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2 January 2011

(11) NOVA IORQUE, MEU AMOR


Quando nos vimos pela primeira vez foi amor à primeira vista.
Ah, se fosse um homem!
Tinha tudo para me fazer apaixonar. De uma beleza especial, era sensual,fazia-me rir, emocionava-me, surpreendia-me, tirava-me o fôlego.
Turista, fiz o périplo de todos os locais obrigatórios: da Estátua da Liberdade ao Empire, de Times Square ao World Trade Center.
No restaurante do último piso de uma das Torres tinha a cidade a meus pés.
Ah, se fosse um homem!
Nos museus aprendia, nos teatros divertia-me. A cultura anda pelas ruas na mistura de raças e línguas que se cruzam.
Depois, quase residente, comecei a vê-la com outros olhos. Nela cabem duas pequenas cidades ( Little Italy e China Town, onde se vende o peixe mais fresco de Nova Iorque).
Comecei a distinguir as Avenidas das Ruas e a saber qual faz esquina com qual.
E Central Park!! No Verão ou no Inverno veste-se de forma completamente diferente. Ora verde e quente ora branca e gelada. Nada de monotonias.
Ah, se fosse um homem!
E mesmo quando se percorre o País, de S.Francisco a New Orleans, de Washington a Las Vegas, nenhuma se compara com outra e nenhuma é igual a Nova Iorque. Como descer o Mississipi num barco movido a gigantes rodas não se pode comparar ao Hudson onde aterram aviões. Como as montanhas de Vermont não têm nada a ver com as de Lake Tahoe.
Como as águas frias das praias de leste não se comparam com as quentes da Califórnia.
Mas depois, volto a Nova Iorque como volto a casa.
Como voltaria para os braços do homem amado.
E foi ela que me deu o mais precioso presente de Natal que recebi este ano.
De uma forma linda,branca, silenciosa, a cidade vestiu-se de branco, a rigor, para as Festas. E foi esse rigor que impediu o avião do meu filho de partir oferecendo-me mais dois dias com ele.
Ah, se fosse um homem, eu dir-lhe-ia: Nova Iorque, meu amor!

