Showing posts with label Bluevelvet's fantasies. Show all posts
Showing posts with label Bluevelvet's fantasies. Show all posts

19 February 2011

AS JURAS QUE QUEBREI


Quando numa sociedade, perante um determinado facto, a maioria pensa e age de uma forma igual, isso é a normalidade. Quem não o faz é anormal, quiçá louco.
Descobri que sou louca e à loucura me tenho remetido, num silêncio quebrado de quando em vez por uns laivos de lucidez.
Nessas alturas juro a mim mesma que da próxima vez farei como os outros. Mas às vezes não aguento.E quebro-as. Ás juras.
Agora, de uma só vez quebro quatro. Quem por acaso aqui passar, provavelmente nem terá paciência para ler um post grande.Tampis, ça m'est égal!

1ª Jura Quebrada - Não falar das últimas eleições.
Não falarei de todos os fait divers que as acompanharam mas há algumas perguntas que me martelam na cabeça e para as quais gostaria de encontrar resposta:
- Mesmo aqueles que não gostam de Cavaco Silva nunca duvidaram da sua honestidade e lisura. Como é que ele não desconfiou que durante a campanha o assunto das suas casas no Algarve viria à baila? Como é que ele não adivinhou que o caso da venda das suas acções e do empréstimo do genro seriam dissecados até à exaustão?
Por fim, porque não esclarece de vez as questões e remete para o site da Presidência da República?

Como é que Manuel Alegre, profissão político, não percebeu que era melhor apresentar-se como independente do que ter o apoio desapoiado do PS?
Como é que não percebeu que a podridão fétida do Partido se lhe colaria?
E assim, sem honra nem glória acabou a sua carreira política. Restam-lhe as trovas...

2ª Jura Quebrada - O Homicídio no Intercontinental.
A vítima não era pessoa da minha simpatia. Não a conhecia e nem tenho nada contra as suas orientações sexuais. Mas,
- se me horroriza a forma como os animais comestíveis são mortos, à paulada ( os coelhos), sangrando ( os porcos), com choques eléctricos os animais de maior porte,
- se sou contra as touradas,
- se pertenço a Associações de Defesa dos Animais
- se evito tanto quanto posso comer carne
- se em noites de temporal o meu coração se aperta pensando nos cães abandonados que vivem na rua, quando olho para o meu, quentinho, dormindo em cima do fofo édredon da minha cama,
Não posso concordar que NENHUM ser humano seja morto daquela forma. Seja qual for a razão, muito menos, por motivos sexuais.
Ouvi a notícia num telejornal. Li-a num jornal. Não corri para as bancas de revistas para comprar todas e babar sobre os pormenores sórdidos. Mas isso sou eu que sou louca, já que a maioria o fez.
Quando perguntavam aos meus filhos o que queriam ser quando fossem grandes, um queria ser palhaço, o outro Presidente da República. Nem um nem outro conseguiram. Felizmente.
O homicida queria ser Famoso. Não queria ser um escritor Famoso. Não queria ser um actor Famoso. Não queria ser um médico Famoso. Não, só queria ser Famoso.
Ora, a Fama tem sempre o seu preço. Ás vezes muito caro. Agora já é. Famoso!
As pessoas normais da sua cidade querem que não seja punido. As pessoas normais fizeram um grupo no Facebook com centenas de assinaturas para que nem seja julgado.
Mas eu que sou louca, sou tenho três perguntas:
- O homicida, enquanto pernoitava em casa da vítima, enquanto usufruia das viagens e presentes facultadas pela vítima, enquanto gozava o Réveillon numa das cidades mais caras do mundo, num dos hotéis mais luxuosos do mundo, nunca percebeu que estava a pagar o preço disso tudo? Ou que teria que o pagar? Que não há almoços grátis? Não queria mais? Que tal bater a porta do quarto do hotel, sair e voltar para Portugal?
- Curioso que ainda ninguém se preocupou com o sofrimento da mãe do homicida. O que irá naquela alma? Porque mãe é mãe. Seja de quem for. Como conseguirá ela equilibrar-se entre o amor imenso e único pelo filho e o repúdio e horror pelo que ele fez?
Mas, claro, isto sou eu e a minha loucura a pensarem as duas. Neste caso têm mesmo que ser as duas.

