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21 February 2011

PARABÉNS PARA MIM

Quando eu era pequenina e alguém fazia anos, enviavam-se cartas ou postais que começavam com " Salvé o dia..."

A minha mãe teve um trabalhão para me explicar o que queria dizer o "Salvé".
Normalmente depois seguia um ramo de flores ou uma linda caixa de chocolates.
Com o passar do tempo apareceram os postais alusivo à data, com bonecos e até, alguns, com o número de anos que a pessoa faz.
Depois veio a net e passaram a enviar-se os parabéns por mail. Não eu, que até no Natal mantenho a tradição dos Cartões de Boas-Festas.
Agora, a coisa é muito mais sofisticada: dão-se os parabéns pelo Facebook.
Não estou naturalmente, a criticar os " amigos " virtuais dos blogs ou do Facebook. Bem pelo contrário. Fico até bastante sensibilizada com essa gentil atitude de quem não me conhece de lado nenhum.
Alguns há que foram mais rápidos do que eu, como a Ematejoca, que mesmo antes de eu publicar este post, na dúvida, me deu os parabéns no post anterior, o que significa que teve o cuidado de anotar a data do meu aniversário e não se esqueceu de me enviar os seus votos de um dia feliz.
Estou a referir-me aos amigos, àqueles que têm a minha morada, o meu telefone, os meus contactos e ainda assim me dão os Parabéns via Facebook.
Já é tudo tão impesoal, tão virtual, tão frio que me pergunto se para o ano me enviarão um ET que ao esticar o dedo, sairá dele, faiscando a palavra " Parabéns".
Antes que isso aconteça, "Parabéns" para mim, porque apesar de já ser virtual ainda não me tornei invisível.

21 February 2010

ANIVERSÁRIO


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

O que fui de coração e parentesco.

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino,

O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,

com mais copos,

O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa (1888-1935)

5 October 2008

PARA O GUIGAS


Os primeiros passinhos




Foi assim de mãos estendidas que te esperei
E amparei,
quando chegaste.

De mãos estendidas te acolhi nos primeiros passos,
Te orientei o andar pelos caminhos da vida
E te amei desde que me olhaste.

Pensava que no meu coração
outro amor igual não caberia,
mas quando estendeste as mãos
o coração que era meu
ficou teu e do irmão.

És um poema que nunca foi lido,
O meu sol, a minha vida,
O meu ar,
E se fosse poetisa,
A tua vida escreveria
Para que nada te pudesse magoar.

Assim, tens as minhas mãos estendidas,
Sempre,
Para nelas,
Se puder,
Te guardar.

Parabéns, Meu filho querido.



19 July 2008

PARABÉNS MR.MANDELA


Mr. Mandela,
eu sei que foi ontem, mas decerto não ficará zangado por só lhe dar hoje os Parabéns.
Ontem tive que escrever sobre algo que me indignou e que sei que o indignaria também.
Mas deixe-me confessar-lhe que a minha admiração por si é imensa. Por várias razões, sendo que algumas delas são:
1º O facto de ter estado preso 27 anos e nunca ter perdido os seus ideais. Pobre de mim que não aguentaria uma semana presa.
2º Quando foi posto em liberdade, não albergava nem rancor, nem ódio, mas amor e determinação para continuar a lutar e conseguir o fim do apartheid no seu País.
3º Quando se tornou Presidente não utilizou o poder para se vingar, o que prova que é um ser humano muito especial e superior.
4º Recebeu o Prémio Nobel da Paz e continuou com a humildade de sempre.
5º Citou muitas vezes Mahatma Gandhi como sendo a sua maior fonte de inspiração, não só pela filosofia de não-violência mas também por enfrentar a adversidade com dignidade.
São conhecidas muitas frases ditas por si ao longo da sua vida.
Escolhi estas por achar que têm a ver com amor:

"The greatest glory in living, lies not in never falling, but in rising every time we fall".
"If you talk to a man in a language he understands, that goes to his head. If you talk to him in his language, that goes to his heart".
E com o seu senso de humor:
"In my country we go to prison first and then become President."
Parabéns, Mr. Mandela.
Isto era o que lhe diria se me déssem 5 minutos com este homem fantástico.