16 October 2009

(10) NOVA IORQUE...MEU AMOR


Há uns tempos atrás, a nossa PresidentA caluniou-me na vizinhança, levantando-me "um falso" como diria o alter ego dela, afirmando que as minhas malas de griffe eram compradas em Chinatown.
Tenho andado muito ocupada a tratar dos crimes dos outros Presidentes que com as recentes eleições vieram todos ao de cima e ainda não tinha tido tempo de lhe responder.
Mas, embora não vivamos num Estado de Direito, aqui no meu blog os crimes não prescrevem porque eu estou atenta aos prazos.
Daí que passe a lavar a minha honra para aprenderem que não me podem enxovalhar em praça pública, assim sem mais nem menos.
Pois fique a senhora sabendo que quer as minha Chanel como as Dior são compradas na Av. Montaigne em Paris, onde sou atendida por umas empregadas chiquérrimas que até me tratam pelo nome.
Já as Prada, as Dolce and Gabbana e as Louis Vuitton compro em Nova Iorque, ou nas boutiques próprias ou no Saks.
Porque em Chinatown tirando o mercado do peixe, que é o mais fresco da cidade, tudo o resto é falso, falsíssimo, mal amanhado ( não o peixe ).
Basta olhar para os pespontos das LV, para os monogramas da Chanel ou para o forro das D&G para ver que aquilo é do mais foleirito que há. Assim tipo Feira de Carcavelos, para pior.
MAS....
Mas, como em tudo na vida é preciso saber. E eu só aprendi há uns anos quando me tornei uma New York Baby Girl.
É sabido que todas as marcas de alta costura fabricam os seus produtos na China onde a mão-de-obra é mais barata, e por exemplo, as peles, na Turquia. Daí que exista uma máfia instalada que desvia milhares de produtos verdadeiros para dois mercados preferenciais: Bangkok e Nova Iorque.
Na altura do embarque das mercadorias há as que vão directas para as boutiques e as que vão para o mercado paralelo.
De tão institucionalizado que está já se tornou quase legal. Ao ponto de as próprias marcas receberem lucros sobre estes produtos "desviados". No fundo é um pouco " se não os podes vencer, junta-te a eles".
Só que para se tornar cliente desse mercado paralelo tem que se passar por várias aventuras, que matam qualquer pessoa que padeça de algum mal de coração.
A saber:
Os turistas que não percebem nada do assunto enfiam por Canal Street, vêem as malinhas todas penduradas, ficam deslumbrados com os preços e toca de comprar tudo à má fila pensando que estão a fazer uma grande pechincha, sem duvidar que o que estão a comprar é totalmente falso.
Quando as asas se começam a desfazer, os fechos éclair a encravar, para já não falar da pele, que é plástico, do bom, mas plástico, aí é que percebem.
São as pequeninas lojas das ruas transversais que têm a crème de la crème. Mas à vista, mesmo nestas, tudo o que está pendurado é falso.
Tem que se saber as moradas das que têm os tesouros guardados, ( moradas essas que nos são dadas por clientes habituais) e uma senha que varia todas as semanas.
Depois, entra-se na loja, que normalmente tem a largura de um corredor e quase tem que se entrar de lado, dirigir-se à chinesa mais velha e além de dizer a tal senha, convém levar um recorte da ou das coisas que se quer ( malas, acessórios, sapatos), baixinho murmurar a senha e passar-lhe os recortes das revistas para a mão.
A partir daí a aventura começa. Mas desenganem-se se pensam que pagam barato. Pagam muito mais barato, mas ainda assim, bem caro.
Quando há anos saiu o célebre modelo Cambon da Chanel que nas lojas era vendido, dependendo do tamanho, entre 1000 a 15000 euros, em Chinatown, as verdadeiras eram vendidas a 300/400 euros. E isto serve para óculos, cintos e até sapatos.
A 1ª vez que me meti numa aventura dessas levava tudo direitinho, entrei pela loja dentro com ar entendido, passei os recortes para a mão da chinesa com o ar mais discreto do mundo, ela murmurou qualquer coisa em chinês que obviamente não percebi, e de repente a parede do fundo da loja entreabriu-se, ela puxou-me e eu dei por mim num cubículo sem qualquer espécie de luz e onde não se ouvia um único som.
O meu coração disparou e comecei logo a pensar que orgãos é que tinha em bom estado para me tirarem. Para mal dos meus pecados cheguei à conclusão que tirando os pulmões que deviam estar um bocado pretos à conta dos cigarros, tudo o resto estava em muito bom estado: desde os rins ao coração passando, quiçá pelos olhos.
Enquanto tudo isto me passava pela cabeça e maldizia a minha mania das griffes, a chinesa puxou-me e percebi pelo barulho que começava a descer umas escadas enquanto dizia: Follow, follow.
E eu, sem ver um palmo à frente do nariz, lá followei, porque assim como assim também não me servia de nada voltar para trás porque não sabia sair dali.
E fomos descendo aquilo que me pareceram ser umas escadas intermináveis que terminavam num túnel que não acabava mais. Tive a nítida sensação que estava a percorrer túneis por baixo de Chinatown. E estava mesmo.
Por fim ela parou tão de repente que choquei com ela e acendeu uma luz. E depois outra e mais outra.
Eu não queria acreditar no que via: à minha frente abria-se um espaço imenso, tipo loja, todo decorado como as próprias boutiques e separado por marcas.
Nas prateleiras, devidamente arrumadas e iluminadas estava lá tudo. Era só escolher. Havia balcões, sofás e espelhos.
Senti que tinha entrado na gruta do Ali Bábá.
Com a sua proverbial e conhecida calma, a chinesa sentou-se num dos sofás enquanto eu me passeava perdida no meio da profusão de artigos à venda.
Depois de provar, trocar, experimentar lá comprei o que queria. Desde uma pulseira do Marc Jacobs a umas sandálias LV, uns óculos Chanel e várias malas.
Tudo foi metido nos conhecidos sacos pretos do lixo usados em Nova Iorque depois de pago em dinheiro vivo. (sempre)
Depois disso a chinesa entregou-me um cartão com uns dizeres em chinês e disse-me: you, keep it. Era o meu passe para novas visitas.
Fizémos o caminho de volta, de novo às escuras, até ao cubículo onde se abria por artes mágicas a porta para a loja.
Aí, ela sacou de um aparelho estranhíssimo, meio telemóvel meio walkietalkie e desatou a falar em chinês a uma velocidade incrível enquanto uma voz masculina lhe respondia. Tanto quanto percebi devia estar à espera que o comparsa que estava na rua lhe dissesse que não havia polícia à vista e lhe dar luz verde para abrir a porta.
Mal a porta se abriu ela empurrrou-me e disse: go, go, go.
E eu fui. Fui e só parei para me meter num táxi que me levou de volta a casa. Normalmente, em Nova Iorque, até às 10 da noite ando sempre de metro, mas estava demasiado nervosa para aguentar os 45 minutos que o metro leva desde Chinatown ao Upper East Side.
Mal cheguei a casa despejei tudo em cima da cama e desde aos números de série às garantias estava lá tudo.
Liguei para a minha amiga que me tinha dado as coordenadas e perguntei-lhe porquê que não me tinha avisado.
- Porque senão não tinha graça.
O facto é que nunca mais fui às compras sem ser acompanhada por alguém que ficava cá fora. Just in case!
Tive muitas outras aventuras deste estilo sendo que a mais extraordinária foi enfiar-me por uma daquelas tampas que estáo nas ruas e de onde sai o fumo que se vê no Inverno.
Só para verem como não há dúvidas quanto ao facto destes artigos serem, de facto, verdadeiros, numa viagem de retorno a Lisboa, um dos trolleys da LV chegou danificado. A própria Tap o mandou à LV de Lisboa para reparar ( no caso foi substituído). Como calculam, se fosse falso tal não seria possível.
Feita a minha defesa e naturalmente absolvida, condeno a PresidentA a, quando for a Nova Iorque ir fazer umas comprinhas destas e aguentar!

Nota: Só mais um aviso. Nunca, mas mesmo nunca saiam de uma loja destas sem comprar nada.

11 September 2009

(8) NOVA IORQUE,MEU AMOR...IN MEMORIAM



Porque há coisas que simplesmente ultrapassam a nossa compreensão e envergonham toda a Humanidade.
É bom não esquecer!