3ª Jura Quebrada - A Idosa encontrada morta 9 anos depois de morrer
Em tempos idos, no Japão, os velhos ( eu nunca uso esta palavra mas sim idosos), eram levados para a mais alta montanha perto da sua cidade natal, para morrer. Algo assim como se fazia aos leprosos. Mas isso era antigamente!
Seria? Será?
Uma sociedade que não cuida dos seus idosos é uma sociedade doente e por muito que me custe reconhecer, um caso destes nunca aconteceria na sociedade judaica ou por exemplo na India. Por lá, a palavra dos mais velhos é respeitada porque consideram que são mais sabedores. Por lá, as famílias vivem em comunidade. As mais das vezes os filhos quando casam ficam a viver com os pais.
Mas nós somos muito mais civilizados. Nós não temos idosos, temos velhos. Imprestáveis. Um empecilho. Doentes. Alguns quase surdos ou cegos. Enfim, uma chatice. Melhor mesmo abandoná-los à porta dos hospitais e não voltar para os ir buscar. Ou depositá-los como lixo em lares que de LAR, só têm a palavra.
Não falarei da atitude da GNR. Nem das autoridades. Nem da família. Não quero conspurcar o meu blog.
Mas tenho uma perguntinha, decerto fruto da minha loucura: - Os jovens de hoje pensam que não vão ser, um dia, velhos?
E agora vou recolher-me à minha loucura, num mundo onde

A terra gira ao contrário
e os rios nascem no mar!

26 January 2010

FORA DE HORAS


Mesmo com o nascer do sol

persistia o escuro
imagino que o parto
tenha sido prematuro.

14 January 2010

LET'S GET LOST



Não sei que me deu, que nem sou destas coisas. Muito menos no Inverno. Sim, porque no Verão, como diria a Pitanga, o calor mexe com os neurónios, hormónios e anónimos e portanto seria mais natural.
O facto é que me anda a apetecer privatizar este senhor.
A Leonor, que é uma vizinha muito querida, mal soube, ofereceu-me este pitéu.
Não havia quem também o queria ouvir tocar? Pois aqui até canta.
Podem ver, ouvir, pasmar e até babar, mas já agora sem ser para cima do meu computador.
LET'S GET LOST!!!

11 January 2010

ARRISCAR


Os anos passam devagar,
Memórias apagadas, lembranças recordadas.
O que desejei ser.

Os meses são sequências intermináveis,
Caminhos traçados, passos nunca dados.
O que deixei de ser.

As semanas são como puzzles de inúmeros pedaços,
Tentativas falhadas, forças acabadas.
O que quis ser.

Os dias constroiem-se lentamente,
Sonhos pisados, desejos cansados.
O que dei para ser.

As horas sucedem-se a um ritmo acomodado,
Objectivos perdidos, sorrisos escondidos.
O que arrisquei ser.

Os minutos desdobram-se em minutos mais,
Sentimentos inexistentes, palavras caladas.
O que tentei ser.

Os segundos multiplicam-se,
Coração de pedra, temperatura baixa.
Perdi-me.

