31 January 2010

(28) PORQUE É FIM-DE-SEMANA

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Mirtes não se aguentou e contou para a Lurdes:
Viram teu marido entrando num motel.
A Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos. Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio. Depois pediu detalhes.
- Quando? Onde? Com quem?
- Com quem? Com quem?
– Isso eu não sei.
- Mas como? Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?
– Não sei, Lu.
- Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.
Quando o Carlos Alberto chegou em casa a Lurdes anunciou que iria deixá-lo e contou por quê.
- Mas que história é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel. Era você!
- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir. - Discretíssimu's!Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.
- Pois então?
– Pois então, que eu tenho que deixar você. Não vê? É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não REAGIR.
- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!
– Mas elas não sabem disso!
– Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?
– Vou!
– Mais tarde, quando Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto interceptou-a. Estava sombrio:
- Acabo de receber um telefonema – disse. - Era o Dico.
- O que ele queria?
– Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.
- O quê?
– Você foi vista saindo do motel Discretíssimus, ontem, com um homem.
- O homem era você!
– Eu sei, mas eu não fui identificado.
- Você não disse que era você?
– O quê? Para que os meus amigos pensem que eu vou a motel com a minha própria mulher?
– E então?
– Desculpe, Lurdes, mas...
– Mas o quê??
- Vou ter que te dar uma surra...

MORAL DA HISTÓRIA:DEVEMOS CUIDAR APENAS DA NOSSA SAÚDE, POIS DA NOSSA VIDA, TODO MUNDO CUIDA...

30 January 2010

(47) NÃO RESISTI



28 January 2010

CIRCO DE SENTIMENTOS ESCRITO A 4 MÃOS


Adorava ter o dom de conseguir transpor para o papel o ritmo do circo que está instalado cá em casa. O meu pai anunciou alto e bom som que tenciona viver até aos 90 anos. Responde a minha mãe:
- Pudera, não faz nada e toda a gente o apaparica. Assim também nós, responde em coro toda a gente.
- Deixem-se lá de conversas, e dêem-me os presentes, diz o meu pai com um ar digníssimo, batendo com a bengala no chão. ( Como não percebeu que aquela coisa dos euros está um bocado em falta por estes lados, tivemos que nos virar para arranjar presentes)
TRIM....TRIM...TRIM...desato a correr, tropeço no Sebastião e agarro nos auscultadores do meu lap top. É o meu filho de Nova Iorque, que quer falar com o avô. Chamo-o, ele lá vem com a sua bengala com o punho de prata no ar ( nunca percebi para quê que ele quer a bengala, porque não se apoia nela, anda com ela no ar!) e eu digo-lhe:
- Vá fale.
- Falo com quem?
- Com o Gonças.
- Não falo nada. Pareço parvo a falar pró ar, sózinho.
Entretanto o Sebastião ladra feito doido, assim que ouve a voz do meu filho. Não sei se é do champagne ou porque também não percebe onde está o Gonças. Nisto, no canto direito do écran, aparece um sinal a dizer que entrou um mail de uns amigos meus a quem chamo " Gatos". Dou um salto, tropeço no fio do microfone que estava enrolado no copo das canetas e lápis, e Zás: trinta canetas e lápis no chão. A Carlota( namorada do Martini man) chora a rir. O Martiniman, ( meu filho mais novo) com aquele ar da fotografia pergunta:
- O q foi? Que excitação é essa? Quem é que ligou? Foi algum admirador da mãe?
Levou logo com os lápis e canetas que eu já tinha apanhado, na cabeça.
-Não parvo, são os gatos.
- Gatos? Que gatos? Vocês agora também têm gatos, perguntam os presentes em coro. A Carlota continua a rir que nem uma perdida. Aqui, desisti. Sentei-me no chão, mandei toda a gente para o salão e resolvi vir escrever este post.
Escrever sôbre a fragilidade do amor, da vida, deste circo. Sinto tanto isso quando olho para o meu pai, tão frágil, tão dependente de mim, quando foi ele que sempre tive como ideia de segurança. Foi sempre ele o meu porto seguro.
Às vezes penso:- Será que já lhe disse bastantes vezes que o amo?É que por acaso chateia-me um bocado que no nosso meio social, as pessoas bem educadas não possam manifestar as suas emoções em público. A minha avó dizia sempre" Uma senhora nunca chora em público.” O caraças q não chora. E a história do beijinho. Só se pode dar um, senão somos saloios. Pior só mesmo um homem usar meias brancas...
A Carlota diz que a 1ª vez que veio cá a casa, estava morta de medo de mim, Vinha no elevador e perguntou, de repente, ao Guigas:
- À sua mãe dá-se 1 beijinho ou 2? Tá parva? 1 claro.
Diz ela: Ó tia, até me tremiam as pernas. Afinal a tia é uma gaja porreira que apetece cobrir de beijos. He...He...He...
Foi aí que me lembrei do Mec.
Escreveu ele, numa noite de muitos copos, como eram dantes, quase sempre as noites dele:

É minha convicção profunda, que temos o enorme dever, para com as pessoas amadas, de tratá-las como se tivessem morrido na véspera e voltado, por milagre, durante só mais um dia. “Obrigada! Obrigada! Obrigada! e ó pá, por amor de Quem te fez, vê lá essa merda, e não me abandones já”. Em suma: tem filhos pequeninos? Pais idosos? Um irmão imperfeito? Um amante querido, a ponto de perder o juízo? Amigos que calharam aparecer-lhe na vida?Pois bem: que se vá lá ter e nunca se desista. Tomem lá disto. Beijocas naquelas bochechas. Exploração sentimental desenfreada. Anda cá senão eu fino-te. Não me vou daqui sem um abraço. Coceguinhas, nas manhãs frias, nos corpos quentinhos, ouvindo risos abafados debaixo dos lençóis, lambidelas nos pescoços perfumados, abraços apertados que protegem e nos protegem. Chega-me esses lábios à boca antes que eu me desavenha de tanto os cobiçar, ó desgraçado do meu coração doente.Hoje. Não deixes para amanhã.Fica hoje com quem amas. Diz-lhe, hoje. Aquece-lhe as mãos e o coração. Para não ficares depois com o olhar parado das missas de corpo presente. Já repararam nos olhares parados dos presentes quando o ausente é já só um corpo que também já não está presente? E a cara pasmada, como quem diz” Como é que isto foi acontecer? “ Porquê agora? “ Porquê ele? “ Porque é assim, ora bolas. Porquê a arrogância de acharmos que a nós não aconteceria? Acontece, porra, acreditem. Não paguem para ver. A nossa obrigação e inteligência é fartarmo-nos das pessoas de quem gostamos, levarmos com elas dia e noite. Só olhar para outra pessoa de quem não se goste imensamente, é, no mínimo, perda de tempo. Temos de lá ir. Temos de lá estar. Temos de levar com elas e eles até já não podermos mais. As pessoas amadas são como o melhor champagne do Mundo: eu nomeio o Taittinger. Não; por acaso até nem são. São incomparáveis. Porque a saudade delas é como uma ressaca de ter bebido de menos - dói mais por não ter por onde doer menos. Pergunta para estúpidos, presente autora incluída: - Haverá coisa mais triste do que sofrer pelo que não se teve, e esteve, tendo podido ter e estado? sabendo que teríamos sido bem-vindos e recebidos e amados? Resposta científica: Após quarenta e tal anos de pesquisa exaustiva, feita nas muitas fases da minha vida, uma palavra apenas obtive: Não!Fartem-se das pessoas que amam. Tornem-se chatos para elas. Pensem na morte - a tal que vamos todos morrer. Minimizem os prejuízos. Apanhem secas delas - e dêem-lhes também as vossas, correspondentes, para que quando morrerem possam quase respirar de alívio.Que andamos nós aqui a fazer? Não é como se houvesse um mundo melhor onde pudéssemos estar.Não há. O único que conhecemos é este, e nós, algumas, já sabemos quem são as pessoas que podemos tornar felizes. As pessoas que nos alegram. E às vezes, muito raramente, aparecem outros, poucos, tão poucos, que cruzam a nossa vida para tornar os intervalos suportáveis. Às vezes calharam aparecer-me na vida. Pode-se ser amigo de alguém que se conhece assim, tão pouco, só de olhar, e tendo uma peneira tão fininha como a minha? Pode, se se tiver o coração aberto e se sentirem ondas quentinhas para cá e para lá.E depois? Depois logo se vê, como diz esta escritora maluca.
Prefiro arrepender-me do q fiz do q não fiz.
Em tudo na vida.