16 February 2009

( 7 ) NOVA IORQUE, MEU AMOR


Eu e os génios temos uma entente cordiale:
às vezes zango-me com eles e cortamos relações. É excelente porque eles nem sabem que eu existo e portanto isso não os incomoda, e eu posso ignorá-los à vontade.
Ás vezes, depois fazemos as pazes. Nem sempre.
Agora estou um bocadinho amuada com Woody Allen. Mas só um bocadinho. Porque a verdade é que o homenzinho pequenino, com um ar insignificante, inseguro, hipocondríaco, neurótico que veste a pele de anti-herói e de mal-amado pelas mulheres, tem duas coisas, entre outras, que me fazem estar de bem com ele.
Uma é o facto de ele gostar de nós, mulheres, como poucos cineastas.
A outra é o seu amor por Nova Iorque.
Se um turista quiser perceber porquê que há pessoas que têm paixão por Nova Iorque não pode ver só a Estátua da Liberdade ou o Empire State Buildinig, além dos outros locais de visita obrigatória.
Isso, provavelmente dar-lhe-á a imagem da cidade que fascina mas que assusta pela sua grandeza e onde “ nunca poderia viver”.
Mas se fizer o percurso da Nova Iorque que Woody Allen nos mostra nos seus filmes, aí sim, aperceber-se-á da alma da Big Apple..
A Nova Iorque dele é a verdadeira.
Das esquinas especiais, dos museus, dos “Delis”, das árvores de Manhatten.
Se quiserem acompanhar-me num tour pelos mais memoráveis locais de filmagens dos seus filmes, podemos começar por aquele que é considerado a sua obra-prima: Annie Hall.
Para além de ter lançado a moda das mulheres começarem a usar gravatas de homem sobre camisas compridas, blazers e chapéus, entre as cenas mais memoráveis incluem-se as filmadas no Beekman Theatre e no Thalia Cinema .
Manhattan continua a ser o favorito dos aficcionados de Woody Allen. Filmado a preto e branco e com música de Gershwin, mostra-nos a John’s Pizzeria (278 Bleecker Street em Greenwich Village), um clássico dos restaurantes da cidade, o Elaine’s, (1703 Second Avenue entre East 88th e East 89th Street) e aquela que é considerada a cena mais famosa do filme, quando Woody e Diane Keatons se sentam num banco em Riverview Terrace em Sutton Square, mesmo por baixo da 59th Street Bridge no east side de Manhattan, para verem o nascer do sol..
Não é fácil explicar o que é um Deli. É um restaurante, normalmente grande, que está aberto 24 horas por dia, onde se pode comer ou levar comida pronta para casa, a preços muito razoáveis.
Em Broadway Danny Rose aparece aquele que é seguramente um dos mais famosos de Nova Iorque, o Carnegie Deli situado no 854 da 7ª Avenida. Woody frequenta-o desde sempre e fez questão de o colocar neste filme.
The Pomander walk e o Central Bar aparecem em Hannah and Her Sisters, o De Lucca Café em Husbands and Wives.
E por aí podíamos continuar.
Mas o melhor fica para o fim.
E o melhor acontece às 2ªs feiras no bar do Hotel Carlyle. É lá que há anos, Woody Allen toca com uma banda de amigos, a New Orleans Jazz Band.
É uma hora e meia mágica, em que ele percorre os temas musicais dos seus filmes, ao sabor do tradicional jazz do French Quarter de New Orleans.
É sem dúvida um privilégio dos nova-iorquinos poderem assitir a espectáculos destes ao preço de uma bebida ou de um jantar.
O que me faz rir com risinho de bruxa malvada quando penso no ridículo de pagar 5oo euros para o ver tocar num reveillon no Casino do Estoril.
É o que se chama o homem errado, no local errado para o público errado.

5 December 2008

( 5 ) NOVA IORQUE, MEU AMOR


Serendipity, é uma das minhas palavras preferidas. Se acontece, por alguma razão acordar e lembrar-me dela, fico o dia inteiro a repeti–la. Gosto do som, da dificuldade em dizê-la, do significado que tem, e da sua origem.
Provém de um conto de fadas persa, e significa acidentes felizes, felizes acasos, e foi descoberta pela 1ª vez em 1754.
Desde então, tem tradução em todas as línguas, ( em português diz-se Serendipicidade), e um tradutor inglês considera-a das palavras mais difíceis, não de traduzir, mas de lhe encontrar um sentido em determinado contexto.
Tem sido empregue em quase todos os campos:
Na Química, quando Alfred Nobel misturou acidentalmente o collodium ( algodão do injector) com a nitriglicerina e descobriu a Gelignite.
Na Farmacologia, Alexandre Fleming falhou as culturas do desinfectante das bactérias antes de ir para férias e quando voltou, encontrou-as contaminadas com o “Penicillium molda”, que matou as bactérias, e que não era mais do que a Penicilina.
Na Medicina quando o Dr. Georgius Papanikolau, ao estudar as bactérias do útero feminino, descobriu o teste que leva hoje em dia o seu nome e que permite descobrir células cancerígenas no útero das mulheres.
Foi assim que Isaac Newton, ao ver cair uma maçã de uma árvore, descobriu a teoria da gravidade.
Cristóvão Colombo descobriu a América, quando de facto procurava a Índia.
E há milhares de exemplos que me escusarei de citar para não ser demasiado maçadora. O facto é que as maiores descobertas, em qualquer campo que pensemos, se deveram a felizes acasos: Serendipity.
Apesar de não acreditar no destino pelo que nos tiraria de livre arbítrio, não consigo impedir-me ( romântica incorrigível que sou), de achar que é maravilhoso pensar que tudo na vida, faz parte de um plano magistral, destinado a, um dia, uma noite, da forma mais estranha, nos pôr à frente a nossa alma gémea.
Mas, se não acredito no destino, acredito em acasos. Algo que acontece sem esperarmos. Cabe-nos segui-los, ou não. A vida não é uma série de acidentes sem sentido, ou coincidências que muitos notáveis defendem que não existem, mas uma colecção de acontecimentos que culminam num requintado, soberbo, e sublime plano.
Não tomo café, e por isso nunca frequentei cafés. A única vez, há muitos anos, que um amigo me levou a um café onde nem entrei, tendo ficado no carro à espera dele, conheci o homem mais importante da minha vida.
O meu pai teve um amigo que sobreviveu a três desastres de avião e morreu de ataque de coração, em casa, com 70 anos.
Serendipity é festa. É alegria. Uma canção muito antiga e muito bonita de Joan Baez foi repescada para a banda sonora do filme “ Forrest Gamp”. Lembro-me que ela fazia muitas interrogações:
- Quantos cadáveres tem um homem que ver para perceber que já houve mortos a mais? Quantas estradas tem alguém que percorrer para ser considerado um adulto?
- Quantas vezes tem um homem que olhar para cima para ver o céu?
- Quantos anos tem uma pessoa que viver para poder ser livre?
A solução para todas as questões era sempre a mesma : A resposta está escrita no vento.
É nisso que acredito. Que as respostas aos sinais que nos aparecem ao longo da vida estão escritas no vento. Só há que saber ouvi-las.
Em Nova Iorque, no alegre bairro de Little Italy, existe uma das mais famosas pastelarias do Mundo por ter aquele que é considerado o melhor chocolate quente do Universo. Há-o de todas as qualidades, com e sem chantilly, com e sem coberturas.
Quando pomos a boca na palhinha apetece chupar e depois soprar e fazer bolas de chocolate no ar.
Apetece ser criança de novo. E rir.
Chama-se Serendipity e é lá que se comemoram os Acasos Felizes.
Já lá comemorei alguns.
Quem dera lá possa voltar um dia.



