11 April 2009

( 19 ) PORQUE É FIM-DE-SEMANA...DE PÁSCOA

Para todos os veludinhos e veludinhas que são meus vizinhos um miminho. É vosso.


10 April 2009

KING OF PAIN

9 April 2009

INFÂNCIA


Houve um tempo em que eu acreditava que algodão doce era nuvem com açúcar.
Houve um tempo em que eu acreditava que as bonecas, os brinquedos e os peluches tinham vida própria e despertavam quando eu adormecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que o mundo era um lugar lógico e seguro, e que até podiam acontecer coisas más de vez em quando, mas que no fim, tudo acabava bem.
Houve um tempo em que eu acreditava que as pessoas que amamos nunca morriam, nunca envelheciam, ficavam sempre iguais, à revelia do tempo.
Houve um tempo em que eu acreditava que os adultos sabiam tudo, não tinham dúvidas nem medos, e não erravam nunca.
Houve um tempo em que eu acreditava que se fechasse os olhos e pedisse com fé algo que desejasse muito, isso acontecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que quando crescemos nos tornamos livres e podemos tudo.
Foi-se esse tempo.

8 April 2009

(2) JÁ TIVE OUTRA VIDA!


Passo horas no computador. A descobrir o que se passa no mundo. A descobrir números. A procurar saídas.
Como gomas em forma de amora. Uma a uma deixo-as derreter na boca.
Os dedos ficam pretos. Esta porcaria é só corantes. E fico agoniada. Mas gosto de estar entretida enquanto descubro o mundo e os números e as coisas.
Passo horas no computador.
Antes desta vida já vivi outra. Fiz cerelac e vesti-os. Mudei fraldas e perdi noites. Dei-lhes a mão e levei-os ao colégio. À ginástica, ao judo, ao francês.
Passo horas no computador.
Enjoada das gomas mudo para marshmallows. Com o sorriso fácil das pessoas burras. Entretida com o sabor doce na boca e os amigos nas pontas dos dedos.
Antes desta vida já vivi outra. Ajudei nos trabalhos de casa. Aplaudi as competições desportivas. Ri-me com os primeiros amores.
Passo horas no computador. Com o mundo, com os números. Com os caracteres que me preenchem e me tentam convencer que todas as esperas valem a pena.
E passo horas a tentar que o mundo, os números e a agonia doce das gomas me afastem pensamentos inoportunos.
Aquela história de que o que não tem remédio, remediado está, não serve para tudo na vida!

