30 October 2007

TOU CHEGANDO





Como o prometido é devido, aqui fica então o que me parece importante saber-se sobre o Halloweewn e contar-vos como é vivido nos Estados Unidos.
Eu sei que disse que era amanhã, mas imaginem que também vou comemorá-lo amanhã à noite. Embora de forma diferente, mas não estarei por aqui.
Portanto, começo por dizer que o facto de não se gostar do Carnaval, não implica que não se goste do Halloween.
São coisas completa e totalmente diferentes.
Desde logo pelas suas origens mais remotas: no caso do Carnaval tem a ver com a Quaresma, e Halloween com os Celtas e com o Dia de todos os Santos.
Depois, porque enquanto o Carnaval é para toda a gente, miúdos e graúdos, o Halloween é especialmente, hoje em dia, que não nos seus primórdios, uma festa para os miúdos dos 5 aos 13 anos.
E enquanto as partidas no Carnaval não têm limites, ao abrigo do " É carnaval, ninguém leva a mal", o Halloween está delimitado às brincadeiras a que se chama "Treat or Trick".
Mas comecemos do começo:
As raízes mais antigas do Halloween remontam quase a dois mil anos atrás, ao Festival Celta chamado Samhain. ( Lê-se sow-in).
Nessa altura os Celtas viviam na região agora conhecida como Irlanda e comemoravam o Ano Novo, no dia 1 de Novembro. Este dia marcava o fim do Verão e das colheitas e o começo do longo Inverno, época do ano em que morriam mais pessoas.
Acreditavam que na véspera, o mundo dos vivos e dos mortos se misturava.
Para honrar a data faziam fogueiras onde queimavam em sacrifício aos seus Deuses, para que eles os ajudassem no longo e escuro Inverno, caveiras e animais.
Por volta do ano 43 D.C., os Romanos conquistaram a maior parte do território Celta e durante os 400 anos em que os governaram, misturaram a sua civilização com a deles e naturalmente também os seus costumes.
Assim, os Romanos que tinham dois Festivais parecidos aglutinaram-nos com os dos Celtas.
O 1º chamado Feralia ( mais tarde Feira ) lembrava os que já tinham morrido.
O 2ºera em honra de Pomona ( Pomme/ Maçã ) a deusa das árvores e dos frutos. Daí a actual costume de “ bobbing apples” que explicarei mais à frente.
No ano 800 D.C. o Papa Bonifácio IV designou o dia 1º de Novembro dia de Todos-os Santos. A celebração chamava-se ALL – HALLOWMAS ( do inglês antigo ALHOLOWMESSE –TODOS OS SANTOS. A véspera começou a ser conhecida por ALL- HALLOWS EVE, e com o passar do tempo deu-se a aglutinação e chegou-se ao HALLOWEEN de hoje.
E assim, o Festival pagão dos Celtas da Irlanda foi transportado para os Estados Unidos pelos emigrantes Irlandeses do séc.XIX, e tornou-se a festa mais popular dos americanos, a seguir ao Natal.

As cores do Halloween são o Preto ( da morte, da noite, das bruxas, dos gatos pretos, dos morcegos e dos vampiros ), e o Laranja ( do fogo, do Outono, das folhas caídas, da abóbora e de Jack da Lanterna ) e estes os seus símbolos.

Jack-O'Lantern é o símbolo mais famoso do Halloween e a sua história remonta também a muitos séculos atrás e aos Irlandeses.
Baseia-se numa lenda Irlandesa àcerca de um homem com a alcunha de “ Stingy Jack” ( Jack o Avarento )que reza assim:
Era uma vez um velho agricultor, ganancioso, jogador, bêbado e avarento.
Um dia convidou o Diabo para tomar umas bebidas com ele, mas não as queria pagar.
Pediu então ao Diabo que se transformasse numa moeda, e assim ele podia pagar tudo com essa moeda.
Acontece que depois não quis devolver a moeda, e para isso pô-la num bolso onde tinha uma cruz em prata, o que impedia o Diabo de voltar a assumir a sua forma.
Passado muito tempo, libertou – o com a condição de só lhe aparecer de novo daí a um ano.
No ano seguinte, enganou de novo o Diabo, subindo a uma árvore onde desenhou uma cruz para o impedir de descer.
Desta vez a condição foi que não lhe apareceria durante 10 anos e que, se morresse entretanto, não reclamaria a sua alma.
Só que, de facto, Jack morreu.
Ao chegar ao Céu, Deus recusou-lhe a entrada e como o Diabo prometera não reclamar a sua alma, ele ficou condenado a vaguear para sempre, como uma alma penada.
Como luz para lhe indicar o caminho só tinha um pedaço de carvão incandescente que colocou dentro de uma abóbora.
Os Irlandeses começaram por lhe chamar “Jack of the Lantern” e com o tempo transformou-se em “Jack o’ Lantern”
Hoje colocam-se as abóboras iluminadas a enfeitar as casas para que a alma de Jack encontre o caminho, e não entre em casa.

TRICK OR TREAT
As crianças, com idades compreendidas entre os 5 e os 13 anos, mascaram-se e vão de porta em porta pedindo Treats. Quando lhes abrem a porta, cantam uma canção típica de Halloween, sempre com o refrão Treat or Trick, o que significa que, ou as pessoas lhes dão guloseimas, ou eles pregam uma partida.
Seguem uma regra: só batem à porta das casa que estão enfeitadas.

BOBBING THE APPLE
É um jogo que consiste em pôr maçãs cobertas de caramelo vermelho a boiar em recipientes cheios de àgua, que têm que se apanhar com a boca, sem a ajuda das mãos.



As casas começam a ser decoradas mais ou menos com um mês de antecedência e chega a haver concursos para decidir qual a mais gira do bairro.
Agora imaginem: eu achava que pôr 8 séries de lâmpadas na árvore de Natal me dava imenso trabalho. Quando percebi que tinha que iluminar uma vivenda inteira ia morrendo!
Para isso, como não tinha nada de decorações fui comprar.
Indicaram-me a loja e certifiquei-me que tinha a lista das coisas necessárias na carteira.
Chego lá e deparo-me com uma loja do tamanho do nosso maior Continente, só com decorações de HAllOWEEN. Não sabia se chorava se ria. Os meus filhos saltavam à minha volta e iam pondo coisas para dentro do carrinho, que era maior que os dos nossos supermercados.
Garanto que eles não tinham culpa: até a mim me apetecia comprar tudo. Até brincos em forma de abóboras pequeninas havia. Parecia que estávamos num mundo encantado.
Mas o pior estava para vir: a secção de TREATS. Aí foi a loucura absoluta. É que nada se vende que não seja em sacos, no mínimo de 1kg. Um kg de tudo, das mais variadas formas, cores, sabores, desde chocolates a jellies, passando por marshmallows, rebuçados, tudo o que a vossa imaginação possa pensar, lá há. Mas claro que 1 kg não chega, porque as crianças que batem à porta são muitas, portanto chegámos a casa parecia que vínhamos da Casa dos Doces das histórias de crianças.
Fora a imensidade de luzes, os lençóis que se põem por cima dos candeeiros de jardim que ficam imediatamente transformados em fantasmas, dezenas de abóboras de todos os tamanhos ( o trabalho que dá escavá-las e fazer os olhos, o nariz e a boca...), homenzinhos de palha vestidos a rigor como camponeses, os sempre em pé insufláveis que ficam a guardar a porta, enfim, um mundo de imaginação e sonho.
Por um mês tornamo-nos todos crianças, ansiando pela noite de Halloween.
Normalmente faz-se um jantar em que se convida a família e amigos mais chegados, todos mascarados e de caras pintadas. O jantar tem muita coisa feita à base de abóbora...e depois é só esperar pelas crianças que nos batem à porta.
Se não vos consegui transmitir o ambiente peço desculpa, mas de facto, há coisas que só vistas.

29 October 2007

PAULA REGO, THANKS, BUT NO THANKS!





