Rosália morava numa rua sem nome. E era assim que diziam quando era necessário dar uma qualquer referência, fosse para o rapaz das pizzas ou o merceeiro que vendia verduras numa bacia equilibrada na cabeça - assim, você passa pela Rua dos Sonhos, depois vira à esquerda, em seguida vira na Rua da Desilusão e depois vira numa rua sem nome.
E a rua passou a ser chamada assim, “Rua Sem Nome”.
A casa de Rosália era uma casa com uma tonalidade meio amarelada, não sei se de um branco envelhecido ou um amarelo “tipo esquecido”.
Tinha telhado de barro com manchas de lodo. A porta da frente tinha uns desenhos abstractos que pareciam ter sido talhados com um enorme carinho.
Havia algumas flores do lado de fora com um certo ar de abandono, um pinheiro estranho do lado direito da casa e uma gaiola com um passarinho de brinquedo.
Os vizinhos de Rosália diziam que desde que o marido saiu de casa ela nunca mais viu o sol nascer sem ser através das persianas. Diziam que ela agora era uma mulher sorumbática e desleixada.
Para ela, os dias eram como se fossem um papel dobrado, uma, duas, três... cinco, sete, dez dobras.
Caminhava de uma forma serena pelas divisões da casa, mas passava a maior parte do tempo enfurnada dentro do quarto, com os cabelos desgrenhados, dando conta dos seus tiques nervosos.
Usava uma lavanda que lhe deram no dia do seu aniversário, aquelas de dois litros que duram uma eternidade. Vestia roupas leves e tinha uma feição tristonha.
Rosália escrevia poesias em folhas de papel pautado e depois de terminar os versos ritmados, amassava o papel e o fazia cinza em labaredas.
Os vizinhos diziam que o marido de Rosália era agressivo, que tinha um ar estranho, mas Rosália amava a forma dura, ou não, com que ele a tratava.
Até que um certo dia, nas caminhadas serenas dentro de casa, Rosália foi remexer as gavetas todas cheias de fotografias antigas e bilhetes rabiscados de sentimentos, cartões de Natal, convites de casamentos, um envelope. Rasgado, manchado e com uma carta escrita num papel amarelado.
Era dele. Escrita por ele, para ela.
No tempo em que o amor era uma janela aberta. Quando ele deixava a caneta escorregar no papel de um jeito tão manso que parecia afago.
No branco, agora amarelado.
Rosália lia, relia e chorava de forma compulsiva.
Não imaginava que um amor digno de talhar porta com desenhos abstractos, se tivesse coberto num rubro sangrado, num todo asco.
Ela chorava, chorava, até que os olhos se fecharam e o peito gritou num palpitar cansado que o amor não é um canto ensaiado, é um pintar da forma que quer, traçar da forma que quer.
O amor é solúvel, é palpável, é maleável e pode mudar seja com o anteceder do tempo ou com o passar do tempo.
E o amor às vezes, transforma-se em desamor ou num grande amor desbotado.
Rosália lia, relia e agora suspirava de uma forma quase epifânica. Como quem arrisca sorrir ao pensar em ir lá fora ver o sol nascer.
Observar de um ângulo que não seja o de dentro, a casa da Rua Sem Nome.
E num piscar de olhos, tentar tingi-la de qualquer cor, desde que não lembre um certo tom amarelado.