7 April 2009

(2) CONVERSAS DE VELUDO


Não sou de ter amigas normaizinhas. Não tenho paciência para gente que não tem um pouco de loucura.
Que fazem coisas que ninguém espera ou que gostam de desafiar convenções.
Uma das coisas que faço é, seja onde for, no restaurante mais chic do mundo ou em casa, só como morangos inteiros, à mão. Agarro num, mergulho-o no chantilly e vou dando dentadinhas. Nunca me hei-de esquecer do ar absolutamente escandalizado do chef do Tavares quando me viu fazer isso. E eu tinha 16 anos!
O ano passado quando os Sheiks deram um concerto no Trindade, fui com um grupo de amigos vê-los e caí na asneira de calçar uns sapatos de salto muito alto, partindo do princípio que os senhores nos deixariam à porta do teatro. O que fizeram. Mas à saída, fomos informadas que só tinham arranjado lugar para os carros na Praça do Município.
É sabido que a nossa calçada portuguesa é lindíssima, mas inimiga de saltos altos. A escadaria que desce para o S. Carlos ainda aguentei. Depois, decidi que a única hipótese era tirar os sapatos, e lá fomos, cantando a plenos pulmões os êxitos acabados de ouvir, comigo descalça e de sapatos na mão.
Pois bem, eis que a semana passada, uma dessas amigas me telefonou, e depois dos cumprimentos habituais se sai com esta:
- Então, já começaste a fumar charros?
- .....
- Alôooo, estás aí?
- Estou, mas estou a pensar na resposta.
- Não há nada que pensar. É sim ou não.
- Pois, é não. Nunca fumei charros na vida, nem no meu tempo de adolescente, e não é agora que vou começar.
- Pois não sabes o que perdes.
- Mas olha lá, tu estás boa da cabeça?
- Perfeita. Os dedos é que me doem um bocado, porque dá um trabalhão a enrolar.
- ......
Confesso que comecei a ficar encanitada com a conversa. Se há coisa em que sou o mais fundamentalista possível é no que diz respeito a drogas, e não admito o argumento que erva não é droga, que faz menos mal que o tabaco, e blá, blá, blá.
- Olha lá, mas tu endoidaste? Já imaginaste se o teu marido ou o teu filho descobrem?
- Ah! Acharam uma óptima ideia. Levei um dia até conseguir enrolar o primeiro como deve ser, mas agora até já lhes consigo pôr filtro e tudo. Até forrei uma caixinha em cor-de-rosa com bolinhas ( ela adora bolas), para os guardar. Espera lá que te vou mandar por mail, para veres. Filtro? Em charros? Comecei a achar a conversa surrealista mas lá fiquei à espera de ver o mail. ( a caixinha e os ditos estão na imagem acima).
- Pois, a caixinha está muito bonita, os cigarritos também, mas se queres que te diga, acho isso uma ideia que não me agrada nada e ficava muito contente se te deixasses disso.
Esta minha amiga tem a particularidade de ser muito criativa e de me contar coisas que me põem os cabelos em pé, mas só quando me vê em ponto de rebuçado, resolve desmistificar os assuntos.
Então sai-se com esta:
- He, he, apanhei-te. Tu não me digas que ainda não aderiste à moda.
- Moda?
- Sim, criatura. Dadas as dificuldades financeiras e com o aumento do tabaco, as senhoras desataram a comprar tabaco, mortalhas e filtros, fazem os cigarros, põem-nos num maço de tabaco e em vez de gastarem 3,5€ por dia, gastam 5€ de 15 em 15 dias. Agora faz as contas.
- .....
Fiquei sem palavras. Não sabia se me ria, se me zangava com ela.
Certo é, que ainda que num tom de voz não muito alto dado que não me sentia assim muito à vontade, no dia seguinte lá fui à papelaria da esquina e perguntei:
- Tem tabaco em caixinhas e mortalhas?
- Ah, a Srª Drª também vai aderir à moda????
- Bem, não sei bem se é por ser moda, mas parece que é mais barato.
- Tenho várias marcas, conforme o gosto, e até tenho umas máquinas que fazem tudo sozinhas. É só meter lá dentro o tabaco, as mortalhas e o filtro e sai o cigarrinho já pronto.
- Hum, então dê-me o que for mais parecido com Marlboro, as mortalhas e os filtros.
Ontem passei boa parte do dia a tentar enrolar o cigarito. Mas como saía sempre tabaco, ou de um lado ou do outro, hoje voltei lá e comprei a maquineta.
Já tenho uma caixa de Marlboro cheia de cigarrinhos e são óptimos.
Só quero ver a cara da minha mãe quando puxar de um à frente dela.
Uma coisa é certa:
Nada como a necessidade para aguçar o engenho!

6 April 2009

UMA PRATELEIRA DE AFECTOS

Olhava as prateleiras da minha despensa:

Esparguete, arroz, várias farinhas, alguns enlatados, poucos, especiarias, cereais, chocolates, azeite, enfim aquilo que é necessário para cozinhar aquilo que alimenta o nosso corpo.
Estava ali a olhar, tudo muito alinhado, por secções, com caixas todas da mesma cor.
Já tinha comido uma barrita de cereais, fruta, um iogurte, não era bem fome que eu sentia.
Era assim como que uma falta.
Descobri que preciso de mais uma prateleira onde possa pôr frascos. Frascos de formas diferentes, de várias cores e rótulos de letras gordas:
Cheiro dos meus filhos, bebés acabados de sair do banho.
Perfumes que marcaram várias fases felizes da minha vida.
Cheiro do mar.
Cheiro das noites africanas.
Cheiro de livros.
Cheiro da relva acabada de cortar.
Cheiro do pelo da cabecinha do meu James.
E sons? Será que consigo engarrafar sons? Sons de aviões a levantar voo, de ondas a bater no casco de um barco, de ventos enfunando velas, do batuque do samba que me faz saltitar os pés, sons de beijos repenicados, sons, sons de corações batendo um contra o outro num abraço apertado.
Descobri. Quero uma prateleira só de afectos.
É isso que falta na minha despensa para me poder saciar quando sinto estas faltas.

