Showing posts with label Bluevelvet's feelings. Show all posts
Showing posts with label Bluevelvet's feelings. Show all posts

21 March 2011

MAIS POESIA DO QUE PRIMAVERA


O Inverno, na minha vida se prolonga.
A Poesia está sempre no meu coração.
Por isso,


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio " Cântigo Negro"

6 March 2011

(32) PORQUE É FIM DE SEMANA


Deve mesmo por ter sido sábado de carnaval que uma "suposta" canção de intervenção com mascarados e tudo ganhou o famigerado Festival da Canção. Mais uma para nos envergonhar além fronteiras.
Por isso e porque sim, apeteceu-me escarrapachar aqui as canções que um amigo, um poeta, um Homem escreveu para os antigos Festivais: José Carlos Ary dos Santos.
A par com Cavalo à Solta aqui fica a letra de Canção de Madrugar.
Para mim, as duas melhores de sempre.

De linho te vesti
de nardos te enfeitei
amor que nunca vi
mas sei.

Sei dos teus olhos acesos na noite
- sinais de bem despertar -
sei dos teus braços abertos a todos
que morrem devagar.

Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo pode acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer.

Irei beber em ti
o vinho que pisei
o fel do que sofri
e dei.

Dei do meu corpo um chicote de força.
Rasei meus olhos com água.
Dei do meu sangue uma espada de raiva
e uma lança de mágoa.

Dei do meu sonho uma corda de insónias
cravei meus braços com setas
descobri rosas alarguei cidades
e construí poetas.

E nunca te encontrei
na estrada do que fiz
amor que nunca logrei
mas quis.

Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo há-de acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer.

Então:
nem choros nem medos nem uivos
nem gritos nem pedras nem facas
nem fomes nem secas nem feras
nem ferros nem farpas nem farsas
nem forcas nem cardos nem dardos
nem guerras

Enjoy!

21 February 2011

PARABÉNS PARA MIM

Quando eu era pequenina e alguém fazia anos, enviavam-se cartas ou postais que começavam com " Salvé o dia..."

A minha mãe teve um trabalhão para me explicar o que queria dizer o "Salvé".
Normalmente depois seguia um ramo de flores ou uma linda caixa de chocolates.
Com o passar do tempo apareceram os postais alusivo à data, com bonecos e até, alguns, com o número de anos que a pessoa faz.
Depois veio a net e passaram a enviar-se os parabéns por mail. Não eu, que até no Natal mantenho a tradição dos Cartões de Boas-Festas.
Agora, a coisa é muito mais sofisticada: dão-se os parabéns pelo Facebook.
Não estou naturalmente, a criticar os " amigos " virtuais dos blogs ou do Facebook. Bem pelo contrário. Fico até bastante sensibilizada com essa gentil atitude de quem não me conhece de lado nenhum.
Alguns há que foram mais rápidos do que eu, como a Ematejoca, que mesmo antes de eu publicar este post, na dúvida, me deu os parabéns no post anterior, o que significa que teve o cuidado de anotar a data do meu aniversário e não se esqueceu de me enviar os seus votos de um dia feliz.
Estou a referir-me aos amigos, àqueles que têm a minha morada, o meu telefone, os meus contactos e ainda assim me dão os Parabéns via Facebook.
Já é tudo tão impesoal, tão virtual, tão frio que me pergunto se para o ano me enviarão um ET que ao esticar o dedo, sairá dele, faiscando a palavra " Parabéns".
Antes que isso aconteça, "Parabéns" para mim, porque apesar de já ser virtual ainda não me tornei invisível.

7 January 2011

EMOÇÕES


As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

É sabido que não sou muito patriota. Pelo menos não deste Portugal que hoje existe. Dum outro, longínquo, quando demos mundos ao Mundo é outra história. Embora por razões mal explicadas até para mim, vibre quando oiço o nosso hino cantado a plenos pulmões, mesmo a parte em que marchamos contra os canhões. Manias!
Depois, há aquelas coisas muito portuguesas, como o queijo da Serra,o vinho do Porto ou um Alvarinho branco para não falar num Quinta do Carmo tinto.
E há o Fado. Ah sim, o Fado!Fui iniciada nas lides fadistas quando tinha 16 anos pelo meu primeiro namorado e grande amor. Cantava-o maravilhosamente. E durante os vários anos em que namoramos, assisti a noites inesquecíveis de "Fadistices" onde ouvi e aprendi os clássicos. Ele e vários amigos reuniam-se para cantar Fado e mesmo quando a vida nos afastou, nunca o esqueci nem deixei de gostar de fado. Se possível passei a gostar mais porque fui aprendendo e descobrindo.

