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13 February 2008

SOB O CHUVEIRO...



Sob o chuveiro amar,
sabão e beijos,
ou na banheira amar,
de água vestidos,
amor escorregante,
foge,
prende-se,
torna a fugir,
água nos olhos,
bocas,
dança,
navegação,
mergulho,
chuva,
essa espuma nos ventres,
a brancura
triangular do sexo -- é água,
esperma,
é amor se esvaindo,
ou nos tornamos fontes?
Carlos Drummond de Andrade

1 January 2008

O 1º DIA DO RESTO DA MINHA VIDA

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come,
se passeia,
se ama,
se compreende,
se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade,
recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente,
experimente,
consciente.

É dentro de você que o Ano Novo cochila
e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

20 December 2007

PARA INDIANA JONES WITH LOVE

Atravessando o mar azul - turquesa, pela calada da noite, chegou.
Para ele Drummond de Andrade escreveu por mim:

O chão é a cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre o tapete ou duro piso
a gente compõe de corpo
e corpo a última trama.
E para repousar do amor,
vamos para a cama.
Carlos Drummond de Andrade

27 November 2007

PARA QUÊ COMPLICAR



Há dias em que os sentimentos me calam, ficam afogados na ponta do lápis, a inspiração não vem, e o talento, se o há, foi, para onde, não sei.
Assim, copiei outras palavras, maiores, que por mim falam.


PARA QUÊ COMPLICAR?

Não precisas de presentes
Nem rimas,
nem flores,
nem nada.
Basta trazeres o que sentes,
E chegares de madrugada.

Perde as mãos pelo meu corpo,
Faz-me calar com um beijo,
Como se eu fosse o teu porto,
E tu meu mar de desejo.

Deixa falar a paixão,
Não faças juras de amor,
É só carinho e tesão,
Suor, gemidos, calor.

Enrosca-te no meu seio
Os corações a bater.
Sem confusão,
sem rodeio
Mais simples não pode ser.


Carlos Drummond de Andrade