Patti, já que és a Presidenta podes escolher qual queres. Mas as outras são para os vizinhos, ouviste?




17 November 2008

( 4 ) NOVA IORQUE, MEU AMOR

Vista da janela do meu quarto, nessa manhã.
(Foto minha)
A manhã amanheceu como todas manhãs de domingo em Nova Iorque, após um nevão nocturno.
Deitada na cama e coberta com um edredon de penugem de pato fiquei a olhar para a paisagem que via pela janela do quarto.
Da rua, de quando em vez, vinham os sons das sirenes dos carros de polícia ou bombeiros, tão habituais que os nova-iorquinos já nem as ouvem.
Em casa, vinha uma música calma do quarto do meu filho e da cozinha, uma mistura dos cheiros habituais do pequeno-almoço que ele sempre preparava aos domingos: batido de frutas e fibras com leite de soja, panquecas com syrop de Vermont, muffins integrais de blackberry.
Toda esta paz foi interrompida por um enérgico:
- Bom dia, Mom. Toca a levantar para irmos correr.
Encolhi-me ainda mais debaixo do édredon:
- Correr? Com este frio?
- Ó mãe, a correr o frio passa.
- Só se for o percurso pequeno.
- Está bem. Mas com uma condição: tem que acompanhar o meu ritmo. Nada de parar.
Não tenho saída, pensei eu, enquanto me levantava, qual tartaruga a quem pesa a casinha.
Depois do lauto pequeno-almoço, que a bem da verdade foi mais um brunch devido à hora, ficámos um bom bocado a conversar, lemos as "gordas" dos jornais, e pelas 3 da tarde equipámo-nos com os fatos, os gorros, os cachecóis, as luvas e saímos directos a Central Park.
O frio cortava, mas quando chegámos ao parque, este encontrava-se cheio de gente que corria, andava de patins, de bicicleta, enfim, com frio ou calor, aquele parque vive.
Embora concentrada no esforço de acompanhar o passo dele, coisa deveras difícil, a certa altura percebi que ele não estava a seguir o percurso combinado.
Para quem o conhece, sabe que isso é estranho, dado que quando combina algo não se afasta um milímetro daquilo que combinou.
- O que aconteceu? Porque está a ir por outro caminho?
- Porque sim.
Esta não é uma resposta normal nele.
- Mas porque sim, porquê?
- Mãe, é melhor não irmos por aí.
Percebi que algo de muito estranho se passava. Olhei à minha volta e percebi que todas as pessoas perto de mim, estavam paradas com os olhos fixos na outra margem do lago à volta do qual corríamos.
O lago, imenso, estava todo coberto de uma fina camada de gelo, excepto num ponto, onde de segundo a segundo, uma cabeça negra, que percebi pertencer a um labrador, emergia e desaparecia. Na margem, um grupo de pessoas agarrava a dona que desesperada gritava:
- Come on Winnie. You can do it.
Num àpice percebi o que tinha acontecido. Winnie andava a passear com a dona, quando deve ter corrido para cima do lago, sendo que a camada de gelo não aguentou o seu peso e o desastre aconteceu: o gelo partiu-se e ele mergulhou na àgua gelada. Rodeado de gelo, não conseguia sair do mesmo sítio, pois de cada vez que tentava subir para o gelo, este partia-se e ele afundava-se de novo.
Como que ensaiados, todos os presentes começaram a gritar a uma só voz:
- Come on Winnie. You can do it.
Mas a verdade, é que o tempo que ele levava a emergir e desaparecer começou a aumentar. Estava a ficar cansado, gelado e seguramente muito assustado. A dona desesperada. Ao meu lado, um casal de jovens, deu as mãos e começou a rezar.
Eu nem sentia o frio. A minha aflição era imensa.
Não é possível que isto acabe assim. Estamos em Nova Iorque. Alguém faça alguma coisa. Ele não vai aguentar. Não vai.
Quando me virei para dizer isto ao meu filho, apercebi-me que ele tinha desaparecido.
Noutras circunstâncias teria ficado aflita, mas naquele momento toda a minha aflição estava concentrada na cabeça que levava cada vez mais tempo a reaparecer.
Uns minutos depois, vi chegar ao pé de mim um carro da polícia, de onde sairam dois polícias e o meu filho, que com um ar determinado veio ter comigo:
- Pronto, Mom, I already gave my two cents.* Let's go.
- Só saio daqui quando o Winnie estiver a são e salvo.
- Mãe, é pouco provável que isso aconteça. Vamos embora.
- Não.
Ele desistiu. Percebeu que eu não sairia dali antes do fim. Só rezava para que o fim não fosse mesmo o FIM.
Entretanto, os gritos de incentivo continuavam, mas percebemos que a vida de Winnie estava por um fio. Havia alturas em que quando desaparecia levava tanto tempo a reaparecer que todos prendíamos a respiração.
Foi nesse momento que vimos chegar ao pé da dona vários carros da polícia e uma ambulância (!). Pensei que era para a dona, caso tudo terminasse mal.
A essa altura eu já tinha as lágrimas a correr pela cara.
Um polícia, com todo o cuidado, poisou uma escada magirus em cima do gelo, tentando que chegasse ao pobre animal e que ele a agarrasse.
A esperança durou pouco. O gelo partiu-se, a escada afundou-se e Winnie desapareceu.
O silêncio era absoluto, o que era absolutamente inacreditável com as mais de uma centena de pessoas que ali se encontravam.
Foi então que um dos polícias tirou o blusão de cabedal atirando-o para o chão, o cinto de onde pendiam a arma e as algemas, descalçou as botas, e só com o bastão nas mãos atirou-se para cima do gelo que cedeu ao seu peso.
Com o bastão foi partindo o gelo até chegar ao sítio onde Winnie tinha desaparecido.
Mergulhou e desapareceu.
Não sei quanto tempo levou a aparecer, mas quando surgiu trazia Winnie que não se mexia. Com dificuldade trouxe-o até à margem, onde assim que chegou carregou com ele para dentro da ambulância.
A mesma, era afinal para o cão! Tinha um desfribilador, tudo o necessário para reanimar o animal que estava em hipotermia, um médico veterinário e dois enfermeiros...
Passados 10 minutos informaram com um megafone que Winnie estava salvo e bem.
Central Park explodiu numa salva de palmas. Pessoas que nunca se tinham visto abraçavam-se e riam.
- Então e se agora fossemos comemorar? - ouvi o meu filho dizer com a voz que usa quando prepara uma marotice.
- Comemorar?
- Claro. O facto do Winnie se ter salvo.
- Ah, boa. E vamos onde?
- Ora Mom, ao Oak Bar. Umas sandwiches de salmão fumado em pão de centeio, champagne e cheese cake.