8 January 2010

SONHANDO


Sonhar é injusto. Exige sempre muito do sonhador e quase nada do sonhado - senão a simples omnipresença - . Sonhar exige tanto, que traz à tona o que racionalmente guardámos na gaveta mais escondida do sótão do nosso coração, e que fizemos questão de revestir com enormes pedregulhos trazidos de experiências anteriores...
Sonhar é injusto, porque a injustiça é relativa. O que uns tentam esquecer, esconder, alguém tem prazer em recordar e fá-lo mesmo que estejamos despojados de todas as nossas capacidades de seres racionais e quando, em estado de sonolência, as nossas faculdades emocionais podem ser assaltadas, sem que tenhamos oportunidade de pressionar o botão de alarme...
Sonhar é injusto, porque exige muito pouco do sonhado, que passa da condição de esquecido para a condição de lembrado. E as lembranças matam...mesmo que num estado de dormência do corpo e da alma que o habita...
Sonhar é injusto, porque nos faz acreditar que num tempo perdido, num lugar esquecido, num corpo inerte, há uma vida escondida, que só faz sentido se for sonhada, vivida...

7 January 2010

DANCEMOS


Dança comigo. Aqui mesmo… sob as poucas estrelas que ainda ousam sair à noite apesar do frio. Envolve o meu carinho… abafa o clamor do mundo no silêncio dos teus braços… Aperta-me bem juntinho de ti para que cada batida do teu coração me guie os passos até casa…

Canta-me ao ouvido estrofes desse silêncio que a tantos oprime mas que me conforta… não me interessa se sabes de cor todas as palavras ou se inventas algumas pelo caminho, mesmo que o ritmo a que pauto a minha respiração possa vir descompassado… Nada mais importa que não sentir-te a alma em cada nota… e poder impregnar a minha do timbre quente da tua voz…

Olha-me nos olhos para que, perdida no meu amor por ti, possa amar também o meu reflexo… E, enquanto me tens prisioneira desse olhar, aprisiona-me também a vontade no sabor doce do teu beijo…

Abandona-te ao movimento dos passos que desenhamos na areia… não penses sequer no amanhecer que se aproxima. Se a lua é clave, o sol será maestro nesta nossa melodia singular… Perde-te em mim e deixa-te ficar aqui para sempre… Seremos noite, valsa, tango, mar e lua… seremos dança… tu e eu… concerto, adágio, simples melodia… juntos, livres, sempre apaixonados… encontremos sentido, amor, paixão apenas um no outro… e dancemos a eternidade numa vida…

30 December 2009

....

Jean Paul Avisse ( The Path of Time)

Em algum momento me encontrei...
Assim... Deslumbrada!
Vendo o brilho sereno das flores e suas almas perfumadas.
A alegria flanava livre.
Eu a sonhar!
A presentir o amor,
A encontrar...
Véus de brilhos luminosos,
A construir fantasias encantadas.

Em algum momento me encontrei...
Ferida! Rejeitada!
A perceber as sombras degustando minhas dores.
A tristeza me precipitava em lágrimas.
Labaredas negras me consumiam...
Eu prostrada!

Em algum momento me encontrei...
Tecendo forças...
Lancei os véus às labaredas,
Extingui as labaredas com minhas lágrimas,
Sorri serenamente e encontrei meu próprio aroma.
Amor por mim!
Eu a amar!

Em algum momento me encontrei,
Melhor do que antes e grata.
Sempre a despertar!

29 December 2009

SUGAR...


Em 2009 isto não ficou bem esclarecido.
Portanto, vamos lá:OFERECIDA É DIFERENTE DE SER FÁCIL.
Assim sendo:

Quando encontrar um homem com quem possa passar uma manhã de domingo a ler jornais numa qualquer esplanada de Lisboa.
Quando encontrar um homem com quem possa almoçar a ver o rio e ficar a beber e a conversar toda a tarde.
Quando encontrar um homem que não dê erros ortográficos e que me saiba ler.
Quando encontrar um homem com quem os silêncios sejam tão confortáveis como as gargalhadas.
Quando encontrar um homem que me faça comida de madrugada.
Quando encontrar um homem com quem consiga dormir uma noite inteira aninhada ou a cama quase toda para mim.
Quando encontrar um homem que me ajeite o lençol de manhã e me deixe dormir.
Quando encontrar um homem que me cheire a prazer.
Quando encontrar um homem que seja tão bruto quanto doce.
Quando encontrar um homem que me ature mimada.
...
Se esse homem existir, eu ofereço-me.