Esta semana vão aparecer aqui uns escritos politicamente incorrectos, mas como isso está mesmo abaixo do meu nome no Blog, estou de consciência tranquila.
Para início de conversa, para mim os mitos são discutíveis.
Que é isso de um Mito? Afinal, quem os constrói são os homens, e logo aí há que desconfiar.
O homem não é confiável.
A humanidade não é confiável.
Portanto eu discuto mitos, e de alguns, não gosto mesmo nada.
Mas tenho algum cuidado ao fazê-lo. Pergunto-me sempre, se todo o Mundo acha que certa pessoa é tão boa que se tornou um mito, porquê que eu não gosto dela? Então leio e estudo tudo sobre ela, e só depois de bem documentada me permito emitir a opinião que já tinha na cabeça, e sobretudo no coração.
Foi o que fiz com Paula Rego.
Não vou aqui fazer a biografia da pintora, embora conheça a sua história desde criança.
Tenho para mim que os pintores são contadores de histórias, e que as histórias que contam nem sempre são bonitas. Como as nossas.
Mas há maneiras bonitas de contar histórias, e venha quem vier explicar-me as suas técnicas de colagem dos anos 50 e 60, o que querem dizer os quadros de animais que pintou nos anos 80, ou mesmo justificar que isso foi uma forma de fugir ao cheiro das tintas de que não gosta.
Isso eu já sei tudo.
Faço aqui um pequeno parêntesis: Uma vez numa exposição de pintura, ouvi uma senhora dizer para o senhor que a acompanhava: Nah, daqui não serve nenhum. Não dá com a decoração lá de casa.
Fiquei estarrecida. Como? Os quadros compram-se para dar com a mobília? Talvez então ir ao Continente, digo eu.
Para mim um quadro tem que ser lindo. Tem que falar comigo. Tenho que ver nele uma história sem que me expliquem o que o pintor quis dizer. Tem que me apetecer ficar horas a olhar para ele.
Eu sei que o conceito de beleza é uma coisa um pouco variável, muda com as épocas, com as modas, com os nossos olhos, mas provocar-nos repulsa?
E é isso que me provocam os quadros de Paula Rego. Pior, é o que me provocam as suas explicações.
Na dúvida, ou melhor, para não ficar com dúvida nenhuma, há semanas estive em Madrid e fui ver a exposição dela no Museu Reina Sofia.
Quando saí, tive que respirar o ar frio da rua para me sentir mais limpa.
Ora atentem nalgumas das suas afirmações:
Acerca dos bichos:
Um sardão, ao sol, à hora do almoço. Depois aparecia outro sardão. Eram enormes. Depois desapareceram e vieram duas cobras pôr-se ao sol. Devem ter comido os sardões, com certeza...Estávamos a almoçar no terraço e a ver as cobras...
Ah, a maior parte dos bichos que pinto são pessoas conhecidas. É mais fácil pintar bichos. Joaninhas não pinto, porque não tem nada. É uma bolinha com bolinhas em cima.
Caracol? Não. Isso faz-me imenso nojo.
Porco, porco é que gosto. Tivemos um porco. Lembro-me de ver a matança do porco. Levou imenso tempo a morrer, aos gritos. Uma coisa medonha.
Acerca do pelicano:
O pelicano é um símbolo do cristianismo, e o bico é muito importante porque ele fura e rompe. Quando rasga perde-se a virgindade. Mais do que isso. É uma espécie de morta viva. A pessoa não morre, mas anda completamente furada. Tem a ver com a penetração.
Sobre o facto de em Inglaterra onde vive, não venderem galinhas ou coelhos com cabeça:O espanto das amigas da minha filha quando vieram à quinta e viram as galinhas a correr e depois veio a Luzia buscar uma galinha e cortou-lhe o pescoço...Foi uma revelação. Nunca pensaram que aquilo que vinha congelado do supermercado andava.
Não comento nada disto. Cada um que tire as suas conclusões.
Há um quadro dela, muito famoso, em que se vê uma menina a engraxar uma bota de um polícia. Data de 1987.
Eis a sua explicação para o mesmo:O braço todo enfiado dentro da bota é outra penetração. Ela está a fazer isso por causa do pai. É uma vítima.
Há um outro, com um ganso que está entre as pernas de uma menina.A filha do polícia é o ganso.
Definitivamente ela pode ser genial, mas eu não gosto.
É sabido que foi buscar à infância inspiração para os seus quadros. É-me lícito perguntar que infância foi essa.
Mas tenha sido o que tiver sido, a forma como ela a pôs cá para fora em termos de pintura, a mim, afasta-me.
Não gosto.
Causa-me repulsa.
Durante anos, tive em minha casa, 6 quadros dela, da fase dos bichos.
Estavam no salão, na parte da sala de jantar.
Ora ficava de costas para eles, ora os mudava de sítio.
Não porque não dessem com a mobília. Não davam era comigo.
Um dia, numa situação especialmente dolorosa para mim, saíram com muitas outras coisas.
Quando vi a parede vazia, dei um enorme suspiro de alívio.

Halloween nos States

A 31 conto tudo.
A origem do nome, como se vive, o que se come, o que se veste, tudo, tudo, tudo.......Boo...Boo...Boo...


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27 October 2007

CERTAS SURPRESAS FAZEM-ME FLUTUAR


Flutuo
Consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balanço é o que a maré me dá
E eu não contesto
O meu destino está fora de mim
Eu aceito
Sou eu despida de medos e culpas
Confesso

Hoje eu vou fingir
Que não vou voltar
Despeço-me do que mais quero
Só para não te ouvir dizer
Que as coisas vão mudar
Amanhã

Flutuo
Consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balanço é o que a maré me dá
E eu não contesto
Amanhã pensar nisso sempre me dá mais jeito
Fazer de mim Pretérito Mais Que Perfeito.

Hoje eu vou fingir
Que não vou voltar
Despeço-me do que mais quero
Só para não te ouvir dizer
Que as coisas vão mudar
Amanhã
Amanhã

Hoje eu vou fugir
Para não me dar a vontade de ser tua
Só para não me ouvir dizer
Que as coisas vão mudar
Amanhã
Amanhã
Amanhã

26 October 2007

SEM MÁSCARA, UM GRITO DE SOCORRO


Este Post vai ser uma perfeita anarquia.
Não vou nem relê-lo.
Vai sem máscara.
Sempre tive um imenso pudor em falar da minha vida no seu lado mais íntimo.
Só meia dúzia de pessoas sabem, exactamente como sou, como sinto, pelo que estou passando, aquilo que estou sofrendo.
Quando comecei este Blog, tive a ilusão que nele poderia pôr os meus mais íntimos pensamentos, dado que ninguém me conhecia.
Mas, com o passar do tempo, há ligações que se vão estabelecendo, empatias que se vão descobrindo, e aí, sempre volta na minha cabeça aquela frase repetida vezes sem conta pela minha avó inglesa que dizia "uma senhora não mostra as suas emoções em público". Então, vem-me sempre à cabeça uma terrível recordação de infância: A minha outra avó tinha uma quinta em Óbidos, e grande parte da minha infância foi passada na praia do Baleal, que não tinha nada a ver com o Baleal de hoje. Era uma aldeia de pescadores, onde as crianças como eu se misturavam com as crianças pobres que ali viviam. Não iam só passar férias.
Uma noite, fomos acordados pelos gritos desumanos de uma mulher, dita do povo, cujo filho se tinha afogado no mar, e que gritava com voz aguda aquele grito que bem conhecemos:" Ai o meu rico filho". E enrodilhava-se na areia, com um bicho.
Não dormi durante noites a fio, e ainda hoje, esse grito ecoa na minha cabeça.
Anos passados, muitos, o melhor amigo do meu filho mais velho, morreu num terrível acidente, quando o avião em que seguia se despenhou em Tires.
Teve honras de abertura em todos os telejornais, e a imagem que me ficou foi os ténis que tinha calçados, jogados um para cada lado, no meio dos destroços.
O funeral foi das coisas mais terrivelmente emotivas a que alguma vez assisti.
A mãe, dopada pela imensidade da perda, e espartilhada pela educação recebida, deixava rolarem-lhe pela cara lágrimas lentas e silenciosas. E nem, quando o corpo desceu à cova se descontrolou, e gritou: Ai meu rico filho.
Sofria ela menos que a outra? Não. Não acredito.
Ambas eram mães. Ambas eram mulheres.
Mas uma era genuína.
A outra estava condicionada desde a infância, a não mostrar as suas emoções em público.
E a mais espantosa manifestação disso a que assisti, foi no funeral do Prof. Sousa Franco, meu professor, quando a mulher, sem uma lágrima, na missa de corpo presente, fez o elogio do marido.
Todos nós, de alguma forma somos o resultado da educação que tivemos, da influência das ideias políticas dos nossos pais, das muitas viagens que fizemos ou do facto de nunca termos saído da santa terrinha.
Pomos então uma máscara, para que os outros possam ver em nós aquilo que querem ver.
Mas há dias em que não dá.
Há dias em que chutamos tudo para o alto, e pensamos: que se lixe. Outra coisa que uma senhora não faz:usar termos pouco educados.
E hoje é um deles.
Viver todos os dias cansa, alguém já escreveu.
E eu estou cansada.
Tudo aquilo que tenho escrito no meu Blog sou eu. Não há mentiras.
Mas há o reverso da medalha.

Há o dia, em que tudo o que está arrumadinho na minha cabeça, em gavetas meticulosamente fechadas, sai cá para fora, também eles, os conteúdos das gavetas, cansados de estarem fechados.
Hoje é o dia.
Estou cansada de viver.
De lutar.
De ser magoada.
De ser uma sombra que não se projecta na vida das pessoas que mais amo.
De ser incómoda.
As pessoas,têm os seus próprios problemas, e pagam para não levar com os dos outros.
Como escreveu Mário Quintana, que citei no Post anterior "Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?" ou, mais grave "O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso." Já escrevi, já falei, já chorei e gritei, e ninguém me ouviu.
E hoje, absolutamente sózinha, percebi que é isso mesmo: Estou completamente sózinha à deriva num mar tempestuoso de vagas enormes, num pequeno barco a remos.
Não tenho vida, futuro ou esperança.
Os meus gritos de alerta ninguém ouviu, e os meus pedidos de socorro, ninguém percebeu.
E agora, hoje e aqui, capitulei.
Louca? Serei
Mas como disse o grande poeta:“ Em todos os manicómios há doidos, malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho certeza nenhuma, sou certo, ou menos certo?”*.

25 October 2007

No Centenário de Mário Quintana

Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há ! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai ! Estou com 78 anos, mas sem idade.
Idades só há duas : ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade.
Nasci do rigor do inverno, temperatura : 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton ! Excusez du peu..
Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura.


Tenho uma profunda admiração pela obra de Mário Quintana.Depois de vos deixar, no começo, um excerto da sua Autobiografia, onde se pode ter uma pequena idéia da ironia, sarcasmo e ao mesmo tempo a profundidade dos seus pensamentos, que por vezes, me fazem lembrar Agostinho da Silva, aqui ficam algumas das citações de que mais gosto, escolhidas das centenas que existem num livro que é isso mesmo: um livro de Citações de Mário Quintana.

Enjoy!!!

"Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?"
"Amar é mudar a alma de casa."
"Com seus OO de espanto, seus RR guturais, seu hirto H, HORROR é uma palavras de cabelos em pé, assustada da própria significação."
"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso."
" Quem não compreende um olhar, tão pouco compreenderá uma boa explicação".
" Não importa saber se a gente acredita em Deus; importa saber se Deus acredita na gente".
Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem."
"Não te irrites, por mais que te fizerem... Estuda, a frio, o coração alheio. Farás, assim, do mal que eles te querem, Teu mais amável e sutil recreio..."
"Quando a gente vê dois bêbados, pode apostar: um bebeu porque tem mulher, o outro porque não tem."
"Se eu fosse acreditar mesmo em tudo o que penso, ficaria louco."
"Esta vida é uma estranha hospedaria,
de onde se parte quase sempre às tontas,
pois nunca as nossas malas estão prontas,
e a nossa conta nunca está em dia."