Tecto do Oak Bar

Desatei a rir. Sabia que a comemoração me ia sair caríssima. Mas que diabo, a ocasião merecia, e estávamos em Nova Iorque.

Vestidos da forma mais "casual" possível, entrámos no Oak Bar** onde os visons abundavam. Mas ali, cada um veste-se como entende. Ninguém repara.
Com éramos só dois, rapidamente arranjámos mesa e pedimos o nosso lanche.
Na mesa ao lado, uma rapariga, enquanto bebia o seu chá, fazia tricot furiosamente.
Tinha nascido uma nova moda que em breve iria espalhar-se pelo mundo.
Mas isso, fica para outro dia.
Vejam bem na aventura em que se transforma uma simples corrida.
Desde que seja em Nova Iorque, claro.


* Expressão idiomática que significa: Já fiz aminha parte.

** O Oak Bar é um ícone de Nova Iorque. Fica no Hotel Plaza, outra referência nova-iorquina. Em 2004 foi vendido a um grupo àrabe, já que o hotel não estava a dar lucros, para ser transformado num hotel com 282 quartos, 181 apartamentos residenciais e um centro comercial de luxo.
Por imposição estabelecida no contrato de venda, o edifício manteve exactamente a mesma fachada, os quartos têm o mesmo aspecto que tinham em 1907 quando o hotel abriu, e o tecto do Oak Bar que foi removido durante as obras, foi colocado exactamente como era.
O hotel reabriu em Março deste ano.