And this concludes the votes of the portuguese jury.

27 January 2010

...




Houve dias em que eu não cabia no estreito do mundo. Era como se eu estendesse os braços dançando liberta, e as minhas mãos estabanadas derrubassem vasos, estátuas, louças, milhares de coisinhas delicadas e mais ou menos preciosas que se fossem espalhando em cacos ameaçadores pelo chão.
Ás vezes eu pisava-as, cortava a planta dos pés e ia pisando o chão esbranquiçado com os pés ainda a sangrar. Deixava as minhas pegadas ao longo do caminho, pegadas tortas, pegadas livres.
Doía, mas eu chorava baixinho para esquecer a dor, para esquecer as feridas, para nascer de novo, livre como um passarinho.
Tenho cortes não cicatrizados que volta e meia voltam a doer e as lágrimas rolam sem que eu perceba, mas eu abro os braços de novo e danço, danço rodando a saia e despenteando os cabelos, porque preciso ir mais longe, já não aguento mais a pequenez das coisas, não aguento mais a mesmice da vida quotidiana.
Nada disso me serve. Ainda não sei para onde ir, mas sigo em frente, porque sei que não posso ficar.
Sei que mereço mais, e não me contento com o que a vida me dá.
Já não sou uma menina assustada, encolhida num canto, à espera que a vida me convide para dançar.
Já não enfeito os meus dedos com anéis coloridos, não espalho flores desbotadas nos meus cabelos loiros e a vida não me sopra nos ouvidos, delicada, doce.
Mas convida-me.
Convida-me e eu vou. Seja música ou seja silêncio, seja cinza ou seja cor, seja medo ou seja vontade, seja alegria ou seja dor.
Seja lá o que for, eu vou.


Will you catch me if I fall??

26 January 2010

FORA DE HORAS


Mesmo com o nascer do sol

persistia o escuro
imagino que o parto
tenha sido prematuro.

24 January 2010

PORQUE É FIM - DE - SEMANA...ADOPTE UM TERRORISTA!

haha
Eis a tradução da resposta que o ministro canadiano da Defesa dirigiu a uma boa alma que a ele se lamentava da sorte reservada aos «combatentes» afegãos, prisioneiros nos centros de detenção no Afeganistão.
National Defence Headquarters
MGen George R. Pearkes Bldg, 15 NT