24 October 2007

LEMBRAM-SE?




Há certas frases que me encanitam, os adoráveis canitos que me perdoem.
Uma delas é " No meu tempo"...
Até parece que no século passado já cá andavamos,o que não deixa de ser verdade...hihihi
O facto é que há dias o Luis fez um post sobre os livros da infância e adolescência dele. E desafiava-nos a enumerar os nossos.
Desde esse dia tenho andado a pensar em coisas "do meu tempo", como brinquedos, brincadeiras,livros também, música portuguesa que os miúdos cantavam, roupas e séries de televisão.
E pus-me a recordar:
Nos livros claro que Os Cinco, Os Sete, Uma Aventura, Astérix, Tintin, a Mafalda que eu chamava de Mafaldinha e claro o Princípezinho. Mas esse é de todas as idades. Ele e os olhos do coração
Na televisão via-se A Abelha Maia, a Heidi, O sítio do Pica pau Amarelo, o Dartacão, o Topo Gigio, o Vitinho que mandava os meninos para a cama, o Willy Fog, e claro, os Marretas, também para todos.
Brincavamos às escondidas, à apanhada, ao toque e foge, à macaca, andavamos de bicla e os putos jogavam à carica, ao berlinde, ao monopólio e ao pião.
Nessa altura apareceram os Kispos e a partir daí qualquer anorak é um Kispo, o que também me encanita, as saias de pregas e as calças de bombazina com joelheiras, e as meias pelo joelho.
Eu vi um sapo, Bem Bom, Sobe, Sobe Balão Sobe todos sabíamos de cor.
Como brinquedos havia os Legos com a sua Superfície Lunar, a Aldeia dos Strumpfes ( eu, os meus amigos e penso que muitos outros, inventamos uma linguagem em que todos falavamos a estrumfar), o Playmobil, o hula-hoop em que as meninas brilhavam, os calquitos com que eu me deliciava e aquilo que mais perto se aproximava dos computadores/playstation de hoje: o célebre ZX Spectrum 48k.
Belos tempos aqueles, lembram-se?

PS:Nos Estados Unidos, nos Estados de Rhode Island, Nova Iorque e Vermont, o ano passado, foi aprovada uma lei que proíbe as crianças do sexo oposto de terem brincadeiras em que tenham que se tocar ( por causa do assédio sexual!!!).
Pergunto eu que sou muito perguntadeira: Como é que eles brincam à apanhada ou ao toca e foge?

22 October 2007

TUDO ISTO SOU EU


TIRA A TEIMA

Se um dia me aproximar de ti
Não penses que é só um flirt
Não julgues que é um filme
Que já viste em qualquer parte
Pensa bem antes de agires
Evita ser imprudente
Faz a carta do meu signo
E vê à lupa o ascendente
Tem cuidado e tira a teima
Vê aquilo que sou

Tem cuidado e tira a teima
Que sou tu não sonhas ao que venho
Não sabes do que sou capaz
Eu dou tudo quanto tenho
Não funciono a meio gás
Vem sentar-te à minha frente
E diz-me o que vês em mim
Não respondas já a quente
Pondera antes de dizer sim

Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou fere, rasga e queima
Tem cuidado e tira a teima
Porque aquilo que sou fere, rasga e queima
Diz-me se vês o granito
Onde a cidade, os grandes temas
Diz-me se vês o amor infinito
Ou somente um par de algemas

CHUVA

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história
da história da gente
e outras de quem nem o nome
lembramos ouvir

São emoções que dão vida
à saudade que trago
Aquelas que tive contigo
e acabei por perder

Há dias que marcam a alma
e a vida da gente
e aquele em que tu me deixaste
não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto
Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Fácil de Entender

Talvez por não saber falar de cor, Imaginei
Talvez por saber o que não será melhor, Aproximei
Meu corpo é o teu corpo o desejo entregue a nós
Sei lá eu o que queres dizer

Obrigado por saberes cuidar de mim,
Tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou,
e se ao menos tudo fosse igual a ti

ADEUS TRISTEZA

Na minha vida tive palmas e fracassos
Fui amargura feita notas e compassos
Aconteceu-me estar no palco atrás do pano
Tive a promessa de um contrato por um ano
A entrevista que era boa
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Na minha vida tive beijos e empurrões
Esqueci a fome num banquete de ilusões
Não entendi a maior parte dos amores
Só percebi que alguns deixaram muitas dores
Fiz as cantigas que afinal ninguém ouviu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Adeus tristeza, até depois
Chamo-te triste por sentir que entre os dois
Não há mais nada pra fazer ou conversar
Chegou a hora de acabar

Na minha vida fiz viagens de ida e volta
Cantei de tudo por ser um cantor à solta
Devagarinho num couplé pra começar
Com muita força no refrão que é popular
Mas outra vez a triste sorte não sorriu
E o meu futuro foi aquilo que se viu

Na minha vida fui sempre um outro qualquer
Era tão fácil, bastava apenas escolher
Escolher-me a mim, pensei que isso era vaidade
Mas já passou, não sou melhor mas sou verdade
Não ando cá para sofrer mas para viver
E o meu futuro há-de ser o que eu quiser

BEIJO

Não posso deixar que te leve
O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar e vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

GRITO DE ALERTA
Primeiro você me azucrina
Me entorta a cabeça
Me bota na boca
Um gosto amargo de fel...

Depois
Vem chorando desculpas
Assim meio pedindo
Querendo ganhar
Um bocado de mel...

Não vê que então eu me rasgo
Engasgo, engulo
Reflito e estendo a mão
E assim nossa vida
É um rio secando
As pedras cortando
E eu vou perguntando:
Até quando?...

São tantas coisinhas miúdas
Roendo, comendo
Arrasando aos poucos
Com o nosso ideal
São frases perdidas num mundo
De gritos e gestos
Num jogo de culpa
Que faz tanto mal...

Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Prá engolir...

Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta
Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida da gente
Gritando que não...

DEVOLVA-ME

Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor meu bem

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver devolva-me
Deixe-me sozinho
Porque assim eu viverei em paz
Quero que sejas bem feliz
Junto do seu novo rapaz

Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim vai ser melhor meu bem

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver
devolva-me,

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver devolva-me

Devolva-me,
Devolva-me

VAMBORA

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
P'ra mudar a minha vida
Vem vambora
Que o que você demora
É o que o tempo leva

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas

21 October 2007

UMOJA-A ALDEIA DAS MULHERES


Umoja é uma vila situada no Norte do Kenya a 380 kms de Nairobi.
Foi fundada em 1991 e o seu nome significa “ União” em swahili.
Não existiria, e portanto não estaria em mapa nenhum se não existisse uma mulher chamada Rebecca Lolosoli.
Rebecca, uma indígena Samburu, hoje é conhecida como uma activista que defende os Direitos das Mulheres, já discursou nas Nações Unidas e sabe quem é Oprah.
Mas, melhor que isso, o Mundo sabe que ela existe.
Tudo começou há dez anos, e nada fazia prever que chegasse onde chegou.
Rebecca Samaria Lolosoli é uma mulher de idade indefinida que fundou a aldeia de Umoja, dando abrigo a outras mulheres que, como ela, foram ou são vítimas de violação ou de abusos sexuais, ou que querem fugir de casamentos forçados ou de uma escravidão diária.
Um dia, na sua aldeia, enfrentou o poder patriarcal e familiar ao decidir que o casamento de um irmão seu com uma rapariga de 13 anos não iria ter lugar. Agarrou na mão da menina, que tremia, e disse-lhe: “És uma criança. Ele é um velho. As mulheres já não têm de aturar este tipo de disparates.”
E ordenou ao irmão que regressasse a casa. Só.
Assim. Enfrentando tudo e todos.
E tudo começou assim!

Umoja é uma aldeia imaginada e construída por um grupo de 15 mulheres lideradas por Rebecca Lolosoli, que travaram uma dura luta com as autoridades britânicas para que se fizesse justiça por terem sido violadas, várias delas repetidamente, por soldados britânicos durante exercícios militares no Quénia, nos anos 80 e 90.
Algumas exibiram como prova os filhos mestiços. A justiça acabou por ser feita e pagas indemnizações.
Ainda assim, os maridos repudiaram-nas por elas constituírem uma mancha na sua honra de homens.
Abandonadas, decidiram fundar um lugar só para mulheres, Umoja, e viver pelos seus meios.
Passados 17 anos, vivem independentes, algumas com filhos nascidos de uniões recentes com os namorados que visitam a aldeia.
Quando as mulheres erigiram a aldeia de Umoja, os homens, que se sentiram abandonados construíram uma outra aldeia do outro lado da estrada, de forma a melhor poderem controlar as vidas e os actos das suas mulheres, noivas ou familiares que decidiram viver na comunidade feminina.
Como na cultura samburu não existe o divórcio, muitos dos homens irrompiam pela aldeia exigindo o regresso a casa das esposas.
Mas já tinham perdido qualquer hipótese de se imporem ao grupo das destemidas mulheres. Quando se tornavamm violentos face à resistência delas, as mulheres recorriam às autoridades locais.
A independência em Umoja faz com que sejam as mulheres a eleger os seus parceiros sexuais.
Uma delas afirmou alto e bom som: “Nós não dizemos que não precisamos dos homens. Somos humanas e temos as nossas necessidades. Mas os homens que aqui entram ficam por pouco tempo. São meros namorados.”