15 December 2009

DESATINO


Há palavras que têm sabor, palavras que se deixam degustar enquanto as sentimos rolar por sobre a língua antes de abrirmos ao de leve os lábios para as deixarmos sair… Enquanto existem em mim sabem a sonhos… a esperança… quando mas calas com um beijo e fogem para a tua boca sabem-me a amor e a paixão… quando mais tarde as exalas inesperadamente sabem-me a destino… quando mas sussurras ao ouvido… quando mas gravas com os dedos sobre a pele… quando mergulho os meus olhos nos teus e as vejo navegar a tua alma… quando vislumbro uma sílaba perdida no canto da tua boca e provo uma letra apressada no gosto do teu sorriso…

Há palavras que têm cheiro… a mil passeios de mãos dadas… a parque… a praia… que soam como música perdida nas estrofes de vento que refrescam o verão… que uivam na tempestade para que as lembremos para sempre… que cantam para nós de manhã para que o nosso despertar seja suave e melodioso… que nos imprimem vida, movimento… ritmo…

Há palavras que nascem bem dentro de nós e que ficam lá mesmo depois de as gritarmos ao vento e de as levarmos pela mão a conhecer o mundo de outra pessoa… palavras que embalamos sem mesmo nos darmos conta e das quais nos alimentamos com cada vez mais avidez…

São palavras que um dia nos batem à porta de mansinho e nos pedem para entrar… e não encontramos forças para as mandar embora… e deixamos que fiquem e que, aos poucos, vão tomando conta de nós… exigindo ser o nosso centro… o âmago de tudo… E, quando enfim, derrubadas todas as barreiras, nos preenchem, querem mais… querem ser partilhadas… porque são especiais… porque querem colorir os dias daqueles que amamos e unir-nos ainda mais… sem pressas… porque têm todo o tempo do mundo para nos fazer felizes…



19 November 2009

O SALTO


Ela começa a olhar à sua volta e de repente vê o muro. Tão alto! Ficou completamente desnorteada:
- Meu Deus, como é que não o tinha visto até agora?
Logo ela, tão claustrofóbica, não se dera conta de que estava cercada. Muro sem janelas, paredes altas e uma estranha luz difusa que parecia mesmo a luz do sol. Mas não era. Aos poucos identifica também a fonte de luz e quão apertado era aquele espaço onde estava a viver há tanto tempo. Sem dar por isso.
Fechada naquele centro escuro de si mesma, onde se resguardava e se guardava. Uma película fina, mas quase intransponível, atava os seus braços e as suas pernas.
Viu a barreira fria que a protegia do mundo à sua volta.
Agora vê, sente e decide que está na hora de saltar o muro, de deixar que os cheiros todos se confundam e confundam os seus sentidos. Sentir com todo o corpo, reaprender a devorar a vida lá fora e trazê-la cá para dentro... Hesita. Afinal, estava tão confortável ali. Afinal, estava mesmo confortável e segura e tranquila.
E o medo, às vezes, é um bom conselheiro. (Recorda-se das palavras que sua mãe costumava dizer quando ela chegava a casa radiante: tenha cuidado, não mergulhe de cabeça nas coisas, um pé de cada vez).
Lembra-se também que continuou a mergulhar pela vida fora, e que só assim sabia viver. O excesso foi sempre a sua boa medida quando chegava a hora da entrega. Se é para mergulhar, entra de corpo e alma, dos pés à cabeça... Sabe que muitas vezes vir à tona pode ser difícil, mas nunca temeu afogar-se... Espreita devagar, pé ante pé... Mas no fundo sabe que o salto é inevitável.
Que venha!!!