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

Tive esta noite o privilégio de estar presente numa dessas "Fadistices", onde o fado é cantado por amadores, que como o nome indica são pessoas que amam...cantar fado.E ouvi-o a ele, de novo. Passados perto de 30 anos. Continua com a mesma voz e a emoção foi igual.

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente...

Fado "Chuva" da Mariza

2 January 2011

(11) NOVA IORQUE, MEU AMOR


Quando nos vimos pela primeira vez foi amor à primeira vista.
Ah, se fosse um homem!
Tinha tudo para me fazer apaixonar. De uma beleza especial, era sensual,fazia-me rir, emocionava-me, surpreendia-me, tirava-me o fôlego.
Turista, fiz o périplo de todos os locais obrigatórios: da Estátua da Liberdade ao Empire, de Times Square ao World Trade Center.
No restaurante do último piso de uma das Torres tinha a cidade a meus pés.
Ah, se fosse um homem!
Nos museus aprendia, nos teatros divertia-me. A cultura anda pelas ruas na mistura de raças e línguas que se cruzam.
Depois, quase residente, comecei a vê-la com outros olhos. Nela cabem duas pequenas cidades ( Little Italy e China Town, onde se vende o peixe mais fresco de Nova Iorque).
Comecei a distinguir as Avenidas das Ruas e a saber qual faz esquina com qual.
E Central Park!! No Verão ou no Inverno veste-se de forma completamente diferente. Ora verde e quente ora branca e gelada. Nada de monotonias.
Ah, se fosse um homem!
E mesmo quando se percorre o País, de S.Francisco a New Orleans, de Washington a Las Vegas, nenhuma se compara com outra e nenhuma é igual a Nova Iorque. Como descer o Mississipi num barco movido a gigantes rodas não se pode comparar ao Hudson onde aterram aviões. Como as montanhas de Vermont não têm nada a ver com as de Lake Tahoe.
Como as águas frias das praias de leste não se comparam com as quentes da Califórnia.
Mas depois, volto a Nova Iorque como volto a casa.
Como voltaria para os braços do homem amado.
E foi ela que me deu o mais precioso presente de Natal que recebi este ano.
De uma forma linda,branca, silenciosa, a cidade vestiu-se de branco, a rigor, para as Festas. E foi esse rigor que impediu o avião do meu filho de partir oferecendo-me mais dois dias com ele.
Ah, se fosse um homem, eu dir-lhe-ia: Nova Iorque, meu amor!

1 December 2010

SOLIDARIEDADE SUCKS!