5 May 2008

VOANDO


Voando de volta à santa terrinha.
O dever chama-me.
Mas isso agora não interessa nada.
O que interessa é que vou voando.
Literalmente.
E se há coisa que gosto de fazer é voar.
Não tem a ver com o cliché da liberdade. Ou terá. Nem sei bem. Não sei descrever o que sinto quando voo.
Talvez tenha a ver também com a minha paixão por nuvens e com o sonho impossível de um dia, tocar numa. Caminhar em cima daquela coisa branca que imagino fôfa.
Para além dos aviões, e já nem sei quantas horas de voo fiz até hoje, nem em quantos diferentes modelos de aviões andei, a primeira experiência radical que tive, foi em Natal, num ultra-leve.
Lembro-me que o grupo de amigos com quem estava me chamou maluca e outras coisinhas semelhentes, e que ao descolar da praia, ainda ouvi a voz do meu marido que divertido, gritou:
-Qual é a senha do cofre???
Voar sentada numa cadeirinha mínima e desconfortável, em biquini com uma t-shirt por cima e descalça é uma sensação estranha.
E como descolei da praia o voo foi quase todo sobre o mar.
Esticava a mão e tinha...nada.
Só percebi que não era perfeito quando anos mais tarde, me lancei da Pedra Bonita, de asa delta.
E quando aterrei, e os meus filhos disseram em uníssono:
-Agora nós, mãe!
Voar de asa delta é seguramente o mais próximo que se pode estar de um pássaro.
Não há o ruído irritante do motorzinho do ultra leve. Aliás, não há ruído nenhum. O silêncio é absoluto se não contarmos com os batimentos do coração.
A Pedra Bonita é uma montanha com cerca de 700 metros de altitude, situada na Barra da Tijuca no Rio de Janeiro.
Lá em cima, tem uma rampa e enquanto nos vestimos e preparamos para o voo, temos sempre uma vózinha que nos diz: Ainda podes desistir!
E vai dizendo, e nós vamos ouvindo sempre achando que podemos desistir.
Sucede que quando começamos a correr na rampa, a determinada altura ela acaba, e o próximo passo que damos...é o no vazio.
Sem retorno.
Mas aí o medo já passou e fica uma indizível e inexplicável sensação de milagre.
Temos aos pés o Rio de Janeiro em toda a sua beleza, o mar, a Floresta da Tijuca, o céu e as nuvens.
Aquela história de "o céu é o limite" é a ali.
Nos aviões, sobretudo nos de grande porte, a parte que mais gosto é quando o avião parado no principío da pista, abre os motores, toda a fuselagem estremece e começa a corrida para a descolagem.
O avião vai comendo a pista adquirindo velocidade, e num supremo esforço, eleva-se, e nós com ele.
E com isto já dei quase a volta ao Mundo.
Nova Iorque/Rio/Lisboa.
Nada como começar a escrever para a imaginação voar.
Lisboa, here I go!

30 April 2008

NEW YORK NEW YORK ... OBRIGADA


Nova Iorque é como as mulheres: ou se ama, ou se odeia.
Não há aquela coisa de: Ah, gosto, mas...
Eu amo Nova Iorque sem mas, talvez por não a conhecer como turista, embora conheça todos os locais obrigatórios de passagem turística.
Mas, por exemplo, exactamente porque a amo e a sinto um pouco como minha casa, impressiona-me imenso ver no local das Twin Towers, magotes de turistas a tirarem fotografias .
Ainda se pelo menos se limitassem ao local... Mas não. Encostam-se ao gradeamento onde estão os nomes de todos os que morreram e sorriem para a câmara.
Logo após o atentado fui lá e levei o meu filho mais novo. Ele ia de máquina em punho e preparava-se para me tirar uma fotografia quando viu os meus olhos marejados de lágrimas. Olhou para mim, e sem uma palavra meteu a máquina no bolso.
É que eu já tinha jantado no restaurante no alto das Torres, com a vista única de Manhatten aos meus pés.
Já me tinha sentado nos jardins que rodeavam as Torres, comendo um gelado e vendo os apressados corretores da bolsa correndo para os bancos.
Já tinha apanhado, perto dali o barco que nos leva à Estátua da Liberdade.
De repente, ver tudo desaparecido, uma cratera gigante no chão e aquilo que foi em tempos um imenso globo terrestre em ferro ou aço, não sei bem, todo negro e deformado pelo calor da tragédia, dói.
Ali, mais do que em qualquer outro lado, tem-se verdadeira noção do que pode a maldade dos homens, seja quem for o culpado de tamanha barbaridade.
Mas enfim, este não é um post triste.
A cidade fervilha de gente, os dog-sitters passeiam 5 e 6 câes cada um, muitas lojas estão abertas 24 horas por dia, e a cidade, de facto, nunca dorme, como cantava Francis Albert Sinatra.
Chegada de uma aula de yôga, não resisto a contar-vos uma que me deixou a pensar.
Antes de sair do ginásio perguntei se 5ªfeira estavam abertos.
Responderam-me que sim.
E eu retorqui: Mas, em todo o Mundo estão fechados. É o Dia do Trabalhador!
WE ARE THE WORLD, DEAR. THE OTHERS, ARE THE REST OF THE WORLD...
Assim, daqui desta cidade que tanto amo e onde me sinto tão feliz, vos digo:
Eu amo os Estadou Unidos, mas...



A minha querida amiga e maravilhosa artista Fa, ofereceu-me este quadro pintado por ela como sinal de Boas Vindas.
Bem hajas, amiga.
A fotografia é aquilo que os meus olhos viram do alto do Empire State Building, com as feéricas luzes de Manhatten, o rio, e a lua cheia. É um presente meu, para todos.
E façam o favor de ser felizes, como eu estou agora.

16 December 2007

UM NATAL DE LUZ NO MUNDO


Se quiserem saber onde é cada slide, basta clikar uma vez em cima, e depois passar ( não é preciso clikar ) com o rato por cima.
Enjoy!