Rebecca fundou também o Movimento Umoja Uaso Women’s Group, uma organização que ajuda as mulheres que vivem numa pobreza extrema, sem acesso a qualquer informação sobre a Sida, sobre cuidados de saúde ou educação.
Sob a sua orientação, Umoja ensinou-lhes que existem os Direitos das Mulheres, que não têm que deixar que as mutilem genitalmente e que podem combater a violência doméstica.
Arranjou forma de se tornarem auto-suficientes quer economicamente, quer tendo acesso à Educação e a cuidados de Saúde.
O seu Movimento, hoje é membro da Indigenous Information Network in Kenya.
Ao contrário do que acontece na restante África, as mulheres circulam livremente em Umoja, sem receio de poderem ser assaltadas sexualmente. Segundo o relatório de uma ONG ao serviço da Organização das Nações Unidas, as distâncias extremas que as mulheres africanas são forçadas a percorrer para se abastecerem de alimentos, de água, ou de lenha para elas e para os filhos, propiciam as violações sexuais.
Alerta esse documento: “As mulheres têm de caminhar longas distâncias, por vezes no interior das florestas, apenas para encontrar água. Durante a caminhada elas são, muitas vezes, vítimas de violação.”
Até nisto, Umoja é um reduto de liberdade.
Rebeca Lolosoli e as suas companheiras de luta e de vida em comum têm motivos para se sentirem felizes. O que elas conseguiram é um pequeno paraíso comparado com a dramática realidade das demais mulheres africanas. Em Março deste ano, Alpha Oumar Konaré, presidente da Comissão da União Africana (UA), denunciou que a violência contra mulheres e raparigas em África atingiu níveis sem precedentes, e isto inclui a violação sexual de mulheres de todas as idades e de bebés menores de um ano. O exemplo de Umoja é difícil de repetir num continente onde se intensifica a feminização da pobreza e se dissemina de forma assustadora o vírus da Sida nas mulheres.
A independência adquirida pelas mulheres de Umoja tornou-as tão respeitadas que mulheres de outros pontos do Quénia têm procurado refúgio na aldeia, e a sua matriarca, Rebecca Lolosoli, participou numa importante conferência internacional sobre género e igualdade de oportunidades entre os sexos, realizada em Nova Iorque.
Lolosoli tem razão quando afirma: “Nós, as mulheres, estamos sempre debaixo dos homens. Tratam-nos como se não existíssemos. Só servimos para lhes dar filhos. É como se fôssemos propriedade deles, e, ainda por cima, somos maltratadas.”
Só que em Umoja isso já faz parte do passado e Rebecca Lolosoli garante que assim se irá manter.
Cerca de meia centena de mulheres vivem hoje em Umoja e passaram a subsistir de artesanato e de elaborados colares de contas que fabricam e vendem a mulheres samburu e a turistas que viajam para a Reserva Nacional de Samburu.
Estão ligadas ao mundo exterior pelas novas tecnologias, e até têm celulares.
Desde que passaram a viver pelos seus próprios meios, as mulheres de Umoja têm ganho proventos suficientes para subsistirem com os filhos e com os escassos homens que optaram pela “submissão” às leis da comunidade. Com as mulheres no comando, as crianças passaram a frequentar a escola da aldeia em vez de tomarem conta do gado, como ordenariam os homens se vivessem num outro lugar.
Rebecca Lolosoli disse ao The New York Times: “Temos visto tantas mudanças positivas nestas mulheres. Estão mais saudáveis e felizes. Vestem-se melhor. Dantes costumavam pedir alimentos. Agora, são elas que dão comida a outros.”
Sebastian Lesinik, o chefe da aldeia dos homens, quando Rebecca fundou a aldeia, afirmou: “ O homem é a cabeça e a mulher o pescoço. Ora, a cabeça não pode receber ordens do pescoço.”
Rebecca chegou a ver a sua vida ameaçada, mas hoje, ele próprio reconhece que ela ganhou. “ Se calhar temos algo a aprender com o pescoço. Nem que seja um bocadinho “. Tudo está a mudar, sobretudo por causa de mulheres como Rebecca, que são verdadeiras “ Troublemakers”.
Depois de ler tudo isto, e de ter tomado conhecimento desta realidade, e sabendo o que se passa no nosso País, onde mulheres ainda se referem ao acto de ter relações com os maridos, como” Ele serviu-se de mim” e que não têm a menor ideia por onde nascem as crianças, pensando que a urina sai pelo mesmo sítio, onde as crianças são espancadas, por vezes até morte, só posso sentir um enorme sentimento de vergonha.
Afinal nós temos todos os meios à nossa disposição.
E não fazemos absolutamente nada.
É um facto que deveria ser o governo a fazê-lo, mas se não faz, todos nós nos deveríamos tornar Troublemakers.

Rebecca Lolosoli tem um site onde pede apoio e ajuda financeira ao seu louvável projecto em www.jambosafaris.com/umojacharity.htm.
Tem uma loja on-line de venda de artefactos destas mulheres, cujos proventos revertem a favor da causa, que pode ser consultada em www.samburucouncil.co.uk.
Os contactos com Lolosoli podem ser feitos através do e-mail paranlolo@africaonline.co.ke.



Este Post foi redigido com informação recolhida em:Edições on-line de The Washington Post, The New York Times, BBC News, Organização das Nações Unidas, União Africana e site de Leigh Day & Co.

19 October 2007

BEIJE MUITO, ABRACE MUITO, AME MUITO, RIA E VIVA...


18 October 2007

UM POEMA DE CHAPLIN


Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e
esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei
com pessoas quando nunca
pensei me decepcionar,
mas também decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
"quebrei a cara" muitas vezes!
Já chorei ouvindo música
e vendo fotos,
já liguei só pra escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer
de tanta saudade,
já tive medo
de perder alguém especial!

Mas vivi!

E ainda vivo!

Não passo pela vida...e você
também não deveria passar.


Viva!!!

17 October 2007

SUNNY VILLAGE


A China com as suas tradições milenares, com o tipo de alimentação, as medicinas alternativas é uma coisa maravilhosa, que me atrai e me encanta.
Mas o reverso da medalha é medonho, assustador, revoltante e desumano.
Os Maos, a sua perversa mulher, Tiannamen, os “ fatos de marujo”, as famílias que matam os bebés do sexo feminino, as permanentes violações dos Direitos Humanos, a pena de morte, tudo isto e aquilo que não sabemos, é um horror que pode não se passar debaixo dos nossos olhos, mas que se passa no nosso Mundo.
Fernando Pessoa escreveu que “aquilo que não se passa na nossa rua não nos interessa“.
Mas devia!
Todos os anos são executados na China cerca de 7500 criminosos.
Não vou aqui e agora, discorrer sobre a bondade da pena de morte.
O que me interessa, e felizmente interessou a mais alguém é o que sucede aos seus filhos.
Na China, pelo menos um milhão de crianças vivem abandonadas, desprezadas e ignoradas, tornando-se verdadeiros párias, porque são filhos de pais que perderam a vida depois de passarem pelo corredor da morte.
Mas porque hão-de os filhos pagar pelos erros dos pais, alguém se interrogou e se incomodou com isso.
No tempo dos Imperadores, os filhos dos criminosos eram mortos com eles. Assim, cortava-se o mal pela raiz!
No tempo de Mao eram presos, porque segundo as suas próprias palavras “ O filho de um herói, é um herói. O filho de um canalha, é um canalha!. Ou, como diz um ditado chinês: uma gata nunca terá cachorros!Pois bem, há uma mãe solteira, uma mulher admirável e digna de todo o nosso respeito e ajuda, que resolveu mudar isto.
Decidiu em Dezembro de 2002, criar um orfanato a que chamou Beijing Sunny Village. Sem qualquer ajuda governamental, depende exclusivamente de donativos.
Em Abril de 2002 alugou 17 hectares de uma quinta onde foram plantados amendoins, milho, soja e outros vegetais e leguminosas.
Ela quer que os donativos sejam empregues na educação das crianças. As mais velhas, nas férias ajudam no campo.
Em noites escolhidas, chamadas “ de gala” as crianças actuam, com peças de teatro ou outros espectáculos criados por elas.
- Tudo o que quero é que se sintam amadas, e que aprendam a distinguir o bem do mal, diz ela com extrema simplicidade.
Em 5 anos conseguiu construir 10 edifícios pintados de cores vivas onde vivem 131 crianças, divididas em grupos de 12.
Cada grupo tem uma mãe que olha por elas, uma cama, um armário, 3 refeições por dia, 2,5dl de leite, comem fruta 2 vezes por semana e carne 2 vezes por mês, aulas na escola, orientação, valores e sobretudo Amor.
As crianças levantam-se todos os dias às 05.30 da manhã e depois de arrumar as suas camas, tomam o pequeno almoço e vão para a escola. Vão para a cama às 09.30.
A Aldeia do Sol tem a sua própria livraria, uma sala de computadores e um ginásio.
Os dormitórios chamam-se Love Cabins.
Guardei para o fim o nome desta mulher, a quem as crianças chamam Nai Nai ou Po Po, para que todos guardemos bem o seu nome, por muito difícil que pareça: Zhang Shuqin.
Quando penso que sou boazinha e depois descubro estas histórias, sinto-me um pigmeu.
Se todos nós contribuirmos com 5 ou 10 Euros por mês para esta Mãe Coragem,não ficaremos mais pobres, e para estas crianças, decerto fará toda a diferença.
Para quem quiser, aqui ficam os contactos:
Beijing Sun Village Children’s
Education Consultancy
Account number: 80 711 504 900 809 1001
Swift Code.BKCHCNBJ110
Bank of China, Beijing
Shunyi Sub Branch Mapo
District Office
Morada: nº11 Xiangyang
West Street Mapo District
Shunyi,
Pequim
China
Website:http://www.chinatoday.com.cn
E-mail: chinatoday@chinatoday.com.cn

PARA A ANNA


No 1º Post que fiz neste Blog, escrevi que os Blogs começaram por ser um espécie de diário ainda que aberto ao Mundo.
Por isso, que me desculpem os que entenderem que isto não tem nada a ver com eles.
Mas hoje, apetece-me pôr aqui, que tenho uma Amiga.
Venham mails, venham posters, venham poemas e escritos e mais tudo o que a imaginação das pessoas quiser criar.
Mas nada consegue retratar a realidade do sentimento.
A alegria que se sente por se saber que não estamos sózinhas, que mesmo sendo muito chatas, tendo uma vida muito complicada e que falar connosco não é exactamente uma festa, mesmo assim temos alguém que nos ouve, que se importa, que ajuda, às vezes mesmo só por nos ouvir, é um privilégio que nem todos têm.
Eu tenho. E essa amiga, que está longe, é um fiapo que de alguma forma me tem segurado muitas vezes, quando estou à beira da capitulação.
Ela é doce, alegre, maluca, tiligente, generosa e mtaaaaaaaa gira.
Para ela, um grande, um enorme OBRIGADA, pelos dias de intempérie que ela tem transformado em dias gloriosos.

