
Imagem do livro de Andrew Clements " Because your Daddy loves you"
Hoje é o dia do aniversário do meu pai.
84 anos de uma vida que se tivesse que ser reduzida a uma só palavra, essa seria Amor.
Só transmitiu Amor a todos os que os rodeiam, e aos que ama.
A minha mãe, com quem vive há cinquenta e já não sei quantos anos, mas para quem ainda hoje olha com adoração.
A mim, sua filha única. Sendo a minha mãe uma mulher extraordinária e especial, é também uma mulher severa. Desde sempre e ainda hoje, o meu pai foi sempre o meu maior e único aliado que ainda hoje, ainda que embrulhado num corpinho frágil que parece poder voar com uma rabanada de vento mais forte, me dá os abraços mais fortes e sentidos e os beijos mais doces. Pudera ele ainda ser forte para me poder defender da vida que me abana todos os dias, e oferecer-me o seu ombro para me apoiar.
Era, como se dizia no seu tempo, um belo homem, com voz de locutor.
Aliás foi pela voz que a minha mãe se apaixonou, quando por um acaso de linhas trocadas, uma chamada dele foi parar ao seu telefone.
Mas isso são outras histórias.
Tinha uma mota potente e com a minha mãe à garupa muito passearam por este país.
Durante anos o seu hobby foi a pesca, e quando voltava com a cesta carregada de robalos, corvinas e linguados era uma festa.
Quando em 69 a terra se revoltou e gritando das suas entranhas se ouviu um rugido assustador, enquanto muita gente fugia para a rua, o meu pai correu para o meu quarto, arrancou-me da caminha onde dormia e foi só depois de me ter bem presa nos seus braços, equilibrando-se como podia, que saiu para a rua.
Excelente aluna que sempre fui, um período não fui para o quadro de honra.
Já se sabia que vinha aí grande tempestade.
Como foi sempre ele o encarregado de ver as minhas notas, levou-me para o seu escritório para me levar para casa e assim eu poder escapar à zanga da minha mãe.
Mas também foi ele que teve a alegria de ver que no exame de aptidão à Faculdade tinha tido 19 a Latim e 18 a Filosofia, tendo por isso dispensado.
Quando decidi que queria interromper o curso para ser assistente de bordo, foi ele que enfrentou a minha mãe e me apoiou na perseguição do sonho.
Quando, anos depois me licenciei foi o seu abraço o maior.
E coisa engraçada, a maior parte dos pais e das mães, quando falam dos filhos com os respectivos cônjuges dizem quase sempre: " a tua filha " " o teu filho ". Ele disse sempre, e ainda hoje diz " a nossa filha "
Eu e os netos guardaremos sempre dele imagens que só lhe pertencem a ele.
Cozinheiro de mão cheia, as suas lulas recheadas, os seus grelhados e as filhós do Natal, serão um segredo que levará, porque ninguém as faz como ele.
Foi meu chauffeur particular durante anos, em todos os sítios por onde passei e ele me ia pôr e buscar, para me livrar do perigo dos transpotes públicos: na natação, na Alliance Française, no Conservatório Nacional.
Quando o primeiro neto nasceu, levantou-o nos braços, todo nú, para ver se " o instrumento" era perfeito. Claro que apanhou com uma xixizadela.
E recomeçou com os netos, o percurso do amor: levando-os a passear no Jardim da Estrela ou na Mata de Benfica todos os fins de semana sem falhar um, ele que os ensinou a andar de bicicleta, ele que remendava os pneus quando se rompiam, ele que os levava à praia, que os ensinou a jogar ping-pong. Para eles sempre foi, e ainda hoje é o VÚ.
Há dez anos penosamente doente, nunca se queixa, e tudo o que quer é ver a família reunida.
Nunca se esquece de agradecer a Deus, quando tem a Família à volta da mesa de Natal repleta de iguarias.
Agarrado à vida, ainda hoje o dia dos anos é uma festa.
E afirma com toda a certeza, que não morre, porque todas noites reza a Nossa Senhora.
O meu pai é simplesmente o MEU PAI.
E eu o amo.