22 November 2007

THANKSGIVING DAY



Celebra-se hoje, nos Estados Unidos, O Thanksgiving Day!
O Thanksgiving é nos Estados Unidos uma festa quase mais importante que o Natal.
Originalmente começou por ser o dia em que toda a comunidade americana dava Graças a Deus por todas as Graças concedidas ao povo americano.
O Presidente George Washington foi o 1º Presidente a instituir o Thanksgiving a nível nacional, agradecendo o fim da Guerra Civil e a liberdade religiosa e também a Divina Providência que protegia toda a Nação.
A tradição de dar graças continua hoje sob várias formas.
Existe a parte religiosa com Missas que são as mais concorridas de todo o ano, mas a parte mais importante é a reunião das famílias, ao jantar.
Antes do início do jantar, o anfitrião diz uma oração em que agradece todas as bênções que Deus concedeu nesse ano, ao País e àquela família em especial.
A festa do Thanksgiving é o feriado mais concorrido de todos.
Celebra-se na quarta quinta – feira de Novembro, na sexta faz-se “Ponte” e prolonga-se até domingo.
Dado que os membros das família estão espalhados por todo o País é o feriado em que todos viajam para se reuniram, pelo que os aviões, comboios e estradas estão esgotados e congestionados.
O jantar compõe-se, obrigatoriamente de peru assado recheado, puré de batata doce ( divino ), vários recheios vendidos à parte e molho de cranberries.
As sobremesas são diversas e deliciosas, sobretudo à base de tartes de abóbora e “peacon” ( uma espécie de nozes grandes ).
Também obrigatórias são as Paradas, ou Desfiles, das quais a mais famosa é A Macy’s Thanksgiving Day Parade que pára Nova Iorque.
Nos últimos 5 anos, este é o primeiro que não passo lá, mas em contrapartida o primeiro que lá passei foi uma verdadeira loucura e curtição.
Comecei por me levantar às 7 da manhã para não perder a Macy’s Parade, que literalmente pára Manhatten.
É uma coisa fantástica que acorda em nós todos os instintos e recordações infantis.
Imaginem carros enormes com gigantescos bonecos insufláveis, todos figuras da Disney ou outros desenhos animados.
Começa na 77th Street Central Park West e desce a Braodway até Columbus Circle, vira na 34th Street, passando em frente da Macy’s Herald Square. Termina na 7ª Avenida.
A Parade é sempre acompanhada por 10 das melhores Bandas Americanas, entre elas Baker High School, Alabama; Highland High School, Arizona; Riverview High School, Florida; Lassiter High School, Louisiana; Mayfield High School, New Mexico; Corning Painted Post West High School, New York; Warren G. Harding High School, Ohio; Dobyns-Bennett High School, Tennessee and Waukesha North High School, Wisconsin.
O mais divertido foi depois comprar o jantar, começando pelo peru, que trazia uma indicação na embalagem que dizia:- Criado sem stress, o que levou o meu filho a comentar sarcasticamente:- Pode ter sido criado sem stress, mas morreu na mesma, coitado!
E depois queria eu cozinhasse o pobre do bicho à maneira portuguesa, o que recusei, claro.
Mesmo assim, comi só os acompanhamentos e sobremesas, e confesso que senti um dó imenso pelos milhares de perús que foram “papados” nesse dia, por toda a América.
Como costumo dizer, é impossível descrever a Parade, ou passar-vos o sabor e cheiro das comidas, mas deixo-vos as imagens.
Enjoy.

18 November 2007

CRISTO DESCEU À TERRA

Há dois anos, em Fevereiro, fazia eu ski em Vermont, quando o instrutor que me acompanha sempre ( já agora se ficar perdida nas neves, não fico sózinha :) ), me pergunta: Are you going to see Christos?
O diálogo que se seguiu é anedótico:
Eu: CHRIST?
Ele: Yes.
Eu: CRIST?
Ele: Yes, in New York.
Eu: Christ in New York?!!!!
Ele: Yes.
Eu: Christ is coming to New York?
Ele: Yes, this week.
Eu: Oh, Christ is coming to New York, this week. Do you know the hour?
Ele: I think this week end, and stays all week.
Eu: I see. So Christ is coming to New York this week, and begins his visit during the week end.
A esta altura, estávamos ambos parados no meio de uma pista lindíssima, com abetos carregados de neve, praticamente sózinhos.
Fui acometida de um súbito ataque de pânico e pensei:- Bonito, o homem amalucou, e eu aqui sózinha com ele. E agora faço o quê?
A primeira coisa que pensei foi que o melhor era sairmos dali.
Disse-lhe que estava cansada, que queria parar, blá blá, blá
O que queria era estar rodeada de gente quando resolvesse tirar a limpo a história de Jesus vir a Nova Iorque passar a semana seguinte.
Poupo-vos ao resto do diálogo quando chegámos cá abaixo, mas descobri que era um bocadinho ignorante.
Até sabia que o homem existia ( o homem, não o Senhor, se é que me entendem ), mas não liguei uma coisa à outra.
Hristo Yavashev é um artista búlgaro, casado com uma senhora que desempenha o papel de relações públicas, embora eles apresentem o seu trabalho como sendo de ambos.
O intuito deles é, segundo as suas próprias palavras, tornar o Mundo um lugar mais bonito., transformando locais que todos conhecemos, em coisas diferentes.
Embrulham monumentos, ilhas ou pontes, como fizeram com o Reichstag em Berlim, a Pont Neuf em Paris, 178 àrvores em Basileia e rodearam 11 ilhas em Biscayne Bay com um material cor de rosa que as transformou num espectáculo lindíssimo.
Em 1990, imaginaram uma exposição simultânea, no Japão e na Califórnia com chapéus de chuva, uns amarelos outros azuis.
A exposição chamou-se " Umbrellas", foi inaugurada em 1991 com 1340 chapéus azuis em Ibaraki e 1760 amarelos no sul da Califórnia.
Há 2 anos, inauguraram " THE GATES" no Central Park, em Nova Iorque.
Para ser mais fácil de pronunciar, o seu nome transformou-o em CHRISTOS.
Era este Cristo que vinha a Nova Iorque e não Jesus Cristo.
O instrutor não tinha amalucado e eu era uma sortuda porque pude ver a exposição.
É impossível descrever como eles transformaram Central Park.
E a ideia parece o ovo de Colombo.
Tudo se resumia a um gigantesco rectângulo em ferro, montado na vertical, com um enorme pano laranja esvoaçando no meio do que se pode considerar uma porta ou cancela ( gate ).
Só que eram 7503 Gates serpenteando por todo o Central Park.
O espectáculo era deslumbrante.
A história deste casal é fascinante, começando pela forma como se conheceram.
A obra de Christos foi evoluíndo, uma vez que no início ele transformava as coisas defintivamente, porque fazia colagens gigantescas o que, naturalmente não agradava.
Agora, todo o seu trabalho é mais soft, e o que mais admiro nele são 2 coisas que o diferenciam de todos os outros artistas:
1ª As suas obras são efémeras. Duram o tempo da exposição. Quando ela acaba, acabam com ela. Ficam as fotografias e a recordação dos privilegiados que as viram.
2ª Não faz isto com qualquer intuito lucrativo e as próprias exposições são pagas por ele, com o dinheiro ganho na venda dos souvenirs de cada exposição.
Deixo-vos algumas fotografias que tirei e outras das outras exposições.
Se puderem, descubram CHRISTOS. Vale a pena