16 October 2007

UM POST DELICIOSO OU A INSENSIBILADE PERANTE OS DESGOSTOS DAS CRIANÇAS




15 October 2007

DE JOSÉ RÉGIO PARA UM FÔFO, PASSANDO POR MIM


Recomeça ...
Se puderes,
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade
Enquanto não alcances,
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.


Nem da vida, nem do Amor.

14 October 2007

GOZO

Dado que a poesia de Maria Teresa Horta, tem em certos casos, conexão por temas, não me parece que se possa vislumbrar o que nos quer transmitir, senão se lerem, pelos menos alguns de cada tema.
Assim, de GOZO, aqui ficam alguns.

Espero que vos dê muito Gozo.

GOZO I
Linho dos ombros
ao tacto
já tecido

Túnica branda
cingida
sobre as espáduas

Os rins despidos
no fato já subido
as tuas mãos abrindo a madrugada

Linho dos seios
na roca dos sentidos
a seda lenta sedenta na garganta

a lã da boca
cardada no gemido

e nos joelhos
a sede que os abranda

Linho das ancas
bordado
de torpor

a boca espessa
o fuso da garganta




GOZO VI
São de bronze
os palácios do teu sangue

de cristal absorto
ensimesmado

São de esperma
os rubis que tens no corpo
a crescerem-te
no ventre ao acaso

São de vento são - são de vidro
são de vinho
os líquidos silêncios dos teus olhos

as rutilas esmeraldas que
sózinhas
ferem de verde aquilo que tu escolhes

São cintilantes grutas
que germinam
na obscura teia dos teus lábios

o hálito das mãos
a língua - as veias


São de cúpulas crisálidas
são de areia

São de brandas catedrais
que desnorteiam

(São de cúpulas crisálidas são de areia)

na minha vulva
o gosto dos teus espasmos




GOZO IX
Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa...

já breves vêm os dias
dentro de noites
já poucas.

Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?

Oh meu amor...
devagar...
até que eu fique louca!

Depois... não vejas o mar
afogado
em minha boca!

A MORTE É UMA PUTA

A morte é uma puta e tem que ser tratada como uma puta.
Não se lhe pode dar confiança.
António Lobo Antunes

13 October 2007

A CULTURA DO SLOW DOWN




Dada a minha forma Zen de estar na vida, de não comer animaizinhos, de admirar e estudar as milenares medicinas alternativas, de adorar yôga e também, naturalmente de defender valores tão fundamentais na sociedade como a Família, o respeito pelos mais velhos, vencer na vida sem atropelar ninguém, e até não ser o meu Vencer aquele que se entende na actual sociedade de consumo, chamou-me a atenção este artigo que li na Time, mais ainda porque refere um Movimento que já conhecia e cujo site recomendo vivamente:www.slowfood.com)

A CULTURA DO SLOW-DOWN
Há já 18 anos que ingressei na Volvo, empresa sueca bem conhecida.
Trabalhar com eles é uma convivência deveras interessante. Qualquer projecto aqui demora dois anos a concretizar-se, mesmo que a ideia seja brilhante e simples. É uma regra.
Os processos globalizados causam-nos a nós (portugueses, brasileiros, argentinos, colombianos, peruanos, venezuelanos, mexicanos, australianos, asiáticos, etc.) uma ansiedade generalizada na busca de resultados imediatos.
Consequentemente, o nosso sentido de urgência não surte efeito dentro dos prazos lentos dos suecos.
Os suecos debatem, debatem, realizam "n" reuniões, ponderações, etc.
E trabalham com um esquema bem mais “slowdown". O melhor é constatar que, no fim, isto acaba por dar sempre resultados no tempo deles (suecos) já que conjugando a necessidade amadurecida com a tecnologia apropriada, é muito pouco o que se perde aqui na Suécia.

Resumindo:

1. A Suécia é do tamanho do estado de São Paulo (Brasil).

2. A Suécia tem apenas dois milhões de habitantes.

3. A sua maior cidade, Estocolmo, tem apenas 500.000 habitantes (compare-se com Paris, Londres, Berlim, Madrid, mesmo Lisboa…; ou cidades balneares como Mar del Plata, Argentina, onde vivem permanentemente 1 milhão de pessoas, ou ainda a cidade de Rosário, Argentina, com três milhões).

4. Empresas de capital sueco: Volvo, Skandia, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare , etc. Nada mal, Nein? Para se ter uma ideia da sua importância basta mencionar que a Volvo fabrica os motores de propulsão para os foguetes da NASA.

Os suecos podem estar enganados, mas são eles que me pagam o salário. Devo referir que não conheço nenhum outro povo com uma cultura colectiva superior à dos suecos.

Vou contar-vos uma pequena história, para ficarem com uma ideia:
A primeira vez que fui para a Suécia, em 1990, um dos meus colegas suecos apanhava-me no hotel todas as manhãs. Estavamos em Setembro, já com algum frio e neve.
Chegavamos cedo à Volvo e ele estacionava o carro longe da porta de entrada (são 2000 empregados que vão de carro para a empresa). No primeiro dia não fiz qualquer comentário, nem tão-pouco no segundo ou no terceiro. Num dos dias seguintes, já com um pouco mais de confiança, uma manhã perguntei-lhe:
- Vocês têm aqui lugar fixo para estacionar? Chegamos sempre cedo e com o parque quase vazio estacionas o carro mesmo no seu extremo…
E ele respondeu-me com simplicidade:
- É que como chegamos cedo temos tempo para andar, e quem chega mais tarde, já vai entrar atrasado, portanto é melhor para ele encontrar um lugar mais perto da porta. Não te parece?
Imaginem a minha cara!
Esta atitude foi a bastante para que eu revisse todos os meus conceitos anteriores.

Foi por ter lido este artigo que me lembrei do Movimento de que falei no início:
Actualmente, há um grande movimento na Europa chamado "Slow Food". A “Slow Food International Association”, cujo símbolo é um caracol, tem a sua sede em Itália.
O que o movimento Slow Food preconiza é que se deve comer e beber com calma, dar tempo para saborear os alimentos, desfrutar da sua preparação, em família, com amigos, sem pressa e com qualidade.
A ideia é contraposição ao espírito do Fast Food e o que ele representa como estilo de vida.
Verdadeiramente surpreendente, é que este movimento de Slow Food está a servir de base para um movimento mais amplo chamado “Slow Europe” como salientou a revista Business Week numa das suas últimas edições europeias.
Na base de tudo isto está o questionamento da "pressa" e da "loucura" geradas pela globalização, pelo desejo de "ter em quantidade" (nível de vida) em contraponto ao "ter em qualidade", “Qualidade de vida" ou “Qualidade do ser".
Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, ainda que trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que os seus colegas americanos e ingleses. E os alemães, que em muitas empresas já implantaram a semana de 28,8 horas de trabalho, viram a sua produtividade aumentar uns apreciáveis 20%.
A denominada "slow attitude" está a chamar a atenção dos próprios americanos, escravos do "fast" (rápido) e do "do it now!" (faça já!).
Portanto, esta "atitude sem pressa" não significa fazer menos nem ter menor produtividade.
Significa sim, trabalhar e fazer as coisas com "mais qualidade" e "mais produtividade", com maior perfeição, com atenção aos detalhes e com menos stress.
Significa retomar os valores da família, dos amigos, do tempo livre, do prazer dum belo ócio e da vida em pequenas comunidades.
Do "aqui" presente e concreto, em contraposição ao "mundial" indefinido e anónimo.
Significa retomar os valores essenciais do ser humano, dos pequenos prazeres do quotidiano, da simplicidade de viver e conviver, e até da religião e da fé.
SIGNIFICA UM AMBIENTE DE TRABALHO MENOS COERCIVO, MAIS ALEGRE, MAIS LEVE, E PORTANTO MAIS PRODUTIVO, ONDE OS SERES HUMANOS REALIZAM, COM PRAZER, O QUE MELHOR SABEM FAZER

Acho importante e saudável reflectir sobre tudo isto. Será que os antigos provérbios: “Devagar se vai ao longe" e “A pressa é inimiga da perfeição” merecem novamente a nossa atenção nestes tempos de loucura desenfreada?
Não seria útil e desejável que as empresas da nossa comunidade, cidade, Estado ou país, começassem já a pensar em desenvolver programas sérios de “qualidade sem pressa" até para aumentarem a produtividade e a qualidade dos produtos e serviços sem necessariamente se perder “qualidade do ser"?