Eis que chegou Dezembro e com ele o Natal e logo, logo, o Fim do Ano.
Desde que me conheço por gente este é o meu mês preferido por tudo o que o Natal encerra. Já o Fim do Ano provoca em mim uma angústia pela incógnita que encerra que faz com que nunca tenha gostado dele, excepto quando vivia no Brasil.
Com o Natal chega também algo de que não gosto. Já começaram e outras se lhe seguirão, nascendo quais cogumelos venenosos: as campanhas de solidariedade.
Quando estudamos Economia ensinam-nos que o preço dos bens é directamente proporcional à sua escassez.
Ora aqui está um exemplo de que esse princípio não é pacífico.
Treme a terra no Chile e morrem centenas de pessoas. Um Tsunami invade a Indonésia e mata milhares de pessoas.
E nós, no nosso conforto, comentamos com os nossos amigos:
- Que horror! Já viste a desgraça que se abateu sobre aquela pobre gente? As famílias inteiras que desapareceram? As crianças que ficaram sem ninguém?
E somos muitos a fazer isto. Somos milhares pelo mundo fora.
É a solidariedade de borla. Muita solidariedade a preço zero.
O tal princípio económico balança.
Chuvas torrenciais abatem-se sobre a Madeira, que é tão linda, tem tantas flores e até tem um Presidente chamado Jardim de quem ninguém gosta mas que nessa altura até isso é esquecido. E abrem-se linhas de crédito nos bancos e organizam-se espectáculos de televisão com muitas caras conhecidas das revistas que de tão rosa que são até enjoam, para atender chamadas de valor acrescentado, em que uma parte reverte a favor dos carenciados.
E nós, pegamos no telefone, se tivermos sorte ainda nos atende o Ricardo Pereira ou a Bibá Pitta e lá fazemos a tal chamadinha que nos cala a consciência de bons cidadãos. Somos muitos mas já somos menos.
É a solidariedade barata.
O tal princípio económico balança um pouco mais.
Mas eis que temos uma doença cuja cura depende de um tratamento ou cirurgia caríssimos. Que ficamos desempregados e as prestações da casa ficam por pagar. A ordem de despejo não se faz esperar e a rua, o frio, o relento é o que nos espera.
Vamos então bater à porta de um daqueles amigos que sempre nos disse:
- Eh pá, já sabes, se precisares de alguma coisa é só dizeres. Qualquer coisa que precises, conta comigo. Os amigos são para isso mesmo.
E nós, crentes, lá vamos bater a uma dessas portas. Mas...
- Oh que chatice, vens mesmo em má altura. Se tivesse sido o mês passado. Mas agora a minha sogra partiu uma perna, as aulas dos miúdos começaram e gastámos imenso nos livros. E ainda por cima já começámos a pagar o as prestações do cruzeiro do fim de ano. É que viéste mesmo em má altura.
É a solidariedade cara. E rara.
Porque era preciso estender a mão, envolver-se com a dor do outro, quiçá talvez mudar a nossa vida para ajudar o amigo.
O tal princípio económico ergue a cabeça orgulhoso. Afinal estava certo. Mais do que certo, porque para certos bens nem há preço.
Esta solidariedadezinha de Natal enjoa-me. Podem as pessoas passar fome o ano inteiro mas no Natal não pode faltar a postinha de bacalhau. E o resto do ano? Assobiamos para o lado? Os sem abrigo passam frio e dormem envoltos em cartões 365 noites do ano, mas na noite de Natal, ah, na noite de Natal há-de haver um albergue, uma Misericórdia, um serviço da Câmara que lhes dê guarida.
Houve alguém que me disse há uns tempos que se blinda para ouvir os desabafos das tragédias dos amigos, para não sofrer.
Pois eu não sou assim.
Eu ajudo, eu oiço, eu envolvo-me, eu estendo a mão, eu sofro com a dor dos outros.
E não é só no Natal.
People sucks!
The world sucks!

18 October 2010

DE REPENTE


De repente, na enorme mesa onde toda a família se reunia, o meu pai na cabeceira, estava seguido de mim, dos meus filhos e da minha neta.
Poucas pessoas têm a sorte de poder reunir 4 gerações de uma família e eu, se quisesse escrever um livro sobre a minha vida tinha ali um protagonista para cada capítulo.
De repente, apercebi-me que ambos os topos, o meu pai com 85 anos e a minha neta com 2 meses tinham adormecido.
Encontraram-se ambos no mesmo plano das almas boas e inocentes.
Se por um lado há uma vida que começa, no reverso há uma cujo fim inexoravelmente se aproxima.
E eu, não sei lidar nem com uma coisa nem com a outra.
E não quero que me digam, de repente:
É a vida!