15 July 2008

PARABÉNS MÃE


Maternidade de Almada Negreiros - 1935

A minha mãe faz hoje 80 anos.
Sem dúvida alguma uma das pessoas mais importantes da minha vida. Não por ser minha mãe, que não acredito nisso do sangue.
Está cada vez mais pequenina. Quando olho para ela parece-me que cresci, e eu já parei de crescer há muito tempo. E é só o facto de ela estar mais pequenina que me recorda a sua idade, porque por muito que eu tente encontrar o peso dos anos nas suas rugas, só encontro ternura e carinho. Nos seus olhos só brilham estrelas e amor e dos seus lábios só oiço beijos e sorrisos. Continua com o porte de rainha altiva que sempre teve, ainda que se transforme na mais humilde enfermeira, diariamente, para cuidar do meu pai. Na cozinheira de onde saiem os pratos mais deliciosos, porque são feitos com amor.
Como aliás sempre fez tudo na vida.
Luz é o seu nome e uma luz tem sido na vida de toda a família, como um farol que nos indica o rumo, quando estamos perdidos.
Se pudesse escolher, morreria primeiro para não sofrer a dor da sua perda.
Não vejo a idade que realmente tem. Apenas quando penso que se tiver que a defender de algo, eu que não acredito na violência, viro filha-gata e deito as garras de fora.
Gostava de ser criança outra vez, para lhe dizer, como Almada Negreiros:
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

21 February 2008

HOJE FAÇO ANOS


Hoje faço anos!Lembro-me de pensar nas balzaquianas como mulheres muito velhas... e cá estou eu, e ainda à procura.I still haven't found but I'm looking for... há uma canção assim:
Feliz aniversário, envelheço na cidade... e a cidade passa e o tempo também. Gosto de poucas coisas nisto de fazer anos:Uma certa maturidade talvez. E algumas certezas. Socorro-me do poeta para falar por mim: Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura.
Essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo- Perdoai-os!
Porque eles não têm culpa de ter nascido...
.Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto.
Esse eterno levantar-se depois de cada queda.
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha.
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo Infantil de ter pequenas coragens.
Vinicius de Moraes

17 February 2008

ANIVERSÁRIO I


É sempre assim...antes do meu aniversário começo a fazer contas à vida. É um exercício quase involuntário, sem dar por isso, começo a pensar e a tentar perceber se as coisas têm corrido como eu desejava... Há sempre uma grande distância entre aquilo que sonhamos quando somos crianças, e aquilo em que efectivamente nos tornamos. Não sei se neste instante, estou entre uma coisa e outra. Lembro - me muito bem quais eram os meus sonhos, por isso tenho a certeza de não os ter realizado.
Outro dia, falava com uma amiga comentando que dói mais a sensação de ter falhado do que saber que não realizei os meus sonhos.
E sempre que penso nisto, vem -me à memória uma música de Caetano: "quando eu te encontrei frente a frente não vi o teu rosto... chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto. É que narciso acha feio o que não é espelho..."
Era assim que ele se sentia quando ainda sabia escrever letras de música e quando, pela primeira vez, cruzou as avenidas Ipiranga e São João.
Foi no Rio de Janeiro que mais tempo tive para tentar realizar alguns dos meus sonhos. É uma cidade que nos devora a todos, num turbilhão constante. Cercada de mar por todos os lados, até o céu é mar. Mas é o umbigo do mundo. Um ponto de convergência de tanta coisa que acontece ao mesmo tempo. Foi o umbigo do meu mundo, pelo menos. E fez com que eu visse a real dimensão de todas as coisas.
Depois do Rio, a vida. Que me foi correndo, mal ou bem.
Que me foi correndo...
E agora, cá estou.
De novo perto de fazer anos. Os amigos olham - me e dizem: pareces uma menina, porquê esse medo?
Os amigos dizem-me: não tens uma ruga, porquê essa aflição?
Deve ser do inferno astral!
Vou continuar a fazer a minha viagem por dentro e ver se descubro, em meio a tanta desmemória, o que restou dos meus sonhos...