No filme "Perfume de Mulher" há uma cena inesquecível na qual o cego (interpretado por Al Pacino) convida uma jovem para dançar e ela responde: "Não posso, o meu noivo deve estar a chegar". Ao que o cego responde: “Num momento, vive-se uma vida", e leva-a a dançar um tango. É o melhor momento do filme, esta cena que dura apenas dois ou três minutos.Muitos vivem a correr atrás do tempo, mas só o alcançam quando morrem, quer seja de enfarte ou num acidente na auto-estrada por correrem para chegar a tempo.
Ou outros que, tão ansiosos para viverem o futuro, esquecem-se de viver o presente, que é o único tempo que realmente existe.O tempo é o mesmo para todos, ninguém tem nem mais nem menos de 24 horas por dia.
A diferença está no que cada um faz do seu tempo.
Temos de saber aproveitar cada momento, porque, como disse John Lennon, “A vida é aquilo que acontece enquanto planeamos o futuro

Parabéns e bjinhos se leu este Post até ao fim.
Decerto haverá muitos que leram só metade para "não perder tempo" tão valioso neste mundo globalizado.

Para o Luís

A propósito de livros que marcaram a nossa infância e adolescência mencionou-se José Régio e o seu Cântico Negro. Nunca o ouvi tão bem dito como por Maria Bethânia.
Aqui fica para o Luís e para todos os que gostem.
Enjoy.

12 October 2007

AVÓZINHA LESSING GANHA NOBEL DA LITERATURA



Doris Lessing nasceu na Pérsia a 22 de Outubro de 1919.
Não é uma maravilha nascer-se na Pérsia? Só o nome me faz sonhar. Príncipes, princesas, mil e uma noites...
Mas a vida dela não começou como a de uma princesa. Os pais ambos ingleses não lhe deram uma infância fácil. O pai mutilado da 1ª Grande Guerra era uma pessoa fraca, empregado no Banco Imperial da Pérsia. ( Ai, lá está a minha imaginação a voar...). A mãe enfermeira.
Em 1925, atraídos pelo sonho de uma vida melhor, partiram para Rodésia, então colónia inglesa e hoje Zimbawe.
A mãe tentou dar-lhe a rígida educação inglesa da época Eduardiana, e o pai, que nunca se adaptou, não conseguiu fazer florescer os acres de terra que lhes foram distribuídos.
Doris descreve a sua infância como uma desproporcionada mistura de prazer e muita dor.
Muita pequena foi internada num colégio de freiras que a aterrorizavam com histórias sobre o Céu e o Inferno.
O seu único refúgio era a relação que tinha com o irmão mais novo, Harry.
Com 13 anos fugiu do liceu em Salisbúria, e com isso deu por terminada a educação que a mãe tinha sonhado para ela.
Tornou-se uma autodidacta e mais tarde uma grande escritora. Segundo as suas próprias palavras “uma infância infeliz produz grandes escritores”.
Lia livros que chegavam de Inglaterra, e com tão pouca idade os seus preferidos eram
Dickens, Scott, Stevenson, Kipling. Mais tarde descobriu D.H. Lawrence, Stendhal, Tolstoy, Dostoevsky.
Desafiou os cânones da época, em que o destino para as mulheres era casarem e ter filhos, e encontrou a liberdade que tanto procurava na escrita.
Começou a vender histórias para revistas na África do Sul.
In 1937 mudou-se para Salisburia, onde trabalhou como telefonista durante um ano. Com 19 anos casou com Frank Wisdom, e teve 2 filhos. Poucos anos depois, sentindo-se presa, abandonou a família.
Em 1937, a viver em Salisburia, conheceu Gottfried Lessing e casou com ele, tendo mais tarde um filho.
Nos anos do post guerra, Lessing ficou extremamente desiludia com o Movimento Comunista e abandonou-o em 1954.
Em 1949 tinha partido para Londres, e nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance “ The Grass in Singing”, começando uma carreira brilhante como escritora, tendo-lhe sido concedidos os maiores prémios internacionais que agora culminam com o Nobel da Literatura, para o qual, aliás, já tinha sido nomeada em 1996.

Quase toda a sua obra é autobiográfica. Escreveu sobre o choque de culturas e as injustiças raciais.
Os seus contos e novelas publicados nos finais dos anos 50 e princípios dos anos 60, denunciavam as expropriações feitas aos negros pelos colonialistas brancos e afirmava que a cultura branca na Africa do Sul não tinha qualquer eco em África.
Em consequência da sua postura, foi considerada persona non grata e proibida de entrar na Rodésia e na Africa do Sul.
Em 1999 foi-lhe concedido pela Rainha Isabel II o título de DAME do Império Britânico, que recusou, por” considerar não haver Império Britânico”, e achar que aceitá-lo pensando assim seria “ uma pantomina”. Aceitou o de Companion of Honour, porque isso não obrigava a que a tratassem por Dame.
De uma enorme beleza quando nova, muito parecida com Ingrid Bergman, é hoje uma deliciosa velhinha que vive rodeada de gatos, que alías são protagonistas de vários livros seus.
Foi absolutamente comovente, vê-la a sair de um táxi, com um carrapito, envolta num xaile, depois de ter ido às compras, e anunciarem-lhe que tinha ganho o Nobel.
Acho que qualquer um de nós gostaria de ter uma avó assim.
Depois da petulância de Saramago, que bom ter uma mulher e ainda por cima com aquela simplicidade, como novo Prémio Nobel da Literatura.

Nota:Quando acabava de escrever este Post, fui informada que Al Gore tinha ganho o Prémio Nobel da Paz.Os senhores da Academia Sueca, este ano, estão inspirados.Que bom!

11 October 2007

CAROLINA DOS FELLATIOS

No final do ano passado deu-se um fenómeno curioso:fosse nas bancas dos jornais, nos quiosques, nas papelarias do bairro ou na secção do El Corte Inglês que mais clientes tem e que menos vende ( a das revistas, claro, porque o povo lê tudo ali mesmo, e não compra nada), qualquer revista séria, cor-de-rosa, jornais a pingar sangue ou os que vêm todos arrumadinhos num saco, todos traziam uma loira na capa, chamada Carolina.
Fiquei toda baralhada. Que diabo, a única Carolina que conheço é a do Mónaco, e ela nunca foi loira! Estaria a escapar-me qualquer coisa? Teria ela decidido divorciar-se do marido? Sim, porque eu sei que deve ser óptimo ser Princesa de Hannover, mas viver na angústia de nunca saber quando, ao marido, lhe vai apetecer usar uma qualquer parede como casa-de-banho, deve ser cansativo. Pra não falar nas pielas que apanha nas ocasiões menos próprias, como fez no casamento da futura Rainha de Espanha. Eu bem vi, como a pobre da Carolina tentava explicar à Letizia que o piqueno estava com uma enxaqueca terrível.
Portanto não era a do Mónaco. Mas devia ser importante, porque era capa, sem excepção, de tudo o que era revista e jornal. Havia mesmo alguns que lhe chamavam “ Personalidade do Ano” ou “ A Mulher que mais abalou 2006”.
Com a absoluta certeza de que algo me tinha passado ao lado, o que é grave, tratei de comprar uma de cada. Chegada a casa, fechei-me no escritório e li tudo. Descobri então que:
A dita Carolina tinha trabalhado numa casa de alterne. ( Tomei nota, mentalmente, para me informar exactamente o que faz uma funcionária de uma casa de alterne).
Tinha conhecido lá um senhor, chamado Jorge Nuno Pinto da Costa, ( Esse eu sei quem é, porque como boa Sportinguista que sou, não gosto dele nem um bocadinho, e também não acho que seja um Senhor, mas pronto), e apaixonaram-se. Até aqui tudo bem.
Parece que ao fim duns anos, o Senhor, que deve gostar de “reprises”, deixou-a por uma antiga namorada, que por acaso é uma jornalista muito conhecida, mas que eu pensei que como está sempre muito cansada já se tinha deixado destas coisas.
A Carolina não gostou, ( o que eu percebo muito bem, porque se fosse eu também não gostava), e resolveu escrever um livro, tipo romance policial, com tudo o que faz um livro vender: amor, escândalos, estaladas para lá e para cá, contratações de jagunços para bater nuns tipos de quem o Senhor não gostava, enfim, uma verdadeira novela mexicana.
Como se isto não bastasse, um cineasta português muito repeitado, resolveu fazer um filme baseado na vida da dita senhora, que ainda por cima, teve direito a assistir às filmagens, para ver se tudo era filmado a seu gosto.
E, cereja em cima do bolo, a dita Carolina fez umas fotografias para uma revista muito do gosto dos senhores.(Ficam aqui algumas, para que os homens finalmente percebam como uma boa maquilhadora, uma cabeleira postiça e um bom fotógrafo transformam uma "trabalhadora" de uma casa de alterne, numa top model.)
Estas as conclusões que tirei:
Há loiras nas casas de alterne que pensam.
As casas de alterne são frequentadas por Senhores.
A Carolininha ganhou em todas as frentes, ou seja:
Tornou-se uma figura do nosso jet-set. HIHIHI
Encheu-se de grana com o dinheiro dos livros vendidos, com os direitos do filme, com as fotografias da revista,e last but not the least, ainda tem direito ao estatuto de arrependida, o que lhe dá imensos privilégios.
É que foi preciso uma loira de uma casa de alterne ficar despeitada ( como diziam as revistas do mais sério que há no País), pôr a boca no trombone, e dizer alto e bom som aquilo que todos sabem, mas que os orgãos de investigação policial desta terra não conseguiram ( ou não quiseram?) descobrir.
Será desta que a Maria José Morgado consegue levar o seu trabalho até ao fim e chamar os bois pelos nomes, doa a quem doer?
É que se assim fôr, só me resta pedir a todas as loiras das casas de alterne deste pobre País que se unam e contem tudo o que sabem dos Senhores que conhecem.
Se uma fez este estrago, todas juntas, é coisa para incendiarem Portugal, e como o Sr. Ministro dos fogos já demonstrou que nem os de verão consegue apagar, o mais certo é o País arder todo. E pode ser, que da terra queimada, nasça um País novo!!!
Enquanto isso há centenas de mulheres cheias de valor desempregadas e a passar necessidades.
Depois venham dizer que as loiras são burras....