29 September 2010

SOMETHING STUPID LIKE...I LOVE YOU


A Clínica é fora de Lisboa e eu só lá tinha estado uma vez. Na véspera, dia das burocracias, das preparações e do internamento.Ele foi a conduzir e eu tenho o malvado defeito de quando não sou eu a conduzir não reparar nos caminhos.
Assisti a todos os preparativos e fiquei até ao último minuto. Antes de sair perguntei ao enfermeiro a que horas teria que lá estar na manhã seguinte para ainda o ver antes de entrar para a sala de operações.
- O máximo até às 8.
Nessa noite mal dormi. Às 6 da manhã já estava a pé e às 7 no carro. Sabia que era na Parede mas não fazia a menor ideia de como chegar à Clínica. Pus a mente em piloto automático e a coisa até não correu mal até entrar na auto estrada e me enfiar numa fila que parecia nunca mais ter fim.
Os minutos iam passando e a minha aflição crescendo.
Por milagre, só pode ter sido, de repente dei de caras com uma tabuleta que indicava a Clínica e pouco depois estava no parque de estacionamento.
Faltavam 3 minutos para as 8 da manhã.
Tinha um jardim enorme para atravessar, uma escadaria imensa para subir e não sei quantos corredores para percorrer até chegar à cama dele. Olhei para os sapatos e amaldiçoei a triste ideia de calçar uns com 8 centímetros de salto. Só havia uma hipótese e foi o que fiz: descalcei-os.
Com o ar mais digno que consegui arranjar desatei a correr, muito bem vestida mas descalça e de sapatos na mão.
Quando cheguei à porta do quarto mal respirava e o meu coração parou quando vi a maca onde ele estava deitado a ser empurrada para o elevador.
Felizmente que o enfermeiro era um amor e quando me viu parou e segurou a porta, empurrando a maca para trás.
Encostei a cabeça no peito dele e murmurei: Vai correr tudo bem. Amo-te, meu amor.
Numa voz já entaramelada pelos sedativos ele murmurou uma frase. Agarrei-lhe na mão e só a larguei quando a maca entrou toda no elevador e as portas se fecharam.
Sentei-me na cadeira mais próxima de sapatos na mão, tentando recobrar o fôlego e fazer com que as pernas parassem de tremer.
Foi então que uma enfermeira se aproximou de mim e me disse:
- Não se preocupe. Vai ver que vai correr tudo bem. O seu marido está em boas mãos. Vê-se mesmo que estão casados há pouco tempo.
Sorri sem dizer nada.
Encostei a cabeça na parede que estava atrás, fechei os olhos numa prece silenciosa enquanto ouvia de novo a frase que ele me tinha murmurado:
- Sabia que não ia falhar, mãe. Também a amo muito.

27 September 2010

TENTANDO ESCREVER


Sei agora coisas que não sabia há 5 meses. Significa que aprendi e isso é bom? Nem tanto. Não, quando o que se aprende não nos dá novos pensamentos ou novos mundos.
Nessa altura, escrever era algo tão natural para mim como comer, dormir, pensar ou ver. Quando olhava para alguém ou para algo, subconscientemente um post começava a tomar forma na minha cabeça.
Uma mulher com uma mancha na saia era muito mais que isso. Sobretudo a mancha. O que seria? Como teria ali aparecido? Porque continuaria ali? Agora isso não acontece. A mancha é uma mancha. Só isso.
A criança que chorava, chorava porquê? Porque tinha fome? Medo? Porque estava abandonada? E daí a história começava.
Agora, é só uma criança que chora.
Independente do dom ou do talento, como lhe queiram chamar, escrever é também um exercício. E como exercício que é necessita de ser exercitado ( perdoem a redundância). Como quando se faz ginástica e se pára, quando se recomeça, os músculos doem.
Com o escrever é bem pior.
Sobretudo quando as letras não se desenham para juntas se tornarem palavras que em conjunto darão um texto.
É o que dói não são os músculos: é a alma.

10 February 2010

E VÂO LÁ 3 ANOS


O tempo não cura tudo.
Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções.
Martha Medeiros

4 February 2010

PALAVRAS...


As palavras ajudam-nos na comunicação, mas como podemos ter a certeza que as pessoas nos compreendem verdadeiramente?!
Elas não sentem exactamente o mesmo que nós.
Já Fernando Pessoa dizia: "The abyss from soul to soul cannot be bridged."
Por mais palavras que usemos, muitas das coisas que dizemos nunca são totalmente percebidas.
Porque só o outro sabe o que vai na sua cabeça assim como só eu sei o que vai na minha.
E por isso, quando nos dizem: "Eu percebo o que estás a passar", até são capazes de perceber, mas à maneira deles, nunca sentindo nem nunca percebendo o que tu sentes.

3 February 2010

..........