Cara cidadã inquieta,

Obrigado pela sua recente carta, exprimindo a sua profunda preocupação a propósito da sorte dos terroristas da Al Qaeda capturados pelas forças canadianas, transferidos em seguida para o Governo Afegão e presentemente detidos pelos seus oficiais nos centros nacionais de reagrupamento de prisioneiros do Afeganistão.
A nossa administração toma este assunto muito a sério e a sua mensagem é recebida com muita atenção aqui em Ottawa.
Ficará feliz de saber que, graças à preocupação de cidadãs como a senhora, criámos um novo departamento na Defesa Nacional, que se chamará P.L.A.R.A, isto é " Programa dos Liberais que Assumem a Responsabilidade pelos Assassinos".
De acordo com as directrizes deste novo programa, decidimos eleger um terrorista e colocá-lo sob a vigilância pessoal da senhora.
O seu detido particular foi seleccionado e será conduzido sob escolta fortemente armada até ao domicílio da senhora em Toronto a partir da próxima segunda-feira.
Ali Mohammed Ahmed bin Mahmud ( poderá chamar-lhe simplesmente Ahmed), será tratado segundo as normas que a senhora pessoalmente exigiu na carta de reclamação.
Provavelmente será necessário que a senhora recorra a assistentes.
Nós faremos inspecções semanais a fim de nos certificarmos, com a mesma firmeza da sua carta, de que Ahmed beneficia realmente dos cuidados e de todas as atenções que nos recomenda. Apesar de Ahmed ser um sociopata extremamente violento esperamos que a sensibilidade da senhora, ao que descreve como o seu "problema comportamental" o ajudará a ultrapassar as suas perturbações de carácter.
Talvez a senhora tenha razão quando descreve estes problemas como simples diferenças culturais. Compreendemos que tenha a intenção de lhe proporcionar conselhos e educação ao domicílio.
O seu terrorista adoptado é temivelmente eficaz nas disciplinas de close-combat e pode dar fim a
uma vida com objectos simples, tais como um lápis ou um corta-unhas.
Aconselhamo-la a não lhe pedir para fazer uma demonstração durante a próxima sessão do seu grupo de yôga.
Ele é igualmente especialista em explosivos e pode fabricá-los a partir de produtos domésticos. Talvez seja melhor que os guarde fechados à chave, salvo se considerar (segundo a opinião que exprime) que isso o possa ofender.
Ahmed não desejará manter relações com a senhora ou com as suas filhas (excepto sexuais), na medida em que considera que as mulheres são uma espécie de mercadoria sub-humana.
É um assunto particularmente sensível para ele, que é conhecido por manifestar reacções violentas em relação a mulheres que não se submetem aos critérios de vestuário que ele recomenda como mais próprios.
Estou convencido de que, com o tempo, virá a apreciar o anonimato que oferece a burkha.
Recorde que isso faz parte do «respeito pelas crenças religiosas», como escreve na sua carta.
Mais uma vez, obrigado pelos seus cuidados.
Apreciamos bastante que cidadãos nos indiquem como fazer bem o nosso trabalho e ocupar-nos dos nossos congéneres.
Tome bem conta de Ahmed e lembre-se de que a observaremos.
Boa sorte e que Deus a abençoe.

Cordialmente,

Gordon O'Connor
Ministro da Defesa Nacional




23 January 2010

HOPE FOR HAITI NOW



22 January 2010

50.000


Quando há dois anos e uns meses comecei este blog, além de não entender nada do assunto, eram outras as razões que me moviam.
Queria escrever, sim, mas sobre tudo e mais alguma coisa, pôr vídeos, mails giros, fotos engraçadas e por aí.
Com o tempo, nem sei bem as razões, talvez por influência de alguns magníficos vizinhos, fui burilando a ideia e a pouco e pouco, aquilo que mais parecia uma loja de artigos chineses foi-se transformando, julgo eu, numa boutique mais exquisite.
Saíram os vídeos e os mails ( ficaram para o Não Resisti e Porque é Fim-de-Semana), e desapareceram os textos que não eram de minha autoria.
Isso reflectiu-se na postagem que era diária e deixou de ser e naquilo que escrevo.
Sabe bem quem escreve por obrigação, ( os cronistas semanais ou jornalistas) que isto da inspiração, não se compra nem se inventa.
Vem, nasce. Porque se vê um objecto que nos lembra algo, porque um estado de alma se instala, porque uma palavra que nos veio à mente de repente se transforma num texto que nos faz um formigueiro nos dedos e não pára até que esteja plasmado nas folhas de um caderno.
Assim que, hoje em dia não escreva todos os dias e escreva sobre os mais diversos assuntos.
De tal modo, que nem me tinha apercebido que já tinha ultrapassado a barreira dos 50.000 leitores que deixaram 11.961 comentários. ( O sitemeter que vêem marca 45.705 porque o instalei 5.000 leitores depois de ter aberto o blog).
Mas são números. Nada mais que números. Não sei exactamente o que significam. Nem sôbre isso me interrogo.
Como já disse em vários posts, escrevo porque escrevo, porque isso me é vital como respirar. Para mim, o que escrevo é pouco, e preciso tanto!
Escrever ajuda-me a pensar.
Deixo os pensamentos escorrer pela ponta do lápis para que, quando releio, perceber o que faz ou não sentido.
Preciso escrever para deixar de ter esta sensação de haver mil frases, ideias, sentimentos a bailar na minha cabeça.
Penso no papel e vejo o que vale a pena ficar gravado e o que é ruído.
Mas raramente preciso de me arrumar.
Não me dêem muito, mas não me tirem um lápis daqueles com borrachina na outra ponta e um papel. Mais precisamente um Moleskine.
E já agora, uma ideia.

