Showing posts with label solidariedade. Show all posts
Showing posts with label solidariedade. Show all posts

1 December 2010

SOLIDARIEDADE SUCKS!



Eis que chegou Dezembro e com ele o Natal e logo, logo, o Fim do Ano.
Desde que me conheço por gente este é o meu mês preferido por tudo o que o Natal encerra. Já o Fim do Ano provoca em mim uma angústia pela incógnita que encerra que faz com que nunca tenha gostado dele, excepto quando vivia no Brasil.
Com o Natal chega também algo de que não gosto. Já começaram e outras se lhe seguirão, nascendo quais cogumelos venenosos: as campanhas de solidariedade.
Quando estudamos Economia ensinam-nos que o preço dos bens é directamente proporcional à sua escassez.
Ora aqui está um exemplo de que esse princípio não é pacífico.
Treme a terra no Chile e morrem centenas de pessoas. Um Tsunami invade a Indonésia e mata milhares de pessoas.
E nós, no nosso conforto, comentamos com os nossos amigos:
- Que horror! Já viste a desgraça que se abateu sobre aquela pobre gente? As famílias inteiras que desapareceram? As crianças que ficaram sem ninguém?
E somos muitos a fazer isto. Somos milhares pelo mundo fora.
É a solidariedade de borla. Muita solidariedade a preço zero.
O tal princípio económico balança.
Chuvas torrenciais abatem-se sobre a Madeira, que é tão linda, tem tantas flores e até tem um Presidente chamado Jardim de quem ninguém gosta mas que nessa altura até isso é esquecido. E abrem-se linhas de crédito nos bancos e organizam-se espectáculos de televisão com muitas caras conhecidas das revistas que de tão rosa que são até enjoam, para atender chamadas de valor acrescentado, em que uma parte reverte a favor dos carenciados.
E nós, pegamos no telefone, se tivermos sorte ainda nos atende o Ricardo Pereira ou a Bibá Pitta e lá fazemos a tal chamadinha que nos cala a consciência de bons cidadãos. Somos muitos mas já somos menos.
É a solidariedade barata.
O tal princípio económico balança um pouco mais.
Mas eis que temos uma doença cuja cura depende de um tratamento ou cirurgia caríssimos. Que ficamos desempregados e as prestações da casa ficam por pagar. A ordem de despejo não se faz esperar e a rua, o frio, o relento é o que nos espera.
Vamos então bater à porta de um daqueles amigos que sempre nos disse:
- Eh pá, já sabes, se precisares de alguma coisa é só dizeres. Qualquer coisa que precises, conta comigo. Os amigos são para isso mesmo.
E nós, crentes, lá vamos bater a uma dessas portas. Mas...
- Oh que chatice, vens mesmo em má altura. Se tivesse sido o mês passado. Mas agora a minha sogra partiu uma perna, as aulas dos miúdos começaram e gastámos imenso nos livros. E ainda por cima já começámos a pagar o as prestações do cruzeiro do fim de ano. É que viéste mesmo em má altura.
É a solidariedade cara. E rara.
Porque era preciso estender a mão, envolver-se com a dor do outro, quiçá talvez mudar a nossa vida para ajudar o amigo.
O tal princípio económico ergue a cabeça orgulhoso. Afinal estava certo. Mais do que certo, porque para certos bens nem há preço.
Esta solidariedadezinha de Natal enjoa-me. Podem as pessoas passar fome o ano inteiro mas no Natal não pode faltar a postinha de bacalhau. E o resto do ano? Assobiamos para o lado? Os sem abrigo passam frio e dormem envoltos em cartões 365 noites do ano, mas na noite de Natal, ah, na noite de Natal há-de haver um albergue, uma Misericórdia, um serviço da Câmara que lhes dê guarida.
Houve alguém que me disse há uns tempos que se blinda para ouvir os desabafos das tragédias dos amigos, para não sofrer.
Pois eu não sou assim.
Eu ajudo, eu oiço, eu envolvo-me, eu estendo a mão, eu sofro com a dor dos outros.
E não é só no Natal.
People sucks!
The world sucks!