10 November 2007

O MEU PAI


Imagem do livro de Andrew Clements " Because your Daddy loves you"
Hoje é o dia do aniversário do meu pai.
84 anos de uma vida que se tivesse que ser reduzida a uma só palavra, essa seria Amor.
Só transmitiu Amor a todos os que os rodeiam, e aos que ama.
A minha mãe, com quem vive há cinquenta e já não sei quantos anos, mas para quem ainda hoje olha com adoração.
A mim, sua filha única. Sendo a minha mãe uma mulher extraordinária e especial, é também uma mulher severa. Desde sempre e ainda hoje, o meu pai foi sempre o meu maior e único aliado que ainda hoje, ainda que embrulhado num corpinho frágil que parece poder voar com uma rabanada de vento mais forte, me dá os abraços mais fortes e sentidos e os beijos mais doces. Pudera ele ainda ser forte para me poder defender da vida que me abana todos os dias, e oferecer-me o seu ombro para me apoiar.
Era, como se dizia no seu tempo, um belo homem, com voz de locutor.
Aliás foi pela voz que a minha mãe se apaixonou, quando por um acaso de linhas trocadas, uma chamada dele foi parar ao seu telefone.
Mas isso são outras histórias.
Tinha uma mota potente e com a minha mãe à garupa muito passearam por este país.
Durante anos o seu hobby foi a pesca, e quando voltava com a cesta carregada de robalos, corvinas e linguados era uma festa.
Quando em 69 a terra se revoltou e gritando das suas entranhas se ouviu um rugido assustador, enquanto muita gente fugia para a rua, o meu pai correu para o meu quarto, arrancou-me da caminha onde dormia e foi só depois de me ter bem presa nos seus braços, equilibrando-se como podia, que saiu para a rua.
Excelente aluna que sempre fui, um período não fui para o quadro de honra.
Já se sabia que vinha aí grande tempestade.
Como foi sempre ele o encarregado de ver as minhas notas, levou-me para o seu escritório para me levar para casa e assim eu poder escapar à zanga da minha mãe.
Mas também foi ele que teve a alegria de ver que no exame de aptidão à Faculdade tinha tido 19 a Latim e 18 a Filosofia, tendo por isso dispensado.
Quando decidi que queria interromper o curso para ser assistente de bordo, foi ele que enfrentou a minha mãe e me apoiou na perseguição do sonho.
Quando, anos depois me licenciei foi o seu abraço o maior.
E coisa engraçada, a maior parte dos pais e das mães, quando falam dos filhos com os respectivos cônjuges dizem quase sempre: " a tua filha " " o teu filho ". Ele disse sempre, e ainda hoje diz " a nossa filha "
Eu e os netos guardaremos sempre dele imagens que só lhe pertencem a ele.
Cozinheiro de mão cheia, as suas lulas recheadas, os seus grelhados e as filhós do Natal, serão um segredo que levará, porque ninguém as faz como ele.
Foi meu chauffeur particular durante anos, em todos os sítios por onde passei e ele me ia pôr e buscar, para me livrar do perigo dos transpotes públicos: na natação, na Alliance Française, no Conservatório Nacional.
Quando o primeiro neto nasceu, levantou-o nos braços, todo nú, para ver se " o instrumento" era perfeito. Claro que apanhou com uma xixizadela.
E recomeçou com os netos, o percurso do amor: levando-os a passear no Jardim da Estrela ou na Mata de Benfica todos os fins de semana sem falhar um, ele que os ensinou a andar de bicicleta, ele que remendava os pneus quando se rompiam, ele que os levava à praia, que os ensinou a jogar ping-pong. Para eles sempre foi, e ainda hoje é o VÚ.
Há dez anos penosamente doente, nunca se queixa, e tudo o que quer é ver a família reunida.
Nunca se esquece de agradecer a Deus, quando tem a Família à volta da mesa de Natal repleta de iguarias.
Agarrado à vida, ainda hoje o dia dos anos é uma festa.
E afirma com toda a certeza, que não morre, porque todas noites reza a Nossa Senhora.
O meu pai é simplesmente o MEU PAI.
E eu o amo.