Nota:A inspiração para escrever este post vem a propósito da confusão gerada pela intromissão do Produtor do filme na sua montagem, sem dar satisfações ao Realizador ou aos actores.

10 October 2007

RAIVINHAS DE DENTES


Isto não é o mau post de hoje.
É só uma fúriazinha que me deu:

Vou começar a treinar com pesos, para ter força para arrancar uma máquina de Multibanco. Que raio: elas estão ali mesmo à nossa espera, e eu sem força. Pareço parva.

O José Rodrigues dos Santos foi suspenso por causa de uma entrevista que deu, a propósito da colocação em Madrid de uma certa colega. Não tenho grande simpatia pelo "orejas", mas lá que ele tem razão, tem.
Agora, se desatam a suspender todos os que dizem a verdade, contra a corrente, o melhor é termos cuidado, que ainda nos suspendem os Blogs.

9 October 2007

HASTA LA VITÓRIA. SIEMPRE.



Jean Paul Sartre chamou-lhe " o ser humano mais completo do nosso tempo".
Tornou-se a face chic da esquerda militante, e aparece em t-shirts, tatuagens,capas de cadernos, enfim, em tudo o que vende.
Comemoram-se 40 anos que Che foi executado na cave de uma escola na Bolívia e por todo o Mundo o eco da sua vida e da sua morte, ainda hoje se ouve.
Os poderosos deste Mundo deviam interrogar-se porquê que, bem do fundo da t-shirt onde, aparentemente está preso, os olhos dele ainda brilham.
De todos os ícones que existem,penso que ele foi o único que já era um mito mesmo antes de morrer.
Não sei porquê que ele tinha esta aura, não sei porquê que acredito nas coisas que leio sobre ele. Será que antes de ser executado por homens do exército boliviano e dois agentes da CIA,de facto disse:- Disparem cobardes. Afinal só vão matar um homem.
Vi o filme Os Diários de Che Guevara, li livros, pesquisei.
A sua figura sempre me fascinou.
Gostava de ter estado com os jovens daquele tempo, depois da sua morte, que percorriam as ruas de Santiago do Chile, gritando:- No lo vamos a olvidar.
Mas é em Cuba que mais se sente a sua presença, ainda que por debaixo dos panos.
Apesar da estátua que foi feita em sua homenagem, apesar dos elogios que publicamente Fidel lhe faz, sente-se um certo mal estar no ar, quando se fala de Che Guevara.
Mas turista pode.
Turista pode tudo.
Então aproveitei. Vesti um vestido vermelho com a fotografia de Korda e a letra da música, e dancei, rebolando, com um cubano em Cuba, Hasta Siempre.
Há coisas que têm que se fazer no sítio certo.
Eu fiz e a emoção não podia ter sido maior.


HASTA SIEMPRE, COMANDANTE

Aprendimos a quererte,
Desde la histórica altura,
Donde el sol de tu bravura
Le puso cerco a la muerte.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia
De tu querida presencia,
Comandante Che Guevara.

Tu mano gloriosa y fuerte
sobre la historia dispara,
cuando todo Santa Clara
Se despierta para verte.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia
De tu querida presencia,
Comandante Che Guevara.

Vienes quemando la brisa
con soles de primavera
para plantar la bandera
con la luz de tu sonrisa

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia
De tu querida presencia,
Comandante Che Guevara.

Tu amor revolucionario
te conduce a nueva empresa,
donde espera la firmeza
de tu brazo libertario.

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia
De tu querida presencia,
Comandante Che Guevara.

Seguiremos adelante
como junto a ti seguimos
y con Fidel te decimos :
«¡Hasta siempre Comandante!»

Aquí se queda la clara,
La entrañable transparencia
De tu querida presencia,
Comandante Che Guevara.

8 October 2007

EU NÃO SOU EU. SOMOS DUAS


Há uma outra escondida, cá dentro, que escondo do mundo e dos dias monótonos e arrastados de uma mulher bem comportada..
Ela aparece, a uma hora qualquer, quando estou finalmente adormecida, embrulhada, nua , nas folhas brancas dos lençóis.
Sei que a outra aparece quando as pálpebras abraçam os olhos da escuridão do quarto.
Sei que qualquer coisa remexe dentro de mim, enquanto procuro com o pé, o frio do fim do lençol.
Qualquer coisa que eu não controlo, qualquer coisa que eu desconheço em mim. E conheço tão bem.
Quando escondo a mão esquerda debaixo da fronha e procuro o folho da segunda almofada.
Quando a realidade do meu mundo adormece na paz da noite.
E desaparece.
E fica uma mulher de quarenta anos, nua, inocente, enrolada em posição fetal, como uma vírgula perdida num lençol A4. Eu e esta cama enorme.
E sonho.
Consigo.
Falo que me farto, rio, liberto os sonhos e desejos que não lhe conto.
As frustrações, os medos, as humilhações, que não lhe conto.
Sonho com uma vida que nunca vou ter consigo, com histórias que só poderiam ser contadas em pequenos livros que se escondem atrás dos grandes. Livros.
Beijo e abraço como nunca irei beijá-lo.
Tenho diálogos que nunca terei, consigo.
Sonho com viagens que nunca farei, consigo.
Faço amor como nunca fiz, consigo.
Sinto as suas mãos percorrendo o meu corpo, a sua língua deslizando por montes que se abrem enquanto murmura conversinhas ao meu ouvido.
Passo as mãos no seu cabelo, aninho a cabeça no seu ombro e sinto o cheiro das suas boquilhas café crème, antes de partirmos à desfilada por searas ondulantes de prazer.
Acordo molhada de prazer.
Ou serão lágrimas?

7 October 2007

SERENDIPITY



Serendipity, é uma das minhas palavras preferidas. Se acontece, por alguma razão acordar e lembrar-me dela, fico o dia inteiro a repeti–la. Gosto do som, da dificuldade em dizê-la, do significado que tem, e da sua origem.
Provém de um conto de fadas persa, e significa acidentes felizes, felizes acasos, e foi descoberta pela 1ª vez em 1754.
Desde então, tem tradução em todas as línguas, ( em português diz-se Serendipicidade), e um tradutor inglês considera-a das palavras mais difíceis, não de traduzir, mas de lhe encontrar um sentido em determinado contexto.
Tem sido empregue em quase todos os campos:
Na Química, quando Alfred Nobel misturou acidentalmente o collodium ( algodão do injector) com a nitriglicerina e descobriu a Gelignite.
Na Farmacologia,Alexandre Fleming falhou as culturas do desinfectante das bactérias antes de ir para férias, e quando voltou encontrou-as contaminadas com o “Penicillium molda”, que matou as bactérias, e que não era mais do que a Penicilina.
Na Medicina quando o Dr. Georgius Papanikolau, ao estudar as bactérias do útero feminino, descobriu o teste que leva hoje em dia o seu nome, e que permite descobrir células cancerígenas no útero das mulheres.
Foi assim que Isaac Newton, ao ver cair uma maçã de uma árvore, descobriu a teoria da gravidade.
Cristóvão Colombo descobriu a América, quando de facto procurava a Índia.
E há milhares de exemplos, que me escusarei de citar, para não ser demasiado maçadora.
O facto é que, as maiores descobertas, em qualquer campo que pensemos, se deveram a felizes acasos: Serendipity.
Apesar de não acreditar no destino, pelo que nos tiraria de livre arbítrio, não consigo impedir-me ( romântica incorrigível que sou), de achar que é maravilhoso pensar que tudo na vida, faz parte de um plano magistral, destinado a, um dia, uma noite, da forma mais estranha, nos pôr à frente a nossa alma gémea.
Mas, se não acredito no destino, acredito em acasos. Algo que acontece sem esperarmos. Cabe-nos segui-los, ou não.
A vida não é uma série de acidentes sem sentido, ou coincidências que muitos notáveis defendem que não existem, mas uma colecção de acontecimentos que culminam num requintado, soberbo, e sublime plano.
Não tomo café, e por isso nunca frequentei cafés.
A única vez, há muitos anos, que um amigo me levou a um café, onde nem entrei, tendo ficado no carro à espera dele, conheci o homem mais importante da minha vida.
O meu pai teve um amigo que sobreviveu a três desastres de avião, e morreu de ataque de coração, em casa, com 70 anos.
Serendipity é festa. É alegria.
Uma canção muito antiga e muito bonita de Joan Baez foi repescada para a banda sonora do filme “ Forrest Gamp”. Lembro-me que ela fazia muitas interrogações:
Quantos cadáveres tem um homem que ver para perceber que já houve mortos a mais?
Quantas estradas tem alguém que percorrer para ser considerado um adulto?
Quantas vezes tem um homem que olhar para cima para ver o céu?
Quantos anos tem uma pessoa que viver para poder ser livre?
A solução para todas as questões era sempre a mesma : - A resposta está escrita no vento.
É nisso que acredito. Que as respostas aos sinais que nos aparecem ao longo da vida estão escritas no vento. Só há que saber ouvi-las.
Em Nova Iorque, no alegre bairro de Little Italy, existe uma das mais famosas pastelarias do Mundo, por ter aquele que é considerado o melhor chocolate quente do Universo.Chama-se Serendipity, e é lá que se comemoram os Acasos Felizes.
Nela me sento de quando em vez, esperando por ti, meu menino doce, meu homem louco, esperança que me amparou à beira da capitulação, meu amor maior, Serendipity da minha vida.
Escuta os sinais do vento.