18 November 2009

É SIMPLES


É um sorriso que se vai alargando, alargando... como se fosse puxando tudo de dentro com o movimento dos lábios, o levantar da bochecha, o trincar dos dentes ou um sorriso aberto.
Cada movimento puxa um infinito de coisas de dentro, todas sem nome.
As palavras são-me pobres em algumas ocasiões. Quero rimas ricas e cheias de cores, cheiros e texturas finas.
Quero chuva fazendo música na janela do meu quarto quando a noite parece sem fim, quero um sol bem amarelo-alaranjado para deixar os dias com brilho.
Quero continuar a tentar encontrar dentro de mim uma palavra que seja ímpar, que seja singular, e é com um sorriso cada vez mais largo, que tentarei buscar no vazio das coisas ou até mesmo onde é coberto de sentimentos que desconheço, um pedaço de dias felizes...
E de olhos fechados ou não, eu só quero sorrir!

13 October 2009

FLORES DE MEL


Plantei flores cor de mel e uma abelha picou-me.

9 October 2009

DIVÓRCIOS


Já muito se escreveu sobre o destino dos guarda-chuvas esquecidos no cinema e das luvas deixadas no vão das cadeiras dos transportes públicos. É também uma espécie de Triângulo das Bermudas que, estou certa, acolhe aquilo a que chamo de "meias descasadas". Estas meias sem par vagam solitárias durante muito tempo até serem atiradas para o lixo de modo desumano.
Não basta, contudo, constatar o problema - urge também investigar as suas causas. Eu quero crer que a minha máquina de lavar roupa não mastiga meias, uma vez que faria mais sentido que o electrodoméstico devorasse o par e não apenas um dos "cônjuges".
A lógica é elementar: se é apetitosa uma meia com a Betty Boop desenhada junto à barra, por que raios é que a máquina podendo engolir o casal, devoraria apenas um pé?
Tenho defendido este raciocínio ultimamente, embora haja na literatura dos têxteis dos membros inferiores registo de outras hipóteses.
Autores pós-Marklianos argumentam, por exemplo, que a sucção de uma meia obedece a uma lei matemática associada ao raio do tambor da máquina e à velocidade da centrifugação. Eu não entendo nada disso e, portanto, prefiro mudar de assunto e levantar outra questão deveras pertinente: o papel central que as meias desempenham nas sociedades modernas e na reprodução sexual.
Nos Estados Unidos ( e eu própria fazia isso quando os meuss filhos eram pequenos) é muito comum que se peça à visita que retire os sapatos à entrada, para evitar a dispersão de lixo urbano pela casa. O mesmo acontece por ocasião de uma festa, sobretudo quando o apartamento em causa é forrado com alcatifa clara (algo relativamente comum em Nova Iorque). Quer isto dizer que na hora de vestir a roupa para o bailarico, a escolha das meias passa a ser mais importante do que a dos sapatos. Não basta serem novas e limpas - elas, as meias, TÊM de dialogar com as demais peças de roupas, quer na cor quer no padrão. Se forem divertidas, melhor ainda.
Mas atenção: não confundir "divertidas" com "aparvalhadas". Há seres (neuróticos, na minha opinião) que recorrem a modelos que indicam qual é o pé direito e o esquerdo. Ou que usam um par para cada dia da semana, respeitando sempre a relação calendário/meia, como naqueles conjuntos de sete horrorosos panos de cozinha que as nossas tias nos ofereciam no Natal.
O que mais me incomoda nisso tudo é que, aparentemente, as máquinas de lavar roupa NÃO comem (ou fazem desaparecer, dependendo da hipótese que se queira adoptar) elementos dos pares de meias aparvalhadas - reservando a sua gula ou fúria para as meias giras ou chics. Isto parece-me um grave problema pois o bom gosto destes electrodomésticos destrói a vida de vários casais de meias que tinham tudo para ser felizes e em contrapartida, oferece vantagens competitivas às meias aparvalhadas.
Ao que parece, as meias parolas não se divorciam.
Nós, desta forma, tendemos a usar com maior frequência em eventos sociais justamente as meias mais divertidas ou trendy (eu tenho alguns pares, confesso). É que costumam ser estas as únicas com aspecto de "novas" que sobram "casadas" no fundo da gaveta.
O que me preocupa é que este facto pode reduzir drasticamente a chance de cada um de nós impressionar um dos convidados da festa e como consequência, não vir um dia a transmitir os nossos genes para a próxima geração.