4 April 2009

( 18 ) PORQUE É FIM-DE-SEMANA

3 April 2009

JULGAMENTOS


As pessoas pensam que conhecem as outras. Mas, na verdade, o que elas fazem, a toda a hora, é julgá-las. Ainda que inconscientemente. O facto é que estamos 24 horas sob julgamento alheio. Seja dos nossos amigos, dos nossos colegas de trabalho, dos nossos amores, da nossa família, da vendedora da mercearia do lado. As pessoas julgam-nos o tempo todo. Julgam pela marca da roupa que nós vestimos. Pelo carro que a gente conduz. Pelo tom de voz com que atendemos o telefone. Pelo modelo de telemóvel que usamos. Pela mala. Pela empresa onde trabalhamos. Pelo cargo que ocupamos. Pelo nosso corpo. Pela cor da nossa pele. Pelo nosso sexo. Pela nossa idade. E por uma outra infinidade de coisas que não significam nada no final das contas.
Conheço muita gente que anda de carro do ano (pago em sei lá quantas milhares de prestações) e mal tem dinheiro para pagar as contas no final do mês. Conheço gente que ganha o salário mínimo e usa calças Rocco Baroco. Conheço gente que tem o telemóvel mais caro do mercado e não tem dinheiro para pagar a conta.
Conheço gente que fala docemente e é sacana. Gente que fala alto e é um doce.
Gente nova que já viveu para vida inteira. Gente velha que ainda tem muito o que viver. Conheço mulheres que trabalham mais do que qualquer homem. E homens que têm medo de baratas no chão da cozinha. (conheço inclusive homens que têm medo de tudo, mas isso é uma outra história).
Não venham dizer-me se eu devo trabalhar mais ou trabalhar menos. Gastar mais ou gastar menos. Beber mais ou beber menos. Sair mais ou sair menos. Comer mais ou comer menos. Comer carne ou não. Comer comida japonesa ou não. Não me julguem pelo que eu faço, pelos lugares que eu frequento ou pelas pessoas com quem eu me relaciono.
Estou cansada de ser rotulada! Quem as pessoas pensam que são para definir quem são ou como são os outros?!?
Eu não sou um produto de prateleira de supermercado para que alguém venha e coloque um rótulo dizendo os meus ingredientes ou o modo de usar...
Eu não sou um objecto, nem tão pouco um produto que pode ser comercializado e tão pouco tenho manual de instruções.
Não sou como as pessoas pensam nem mesmo como elas me vêem.
Sou um ser humano e tenho sentimentos, tenho direito de mudar, de ousar, de sorrir, de chorar, de me doer com palavras, de falar baixo segredando e também tenho direito de gritar!
Portanto, vamos viver mais e julgar menos. Viver mais a nossa vida e preocuparmo-nos menos com a dos outros. Vamos parar de colocar rótulos em tudo. De comprar o produto pela embalagem. De achar que sabemos de antemão quem são as pessoas com quem lidamos.
Nunca sabemos.
Nem nunca saberemos.

2 April 2009

MENINA IRREQUIETA


Como é irrequieta a minha menina dos olhos. Dei-lhe o nome de Íris e de bem comportada não tem nada!
Vive a correr pelos campos cor de trigo onde mora. Encanta-se com as cores do mundo, brinca em lago sereno de lágrimas quentes ou é lavada quando elas se transformam em rios selvagens. Às vezes, recolhe-se numa nuvem de tristeza, mas logo se anima ao acompanhar uma borboleta.
Persegue crianças, aviões, pássaros e palavras em livros. Não há infantário para a pôr nem colégio que a eduque. Espreita o sol, mergulha no mar e esconde-se do escuro.
Fala quando devia estar calada, mas tem uma qualidade: nunca mente.
Curiosa como uma criança, a minha menina Íris só sossega de noite quando se prepara para assistir aos meus sonhos.

1 April 2009

ESTÁ TUDO DOIDO?


Este definitivamente não é o meu filme. Quando me obrigo a ver os telejornais, fico com a certeza que o mundo está louco. Antigamente mandavam-se as crianças à padaria, andar fazia bem à saúde e namorar no jardim era agradável.
Hoje vamos nós à padaria e voltamos sem pão e sem dinheiro, se é que voltamos. ( Ainda bem que tenho máquina de pão).
As crianças vão correr e voltam sem ténis, saem para namorar e voltam sem namorado.
Dizem-me que tenho que ter Fé em Deus, mas Deus gosta quando a gente ajuda e toma cuidado.
Agora, em toda a parte, em todo o mundo, aparecem como cogumelos venenosos, monstros que fizeram as suas filhas mães.
Alguém me diz quando isto vai parar? Tenho vontade de estudar a mente destes seres. Seria a pobreza e o sofrimento que despertaram neles alguma loucura? Existe a possibilidade das pessoas se tornarem psicopatas ou elas nascem assim? Psicopatia será mesmo um distúrbio? Em que momento pára o nosso limite do normal e começa o louco assassino? O mundo fez as pessoas enlouquecerem ou as pessoas estão a enlouquecer o mundo?
Daria para voltar atrás no tempo e mudar a história do mundo? Reescrever cada dia apagando a fome, a pobreza, o ódio e a inveja que gera até roubo e morte?
Viver é bom mas dá trabalho. É preciso ainda ter mais coisas para dificultar?
Vá com Deus - diz-me a minha mãe quando se despede de mim.
(Mas com o Deus certo -penso eu- cuidado com os disfarces espalhados por aí. Existem disfarces para tudo).
Que bom que era que todos estes horrores fossem histórias do Dia das Mentiras.