7 October 2007

SERENDIPITY



Serendipity, é uma das minhas palavras preferidas. Se acontece, por alguma razão acordar e lembrar-me dela, fico o dia inteiro a repeti–la. Gosto do som, da dificuldade em dizê-la, do significado que tem, e da sua origem.
Provém de um conto de fadas persa, e significa acidentes felizes, felizes acasos, e foi descoberta pela 1ª vez em 1754.
Desde então, tem tradução em todas as línguas, ( em português diz-se Serendipicidade), e um tradutor inglês considera-a das palavras mais difíceis, não de traduzir, mas de lhe encontrar um sentido em determinado contexto.
Tem sido empregue em quase todos os campos:
Na Química, quando Alfred Nobel misturou acidentalmente o collodium ( algodão do injector) com a nitriglicerina e descobriu a Gelignite.
Na Farmacologia,Alexandre Fleming falhou as culturas do desinfectante das bactérias antes de ir para férias, e quando voltou encontrou-as contaminadas com o “Penicillium molda”, que matou as bactérias, e que não era mais do que a Penicilina.
Na Medicina quando o Dr. Georgius Papanikolau, ao estudar as bactérias do útero feminino, descobriu o teste que leva hoje em dia o seu nome, e que permite descobrir células cancerígenas no útero das mulheres.
Foi assim que Isaac Newton, ao ver cair uma maçã de uma árvore, descobriu a teoria da gravidade.
Cristóvão Colombo descobriu a América, quando de facto procurava a Índia.
E há milhares de exemplos, que me escusarei de citar, para não ser demasiado maçadora.
O facto é que, as maiores descobertas, em qualquer campo que pensemos, se deveram a felizes acasos: Serendipity.
Apesar de não acreditar no destino, pelo que nos tiraria de livre arbítrio, não consigo impedir-me ( romântica incorrigível que sou), de achar que é maravilhoso pensar que tudo na vida, faz parte de um plano magistral, destinado a, um dia, uma noite, da forma mais estranha, nos pôr à frente a nossa alma gémea.
Mas, se não acredito no destino, acredito em acasos. Algo que acontece sem esperarmos. Cabe-nos segui-los, ou não.
A vida não é uma série de acidentes sem sentido, ou coincidências que muitos notáveis defendem que não existem, mas uma colecção de acontecimentos que culminam num requintado, soberbo, e sublime plano.
Não tomo café, e por isso nunca frequentei cafés.
A única vez, há muitos anos, que um amigo me levou a um café, onde nem entrei, tendo ficado no carro à espera dele, conheci o homem mais importante da minha vida.
O meu pai teve um amigo que sobreviveu a três desastres de avião, e morreu de ataque de coração, em casa, com 70 anos.
Serendipity é festa. É alegria.
Uma canção muito antiga e muito bonita de Joan Baez foi repescada para a banda sonora do filme “ Forrest Gamp”. Lembro-me que ela fazia muitas interrogações:
Quantos cadáveres tem um homem que ver para perceber que já houve mortos a mais?
Quantas estradas tem alguém que percorrer para ser considerado um adulto?
Quantas vezes tem um homem que olhar para cima para ver o céu?
Quantos anos tem uma pessoa que viver para poder ser livre?
A solução para todas as questões era sempre a mesma : - A resposta está escrita no vento.
É nisso que acredito. Que as respostas aos sinais que nos aparecem ao longo da vida estão escritas no vento. Só há que saber ouvi-las.
Em Nova Iorque, no alegre bairro de Little Italy, existe uma das mais famosas pastelarias do Mundo, por ter aquele que é considerado o melhor chocolate quente do Universo.Chama-se Serendipity, e é lá que se comemoram os Acasos Felizes.
Nela me sento de quando em vez, esperando por ti, meu menino doce, meu homem louco, esperança que me amparou à beira da capitulação, meu amor maior, Serendipity da minha vida.
Escuta os sinais do vento.