The Exploding Clock by Salvador Dali

Cansaço.
Um cansaço que não é fisico.
Nem psíquico.
Um cansaço que não existe.
Ou se existe
Só se sente porque está cansado.
Cansada.
Cansada do que sou.
Do que fui
E deixei de ser.
Cansada de um sentimento cansado.
Cansaço.
Daquele que ninguém explica.
Que pouca gente sente.
Um cansaço.
De tudo.
Um cansaço de nada.
Cansaço
Do que não existe.
Se o cansaço.
Existe.

27 January 2010

...




Houve dias em que eu não cabia no estreito do mundo. Era como se eu estendesse os braços dançando liberta, e as minhas mãos estabanadas derrubassem vasos, estátuas, louças, milhares de coisinhas delicadas e mais ou menos preciosas que se fossem espalhando em cacos ameaçadores pelo chão.
Ás vezes eu pisava-as, cortava a planta dos pés e ia pisando o chão esbranquiçado com os pés ainda a sangrar. Deixava as minhas pegadas ao longo do caminho, pegadas tortas, pegadas livres.
Doía, mas eu chorava baixinho para esquecer a dor, para esquecer as feridas, para nascer de novo, livre como um passarinho.
Tenho cortes não cicatrizados que volta e meia voltam a doer e as lágrimas rolam sem que eu perceba, mas eu abro os braços de novo e danço, danço rodando a saia e despenteando os cabelos, porque preciso ir mais longe, já não aguento mais a pequenez das coisas, não aguento mais a mesmice da vida quotidiana.
Nada disso me serve. Ainda não sei para onde ir, mas sigo em frente, porque sei que não posso ficar.
Sei que mereço mais, e não me contento com o que a vida me dá.
Já não sou uma menina assustada, encolhida num canto, à espera que a vida me convide para dançar.
Já não enfeito os meus dedos com anéis coloridos, não espalho flores desbotadas nos meus cabelos loiros e a vida não me sopra nos ouvidos, delicada, doce.
Mas convida-me.
Convida-me e eu vou. Seja música ou seja silêncio, seja cinza ou seja cor, seja medo ou seja vontade, seja alegria ou seja dor.
Seja lá o que for, eu vou.


Will you catch me if I fall??

22 January 2010

50.000


Quando há dois anos e uns meses comecei este blog, além de não entender nada do assunto, eram outras as razões que me moviam.
Queria escrever, sim, mas sobre tudo e mais alguma coisa, pôr vídeos, mails giros, fotos engraçadas e por aí.
Com o tempo, nem sei bem as razões, talvez por influência de alguns magníficos vizinhos, fui burilando a ideia e a pouco e pouco, aquilo que mais parecia uma loja de artigos chineses foi-se transformando, julgo eu, numa boutique mais exquisite.
Saíram os vídeos e os mails ( ficaram para o Não Resisti e Porque é Fim-de-Semana), e desapareceram os textos que não eram de minha autoria.
Isso reflectiu-se na postagem que era diária e deixou de ser e naquilo que escrevo.
Sabe bem quem escreve por obrigação, ( os cronistas semanais ou jornalistas) que isto da inspiração, não se compra nem se inventa.
Vem, nasce. Porque se vê um objecto que nos lembra algo, porque um estado de alma se instala, porque uma palavra que nos veio à mente de repente se transforma num texto que nos faz um formigueiro nos dedos e não pára até que esteja plasmado nas folhas de um caderno.
Assim que, hoje em dia não escreva todos os dias e escreva sobre os mais diversos assuntos.
De tal modo, que nem me tinha apercebido que já tinha ultrapassado a barreira dos 50.000 leitores que deixaram 11.961 comentários. ( O sitemeter que vêem marca 45.705 porque o instalei 5.000 leitores depois de ter aberto o blog).
Mas são números. Nada mais que números. Não sei exactamente o que significam. Nem sôbre isso me interrogo.
Como já disse em vários posts, escrevo porque escrevo, porque isso me é vital como respirar. Para mim, o que escrevo é pouco, e preciso tanto!
Escrever ajuda-me a pensar.
Deixo os pensamentos escorrer pela ponta do lápis para que, quando releio, perceber o que faz ou não sentido.
Preciso escrever para deixar de ter esta sensação de haver mil frases, ideias, sentimentos a bailar na minha cabeça.
Penso no papel e vejo o que vale a pena ficar gravado e o que é ruído.
Mas raramente preciso de me arrumar.
Não me dêem muito, mas não me tirem um lápis daqueles com borrachina na outra ponta e um papel. Mais precisamente um Moleskine.
E já agora, uma ideia.

