caminhadas na praia deserta da ilha, com areia fininha e branca, iniciámos o passeio de volta.
Foi aí que 5 músicos que até aí não tínhamos visto, apareceram e começaram a tocar quase todos conhecemos e amamos: desde Rumba Azul e Maria La-Ô ao eterno "Hasta Siempre" e ao delicioso Beso Discreto.
Claro que nos desafiaram a dançar e iam-nos ensinando os passos.
Foi então que aconteceu uma coisa que me iria perseguir durante toda a estadia em Cuba:
A letra de Beso Discreto, tem uma parte no estribilho que diz assim:
Para besar-te asi, mi amor,
asi,
asi,
asi
Um dos músicos, novo e bem parecido, enquanto cantava o Beso Discreto, de cada vez que chegava a esta parte, pregava-me um sonoro beijo num ombro, primeiro perante o meu espanto, e depois perante o riso geral.
Resultado: durante o resto da viagem e ainda hoje, as minhas amigas, a propósito de nada, me dizem com um ar malandro:
O que tu queres é um Beso Asi, Asi, Asi.

Nota: a fotografia retrata o momento da apanha da 1ª lagosta...