30 September 2009

*


Ela mora sozinha num apartamento pequeno que mais parece um quarto de empregada. Adora livros de astrologia e literatura de todo tipo, das mais baratas às mais ricas e belas e deixa tudo junto espalhado pelo chão. Tem os cabelos ondulados, olhos cor de mel, lábios rosados e uma pele cor de leite. Gosta de felinos, cria um gato chamado Pouft. Tem uma coleção de vinil da Billie Holiday e dos Beatles. Beatles para ouvir pela manhã, e Billie à noite. Guarda um piano de brinquedo, que apesar de ser de criança, ela toca tão bem quanto o Oscar Peterson.
Um quarto e uma só janela que dá de frente para uma praça com relva, areia e begônias. Uns bancos pintados de castanho onde a maioria das pessoas que se sentam ali, são aquelas de cabeça branca que levam o jornal debaixo do braço e talvez muita nostalgia na ponta da língua. Todas as manhãs vai à janela dar as boas vindas ao sol, dizer bom dia, pedir um bom dia; ás cinco e meia da tarde faz o mesmo ritual, dando adeus ao crepúsculo, dando uma boa noite, pedindo uma boa noite.
Vai ao quiosque todo o santo dia, ler as páginas principais dos jornais que ficam expostos, compra guloseimas e volta para casa.
Gosta de fazer bolas de sabão. Passa o dia todo molhando o seu quarto/casa com bolhas que faz com um só sopro e se espalham por cima dela, da cama, dos livros... fazem cócegas, são bonitas, estouram. Ela costuma pensar mil e uma coisa enquanto estica a bochecha e guardando um monte de ar para despejar numa bolha, com a pretensão de ser grande, duradoura. Tem vontade de morar dentro delas porque parece um mundo transparente, com cores leves enquanto se movimentam no ar.
Um mundo só dela. Uma bolha só dela. Uma bolha que não estourasse quando o vento é forte, ou com um simples sopro.
Na verdade, às vezes ela acha que o que causa tum tum tum dentro dela é como uma bola de sabão, tem a mesma sensibilidade de tudo aquilo que cresce por dentro, de tudo aquilo que a enche dentro do quarto, dentro das roupas, dentro da pele, dentro dela.
E estouram, também.

30 June 2009

JUST A GAME



Eu não tenho destino

sou um jogo de dados

de uma partida travada

entre a sorte e o acaso

12 May 2009

BAZAR DE SONHOS


De repente assaltou-me uma ideia: para onde vão as coisas quando desaparecem?
Fiquei parada, gelada. A minha cabeça começou a trabalhar. Todas as engrenagens ao mesmo tempo, desorganizadas, descompassadas, desalinhadas, sobrepostas, desencontradas.
Lembrei-me que Chico cantou assim: um lugar deve existir, uma espécie de bazar onde os sonhos extraviados vão parar.
Será que existe um mundo paralelo, um "Perdidos e Achados" fora do tempo e do espaço? Como seria ir parar num lugar cheio de coisas há muito desaparecidas?
Ver o par do meu sapato que nunca mais achei, aquele postal que tinha a certeza de ter guardado na primeira gaveta da cómoda, as milhares de canetas Bic que parecem ter pernas, as chaves que desaparecem sem deixar vestígios, até mesmo coisas que eu não tenho a certeza de terem existido de facto ou terem sido só fantasia.
Já pensaram se existisse um lugar assim?
Podia ir lá buscar a minha vida de volta.