Nota: a imagem é a do 1º topo deste blog, que se manteve durante quase 1 ano e é da minha autoria e da minha máquina.

19 January 2010

DÔR MENTE



Às vezes fico com o coração apertadinho.
Tão apertadinho que me falta o ar,
Que me sinto dormente.
É um desconforto,
Um frio
Que me gela o corpo.
Que me gela a alma.
Ou o que resta dela.
Ás vezes, acho que fiquei para trás
Agarrada a qualquer lembrança
Que não me pertence.
Pelo menos agora
Já não.
E é quando me sinto assim...
Quando o meu coração não detém
As lágrimas que pelo rosto correm
Que sinto a falta.
A falta de alguém.
Porque preciso indiscutivelmente
De alguém.
Que sem julgar me oiça.
Que sem me repreender me espere.
Que sem desesperar me chame.
Que sem me olhar me toque.
Que sem vontade me ame.
Que sem fé acredite.
Hoje só preciso disto.
E já é muito.

17 November 2009

(2) POST MUITO PESSOAL



Na base da abertura do Bluevelvet esteve o meu grande, enorme, imenso gosto pela escrita.
Desde que me lembro que escrevo e até tenho artigos publicados em jornais e revistas. Então porque não aproveitar este caminho imenso, cheio de desafios que é ter um blog?
Achava eu, naive que sou, que tinha muitas coisas para dizer, mails giros que me enviavam, posições e opiniões que queria manifestar sobre os mais variados assuntos, nacionais e internacionais.
Rapidamente me apercebi que os mails corriam na net à velocidade da luz, e que não tinha a menor graça publicar coisas que já todos tinham lido.
Mais rapidamente ainda percebi que não queria meter-me em polémicas políticas. Aproveito os blogs dos vizinhos para lá deixar a minha contribuição nas polémicas levantadas. Foi por isso que resolvi abrir outro blog, o surfinginthewind, blog que quase ninguém lê, mas que me dá imenso gozo ter. Lá, desbundo à vontade, faço o gosto ao dedo com os vídeos, os mails, as críticas políticas que me apetece. Julgo que devo ter muito poucos textos meus.
Esses ficaram para o Bluevelvet.
Mas a Bluevelvet de hoje não é a mesma mulher de há dois anos e tal atrás.
Eu era uma mulher feliz, que gargalhava, hoje mal sorrio, que sonhava, que confiava nas pessoas, agora limito-me a dar-lhes o benefício da dúvida, sofri desilusões que bem se escusavam, e algumas bem que doeram, sobretudo a última porque era o colo onde me aninhava em noites de vendaval e aprendi que ao contrário daquilo que apregoam, a solidariedade só serve para as grandes causas. Quando é preciso estender a mão a alguém que está mesmo ao nosso lado, vira-se a cara como quem não quer nada, assobia-se para o alto e segue-se em frente. Afinal, para problemas já nos bastam os nossos, não é mesmo?
Mas de um blog solto ao vento na imensa blogosfera, vieram os leitores que se tornaram fiéis, alguns, que mesmo sem conhecer, se tornaram amigos de quem sinto a falta, apareceu um condomínio onde dei comigo a morar, e de repente tornei-me a Blue.
Fiz um post insurgindo-me quanto a chamarem-me assim, já que eu tinha muito mais de Velvet do que de Blue. Seria premonição?
Agora tenho um dilema:
Se quando comecei o Bluevelvet não percebia nada deste mundo, pelo menos para o abrir, bastou-me seguir as instruções.
Mas como se recomeça um blog sem livro de instruções? Como se renovam os afectos? E existem? Escrevo para quem? Como? Porquê?

Agora quando saio de casa e venho aqui… presto mais atenção às pessoas… quantos de entre aqueles com quem me cruzo foram, são ou serão EU?

22 October 2009

....


Sabedoria vem em pílulas.
Tristeza vem em gotas.