6 October 2007

MEL JÁ NÃO MORA AQUI


Tão certo como 2 e 2 serem 4.
Tão certo como o sol nascer amanhã.
O que faríamos se descobríssemos que afinal a Terra não é redonda?
Que o Amstrong nunca pôs os pés na lua?
O que faríamos se todas estas certezas que temos desaparecessem?
Sobrevivíamos. Afinal estas certezas não acrescentam nada aos nossos sentimentos. São frios dados científicos.
O que faríamos se nos dissessem que o filho que amamos há anos não é o que parimos?
Que a nossa mãe não é nossa, porque somos adoptados?
A Mel já não mora aqui.
Durante 30 anos foi minha irmã, minha amiga, minha cúmplice.
A dela, era a minha casa.
A minha roupa era dela, a dela era minha, de tal maneira que vinha o dia em que não se sabia o que era meu ou dela.
Os nossos filhos, os nossos cães, os nossos projectos, os nossos desgostos, os nossos amores.
A Mel já não mora aqui.
De dia ou de noite, no Verão ou no Inverno, na alegria e na tristeza era ela e eu.
A Mel já não mora aqui. Resto eu.
Se penso em qualquer momento da minha vida a fotografia da Mel flasha na minha cabeça. Que dói.
Natal, aniversários, funerais e casamentos.
A Mel já não mora aqui, grito eu.
Era a minha última certeza de acreditar no ser humano.
E agora que ela já não mora aqui?
Foi de férias e um tsunami arrasou o meu porto seguro.
Boiando no mar de lágrimas onde me afundo, estou eu toda, em pedaços.
E sei que quando os recolher, e um a um os juntar para fazer o puzzle que eu sou, vai faltar um.
Porque a Mel já não mora aqui.
Ela cansou-se.
E eu matei-a.

5 October 2007

PARA OSITO DE MÁMÁ

O meu 5 de Outubro
Que me desculpe quem me lê, mas não vou falar do feriado.
Vieste, microscópico, sem aviso, sem encomenda.
Desde o 1º momento em que te soube, que te protegi e te amei.
A las 11 en punto de la mañana cortaram-nos de jure o cordão umbilical,
Mas não de facto.
Nasceste feínho, cabecinha de melão que as ventosas não perdoam.
Mas logo, logo, ficou redondinha.
Olhos cor de amêndoa, cabelo muito claro, sempre seguindo todos os meus passos.
E assim ficamos.
Santo em casa, mafarrico no colégio, por onde foste passando ninguém te esqueceu.
Academia de Música de Santa Cecília e a Irene, S. João de Brito e o Padre reitor, Católica e a Tertúlia: ninguém esquece o Guigas.
Excelente aluno, bom carácter, bem formado com um enorme espírito de sacrifício, trabalhador humilde que depressa chega ao topo, escritor e pensador, advogado genial.
Mas isso não interessa nada.
Tivesses defeitos graves, deficiências físicas, mais te amaria.
Meu companheiro de todas as horas, boas e más, e nos últimos anos muito mais más que boas sempre te manténs firme e forte.
Tens sofrido, que a vida não é justa.
Por isso, mais te amo ainda, se tal fosse possível.
Por seres quem és e como és, Parabéns.

Nasci-te

No meu ventre de mulher cresceu teu feto

e foi a minha boca que te deu palavras

e silêncios para tu gritares

Dos meus braços multipliquei teus braços

e dei distâncias para tu voares

Dei-te tempos-de-nada

medidos de coragem

E foste. E és.

4 October 2007

FORMAS DE AMAR


Por-me-ás de borco,
assim inclinada...

a nuca a descoberto,
o corpo em movimento...

a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo...

Por-me-ás de borco;
Digo:
ajoelhada...

as pernas longas
firmadas no lençol...

e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos como quem consome...

(Por-me-ás de borco,
assim inclinada...

os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)

Maria Teresa Horta

3 October 2007

Ahmadinejad em Nova Iorque ou a comédia do non-sense



Eu e os Estados Unidos nunca nos entendemos.
Adoro aquele País e amo Nova Iorque mas há tanta coisa lá que odeio, que vivo "on the edge", sempre a pensar:- o que irão eles aprontar agora?
Agora aprontaram que convidaram o Presidente do Irão a visitar Nova Iorque.
Pior: foi convidado para dar uma conferência nas Nações Unidas, enfim, consideremos que embora em solo americano pode não se considerar América "strictu sensu" mas, en passant,Lee Bollinger, presidente da Universidade de Columbia convidou-o também para fazer lá uma conferência, a bem da liberdade de expresão.Ora situemo-nos:
O presidente do Irão,é um islamista que está a precisar de ser rapidamente barbeado e que para pronunciarmos o seu nome temos que comprar um livro:mah-mood ahh-mah-dee-nee-zhahd.
Para além disso,já fez as seguintes afirmações:
- O Estado de Israel deve ser mudado para o Alaska!
- O holocausto não existiu!
- No Irão não há homosexuais! ( bom, isso até acredito, porque matam-nos).
De comum com Bollinger tem uma coisa: Bollinger é contra os homosexuais nas Forças Armadas americanas.
No entanto, no discurso que fez antes do Presidente do Irão, chamou-lhe " petty and cruel dictator", tendo o mesmo, quando discursou, reclamado que no Irão os convidados são tratados com cortesia.
O mais fantástico foi que Ahmadinejad quis visitar o Ground Zero, o que lhe foi negado.
O ex presidente Bill Clinton,comentou esse pedido duma forma seca e objectiva:visitar
o local do crime da Al Qaeda seria um atentado à memória dos milhares que lá morreram e isso é inaceitável.
Quanto ao Presidente Bush, teve uma aitude que lhe é muito habitual: sacudiu a àgua do capote, afirmando que isso era um problema que dizia respeito à cidade de Nova Iorque.
Pois discordo.
É um problema de todo o Mundo livre e democrático.
É um problema de todos nós.
É um problema meu.
Como também o é a anunciada confrontação entre os EUA e o Irão.

2 October 2007

Venham as meias, se touxer o canito

SOLARIS - A LOVE STORY


Não gosto de filmes de ficção científica.
Não os vejo, portanto.
Adoro cinema mas os filmes têm que ter a ver com a realidade da vida: com as emoções, os medos, as interrogações, os dramas com que somos confrontados todos os dias. Realidade e ficção são conceitos antagónicos.
Por isso, de ficção não científica, devoro todos os James Bond que vejo com o mesmo prazer lúdico com que vejo desenhos animados.
Há 2 noites fui atacada por uma insónia o que me levou a ligar a televisão, aparelho de que não sou muito fã.
E o que vejo no écran?
O homem considerado mais sexy do Mundo, George Cloony, nú.
É verdade.Nú e em plena cena de amor.
Sentei-me na beirinha da cama olhando hipnotizada para o écran.
Passado um tempo, apercebi-me que estava reclinada nas almofadas, absolutamente focada no filme.
Não o tinha visto quando passou nos cinemas por ser anunciado como de ficção científica.
Mas nada mais errado. Aquilo que vi foi uma história de amor invulgar, obssessiva e soberba.
Solaris é um remake do filme soviético de 1972 com o mesmo nome, baseado no livro do autor polaco Stanislaw Lem.
Steven Soderbergh fez em 2002 uma nova adaptação do livro e um novo Solaris.
É um filme misterioso, perturbador, forte e lindo.
Solaris é um golpe de génio de Soderbergh.
Desde o princípio que não é um filme acerca de máquinas ou monstros.
É um drama psicológico acerca do amor e da morte. Da realidade e do sonho.
É uma assustadora obra de arte e seguramente um dos mais belos filmes que já vi.
Independente das questões que nos coloca acerca da vida e da morte, as 2 perguntas mais importantes do filme, pelo menos na minha interpretação são:
- Tendo perdido, por morte, alguém que amávamos com loucura, estaríamos nós dispostos a recuperar a presença dessa pessoa, igualzinha à outra fisicamente, com as mesmas emoções, os mesmos hábitos, a mesma forma de estar, embora sabendo que ela é um clone, ou uma criação corporizada pelo nosso desejo, a nossa dor e as memórias que temos dela ou mesmo, um ser de outro planeta que tomou a sua forma?
- Faria diferença para nós que esse encontro fosse na Terra, vindo ela ter connosco, ou aceitaríamos partir para o desconhecido para não a perder?
E por fim o corolário do filme: A morte não tem como vencer o Amor, nos versos lindíssimos de Dylan Thomas tiradas do Poema And Death Shall Have No Dominion:
And death shall have no dominion.
Dead mean naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

MEIAS TINTAS


Não sou de meias tintas:
Não de gosto de coisas assim-assim.
Ou amo ou odeio.
Sou de extremos em tudo.
Por isso, odeio o Outono.
Como se pode gostar de ver a noite chegar cada vez mais cedo,as folhas que caiem das àrvores e as deixam despudoradamente nuas,a melancolia e a tristeza que desce sobre a nossa alma, levando-nos, por vezes à depressão?
Não. Ou Verão ou Inverno.
O Verão é a minha estação preferida.Tudo pode acontecer nas quentes e sensuais noites de Verão quando o calor nos faz usar vestidos cada vez mais ousadamente despidos.
O sol queima-nos o corpo provocando desejos pecaminosos: beber bebidas coloridas que nos embriagam os sentidos,fazer amor na praia, à noite, mas com a areia ainda quente, dançar até o dia raiar,viajar, sonhar.
Amores de Verão que têm os dias contados, mas são infintos enquanto duram!
Não sendo possível ter Verão neste País que navega sempre em àguas mornas, então que venha o Inverno, a chuva, o frio, a neve.
As noites dormidas ao pé da lareira, corpos nús envolvidos em peles quentinhas e macias.
O après ski, bebendo chocolate quente para apaziguar o cansaço saudável de um dia de ski.
Definitivamente, o Outono é como um limbo onde nada acontece.
E o limbo está destinado àqueles que não pecaram muito. Só um bocadinho.
Para pecar, pequemos muito.