Nota: a imagem é a do 1º topo deste blog, que se manteve durante quase 1 ano e é da minha autoria e da minha máquina.

21 January 2010

(3) MEMÓRIAS DE INFÂNCIA


Poucos sabiam do jardim secreto na vetusta e almiscarada casa da Quinta. Sebes, cameleiras, buxo e lilases escondiam o granito rasteiro que suportava, altiva, a frontaria. Mirado por fora, o jardim não chamava a atenção. Era contido por um gradeamento verde, nem alto, nem baixo, portões também verdes rangendo ao abrir. Enganava os passantes a banalidade da impressão. Não sendo jardim mas gente, dobraria cautelas - fosse eu de as ter ou sequer de as prever! - pelo ar sonso das sebes desmentido por lampejos matreiros. Culpa directa do verniz das folhas das cameleiras regateando, a quem passa, o sol.
Não sendo grande, tinha a dimensão entre o normal e o destacado, assim fazendo vénia à (in)decisão social herdada pela família proprietária. É resmoneio cuspido entre-dentes nas costas de quem a sorte ou os berços sucessivos bafejaram que, se bem vasculhada, na família se encontrará a avó forneira.
Dito injusto por confundir farruscas com deslustres ancestrais, assertivo ao dar como inexistentes genealogias alvas de mácula, se bastardias, devassos, avarentos e sacanas contarem.
O segredo do jardim começava onde acabava o telhado do verde compacto das latadas. Pelas duas e meia da tarde, chinelavam passos nas lajes de granito que apainelavam o chão. Seguros. Precisos.
Rumavam a um altar exposto ao cruzamento ogival da abóbada celeste, onde pontificava uma mesa acolitada por cadeiras e espreguiçadeiras, tudo em sólida verga. Suavizam os assentos coxins de florido cretone. O chinelado quedou-se. Quem esticar o pescoço para lá das colunas de buxo onde curva a alameda, verá pés nus, balouçando, malcriados. Cosendo a curiosidade às sebes, subirá o olhar dos pés às pernas, estas convergindo em breve outeiro. Mirada decidida avançará rente às bordas dos vales suaves, olhos postos nas colinas gémeas desafiando o sol. Numa mão um livro, na outra nada.
Pestanas longas sombreavam o alto da face.
O cabelo solto por fora da espreguiçadeira.
A minha pele solta. Nua.
Oficiando ritual pagão.

19 January 2010

DÔR MENTE



Às vezes fico com o coração apertadinho.
Tão apertadinho que me falta o ar,
Que me sinto dormente.
É um desconforto,
Um frio
Que me gela o corpo.
Que me gela a alma.
Ou o que resta dela.
Ás vezes, acho que fiquei para trás
Agarrada a qualquer lembrança
Que não me pertence.
Pelo menos agora
Já não.
E é quando me sinto assim...
Quando o meu coração não detém
As lágrimas que pelo rosto correm
Que sinto a falta.
A falta de alguém.
Porque preciso indiscutivelmente
De alguém.
Que sem julgar me oiça.
Que sem me repreender me espere.
Que sem desesperar me chame.
Que sem me olhar me toque.
Que sem vontade me ame.
Que sem fé acredite.
Hoje só preciso disto.
E já é muito.