8 October 2009

( 7) POSTALINHO DA SI

Como será que a Si adivinhou que fico assim quando estou danada?

6 October 2009

UMA GRACE CHEIA DE GRAÇA


Ela chegou ao meu blog muito pouco tempo depois de o ter começado.
Como sempre faço, fui ao blog dela agradecer a visita e fiquei encantada com os posts.
Na altura ela tinha um blog completamente diferente daquele que tem agora, inclusivé com outro endereço.
Quando cliquei para deixar um comentário abriu-se um caixinha de comentários que me deixou apaixonada. Tinha umas meninas que eu não conhecia e era lindo.Disse-lhe isso mesmo, além de deixar o comentário ao post.
Para além dos posts que eram magníficos ela é brasileira e vivia, na altura, em Maceió, cidade que conheço muito bem e da qual guardo as melhores recordações.
Tudo somado, o blog, os posts e o facto de ela ser brasileira fizeram com que me tornasse cliente.
Passado um tempo, enviou-me um mail dizendo que ia fechar o blog e que, se eu quisesse faria um layout para o meu blog com as tais meninas e a caixinha de comentários.
Como não a conhecia fiquei muito sensibilizada com a atenção e aceitei.
Desde então muita coisa aconteceu: todos os layouts do meu blog são feitos por ela e é sempre um trabalhão porque, sei-o agora, ela é uma perfeccionista.Tudo o que faz tem que ficar perfeito, e mesmo quando eu digo que está óptimo e pode ficar assim, ela sempre inventa um novo até ficar, como ela diz, "com a minha cara".
Com o tempo ficámos amigas. Fiquei a saber que é casada com um sueco e que estava a tratar de tudo para ir viver para a Suécia. E foi mesmo.
Quando lá chegou, embora seja advogada também, percebeu que não poderia exercer lá e como está sempre a andar para a frente, sempre metida num projecto qualquer, resolveu aprender sueco. E se bem o pensou, melhor o fez. Matriculou-se numa escola e hoje já fala e entende sueco. Mas isso não lhe bastava. Como sempre gostou de fotografia, resolveu começar a fazer cursos de fotografia e hoje trabalha como fotógrafa.
Desde que está na Suécia, já veio a Portugal 2 vezes, uma com o marido e outra com a filha.
Da 1ª vez fui buscá-los ao aeroporto, jantaram em minha casa e fiquei absolutamente fascinada com a força, o humor e a inteligência dela. E sobretudo com a energia positiva que ela espalha por onde passa.
Mas nada disto seria muito extraordinário, não fora uma ligação estranha que ela tem com Africa e com os campos de refugiados. Já esteve lá 8 vezes, "adoptou" uma família de lá para quem manda dinheiro na tentativa de melhorar um pouco o seu sofrimento e de os tirar do Campo.
O seu projecto era escrever um livro com muitas fotografias, para espalhar o interesse de todos por aquela gente.
Os contactos com os senhores da ONU para os refugiados nunca deram em nada porque eles queriam fotografias bonitas dos campos. Como se ela pudesse " inventar" fotografias bonitas da tragédia que presenciava sempre que lá ia.
Como não é de desistir ela própria editou o livro já na Suécia, e está a divulgá-lo através do blog e dos amigos dos blogs que passam a palavra.
Há um mês, por mero acaso, proporcionou-se voltar a Moçambique.
De lá, mandou-me um mail, do qual retirei algumas das coisas que me escreveu:

"Voar até Maputo, a Capital de Mocambique é seguro. O negócio é fazer o trajecto de 3 horas, entre Maputo e Nampula, no norte moçambicano e bem perto do Malawí. O aviao é pequeno, já sofri um acidente nele e o tempo fecha. Moçambique é moradia de ciclones e mudancas de tempo que vêm das Comores, Ilhas Maurícias e por aí vai. Mas, eles são comuns entre março e junho.
O que aconteceu DESTA VEZ dentro do aviao foi algo terrivel...O aviao ficou 20 minutos dentro de uma nuvem preta e cinzenta...e balançava de tal forma que as malas caíram todas da bagageira. Parece que meu coracao parou. Se eu sofresse do coracao, teria morrido. Nada me veio à mente...A nao ser as palavras do meu marido, dias antes...
Eu viajei sozinha, com uma mochila nas costas, com a câmera, passaporte, 3 blusas, cartão de crédito e dinheiro em dólares e meticaz (a moeda mocambicana). O ex-director do Campo me disse via Skype que, caso eu quisesse, ele estaria no Campo para me proteger. E eu disse que não tinha medo de refugiados e sim da própria ONU, que dificulta a entrada de quem vai lá fazer as coisas por conta própria.
Cheguei em Moçambique anestesiada, depois do piloto fazer um pouco forçado nos descampados do Norte...
A ruandesa estava me esperando...E junto dela, o marido e as 3 criancas...Conversamos e marcamos para nos encontrar no outro dia no Campo de refugiados. Mas, nunca senti aquilo. Meu corpo ficou todo arrepiado quando entrei no Campo. Campo de refugiados é um lugar com energias muito negativas.O actual diretor do campo se reuniu a uns congoleses que mexem com magia negra e a coisa complicou e muito...Crendices á parte, a Igreja católica vem tentando combater , mas não tem sido fácil...
O que sei é que em 8 dias vivi entre dois continentes, emoções sem fim...
Sei que gostaria de ajudar a todos eles. Mas nao posso. Sei que gosto de estar lá...mas me faz mal demais...Perdi 3 kg. E nunca senti antes a angústia que senti desta vez. Viajar de onibus da Africa do Sul para o Campo de refugiados são 48 horas de uma estrada perigosa para uma mulher que viaja sozinha...
Sinceramente falando...NAO ACONSELHO NINGUÉM A VISITAR CAMPOS DE REFUGIADOS. É UM LUGAR SOMBRIO, TRISTE, INFELIZ E QUE ATÉ AS CRIANCAS VIVEM DE OLHAR PERDIDO NO TEMPO.
Uma VEZ QUE SE ENTRA NUM AMBIENTE desses, parece que tudo de ruim nos acontece. UMA ANGÚSTIA SEM FIM SE APOSSA DA GENTE.
Para vocês terem idéia, ainda nao conheci um funcionário da ONU que dê um sorriso a um refugiado.NENHUM...ELES SÃO ANGUSTIADOS, INFELIZES. INSENSÍVEIS, TRISTES E FRIOS.ENTRAM NO CAMPO DIRIGINDO UMA CAMIONETE, JOGANDO POEIRA NA ESTRADA, NAO OLHAM NA CARA DE NENHUM DELES. Eles sao um NÚMERO.
Falei com a família ruandesa sobre juntar o dinheiro do livro, da ajuda de amigos blogueiros, e de amigos suecos(estes ultimos querem fazer um encontro em novembro para juntos comprarmos uma casa para a familia ruandesa) e dar a eles condições de sairem do Campo. Eles ficaram indecisos. Têm medo de perder a ajuda da ONU. E eu perguntei. QUAL AJUDA, SE VOCêS ESTÃO 3 MESES SEM RECEBER NADA?SEM COMIDA, NADA?
FUI APENAS PARA VÊ-LOS...E VOLTEI DE CORAÇÃO DESPEDAÇADO. MAIS UMA VEZ, PRECISO ME REERGUER DO NADA.

A grande diferença entre a GRACE e qualquer um de nós, é que ela não se limita a escrever sobre o assunto. Ela luta. Ela faz.
Então, pensei que poderia ajudar fazendo este post e pedindo a todos vocês que me lerem que comprem o livro. Só custa 25 Euros, podem pagá-lo via Paypal mas o melhor é entrarem em contacto com ela através deste mail: grace.sweden@gmail.com


Nota: Ela nem me pediu, nem sabe que eu ia escrever este post

23 September 2009

CRISES


Crises e mais crises...
Seriam essas crises, crises existenciais ou desistenciais?
Crises de relutância, crises de entrega
Crises de melancolia, crises de nostalgia
Crises de total euforia...
Crises de um contentamento infeliz ou de um feliz descontentamento?
Crises de me querer achar e logo em seguida me querer perder...
Crises de me mostrar para todos para depois me esconder
Crises de controlar tudo e de perder o controle
Crises de um momento de verdade no meio de uma vida de mentiras.

Crise de não ter a certeza de que tudo isso é só uma crise....