21 April 2009

JOGOS DE CHOCOLATE


Reuniu os seus melhores sorrisos e escolheu a dedo as suas expressões na frente do espelho. Leve, queria deixar tudo leve e claro, a expressão do rosto, a voz, o ritmo de sua fala, a sua dicção. Decidiu que ia escutar mais do que falar.
Lavou os cabelos e obrigou-os a ficarem exactamente da forma que ele mais gostava. Não pôs batom para parecer natural e despreocupada. Ainda molhada espalhou umas gotinhas de óleo pelo corpo, só para ficar com um cheiro tão mas tão discreto que ele só perceberia se ficasse muito juntinho dela.
Demorou mais de 40 minutos em frente ao roupeiro para afinal escolher uns jeans confortáveis e um camiseiro branco. Calçou uns all star vermelhos e colocou um o cd do Frank Sinatra. Logo de seguida trocou porque achou que ele poderia achá-la muito romântica, em pleno fim de tarde de sábado, escutando aquelas músicas que parecem ter cheiro de whisky. Colocou Nina Simone. Preparou a cozinha para que estivesse tudo pronto para servir os canapés que tinha feito e oferecer um gin tónico assim que ele chegasse. Ou um whisky?
Imaginou-o já ali, sentado na cadeira, mexendo em qualquer coisa que estivesse em cima da mesa enquanto contava coisas da sua vida. Imaginou a cena e a conversa, e imaginou também que nessa situação sentiria muita vontade de cozinhar.Melhor começar já, para disfarçar.
Ansiosa como estava, abriu o frigorífico e não encontrou nada que a inspirasse. Algo doce. Chocolate! Isso mesmo.
Enquanto preparava um Sachertarte, entre ovos, farinha integral, açúcar mascavado e chocolate ficou ali à espera, com as mãos enfarinhadas, apreensiva, a chegada do homem que guardava nos seus bolsos um mundo cheiinho de possibilidades.

20 April 2009

PERSEGUIÇÕES


As pessoas perseguem sonhos
como crianças correm atrás de bolas de sabão.
Porque é divertido.
Não importa se os alcançam ou não.
As pessoas perseguem sonhos como um cão atrás de um carro,
não por que os querem realmente.
Só para se enganarem.
As pessoas perseguem sonhos como o vento as folhas,
porque estes sonhos
quando alcançados, as adormecem
em noites sem sono.
As pessoas...

9 April 2009

INFÂNCIA


Houve um tempo em que eu acreditava que algodão doce era nuvem com açúcar.
Houve um tempo em que eu acreditava que as bonecas, os brinquedos e os peluches tinham vida própria e despertavam quando eu adormecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que o mundo era um lugar lógico e seguro, e que até podiam acontecer coisas más de vez em quando, mas que no fim, tudo acabava bem.
Houve um tempo em que eu acreditava que as pessoas que amamos nunca morriam, nunca envelheciam, ficavam sempre iguais, à revelia do tempo.
Houve um tempo em que eu acreditava que os adultos sabiam tudo, não tinham dúvidas nem medos, e não erravam nunca.
Houve um tempo em que eu acreditava que se fechasse os olhos e pedisse com fé algo que desejasse muito, isso acontecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que quando crescemos nos tornamos livres e podemos tudo.
Foi-se esse tempo.

2 April 2009

MENINA IRREQUIETA


Como é irrequieta a minha menina dos olhos. Dei-lhe o nome de Íris e de bem comportada não tem nada!
Vive a correr pelos campos cor de trigo onde mora. Encanta-se com as cores do mundo, brinca em lago sereno de lágrimas quentes ou é lavada quando elas se transformam em rios selvagens. Às vezes, recolhe-se numa nuvem de tristeza, mas logo se anima ao acompanhar uma borboleta.
Persegue crianças, aviões, pássaros e palavras em livros. Não há infantário para a pôr nem colégio que a eduque. Espreita o sol, mergulha no mar e esconde-se do escuro.
Fala quando devia estar calada, mas tem uma qualidade: nunca mente.
Curiosa como uma criança, a minha menina Íris só sossega de noite quando se prepara para assistir aos meus sonhos.