27 April 2009

.....


A vida é um bocado confusa.
Mais ou menos como estar parada na frente de uma porta com um imenso molho de chaves.
Só que não tem fechadura.

26 April 2009

( 33 ) NÃO RESISTI

video


Uma mulher nunca se atrapalha.

25 April 2009

PORTUGAL RESSUSCITADO


Depois da fome, da guerra
da prisão e da tortura
vi abrir-se a minha terra
como um cravo de ternura.

Vi nas ruas da cidade
o coração do meu povo
gaivota da liberdade
voando num Tejo novo.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido

Vi nas bocas vi nos olhos
nos braços nas mãos acesas
cravos vermelhos aos molhos
rosas livres portuguesas.

Vi as portas da prisão
abertas de par em par
vi passar a procissão
do meu país a cantar.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido

Nunca mais nos curvaremos
às armas da repressão
somos a força que temos
a pulsar no coração.

Enquanto nos mantivermos
todos juntos lado a lado
somos a glória de sermos
Portugal ressuscitado.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido.

José Carlos Ary dos Santos

(Caxias, 26 de Abril de 1974)

24 April 2009

WAITING FOR A CALL...


Dez anos de namoro. Formaram-se no mesmo colégio em anos diferentes, mas estavam juntos. Formaram-se na faculdade em épocas diferentes, mas estavam juntos. Foram padrinhos de casamento do irmão dele, baptizaram a filha da prima dela. Ganharam amigos novos, perderam pessoas da família.
Dez anos é uma vida.
Estávamos em meados da Primavera e caía a tarde. Ela decidiu, depois de meses a pensar no assunto, colocar um ponto final na relação. Conversaram e ela explicou-lhe que já não gostava dele como no início, que não era sentimento e sim costume, hábito, coisas pequenas que já faziam parte do quotidiano comum.
Separaram-se.
Ela sentindo-se óptima, leve, ele nem tanto.
Ambos esperaram por uma ligação nos dias seguintes, ela mais do que ele.
Em fins de Julho ele comemorou um mês de namoro com uma outra mulher.
Já se foram dez meses e ela, ainda hoje, continua a chorar olhando para o telefone mudo.

23 April 2009

*...


Maravilha-me a pele, aquece-me os pés, acalma-me os olhos
Faz-me cócegas no coração, acalenta-me os nervos, afaga-me a alma
Rouba-me os versos, paralisa-me os verbos, cala-me os medos
Faz-me vestir de flores, vê-me pintar os lábios, tira-me os receios
Resolve-me mulher, acende-me a pele, rasga-me a carne
Adivinha-me exausta, vela-me o sonho, enternece-me criança
Amanhece-me os sentidos, rouba-me a preguiça, faz-me café
Mata-me de rir, trata-me os caprichos, concede-me as vontades
Faz-me o bem, faz-me melhor, faz-me falta.

22 April 2009

PELA CONDUTA ABAIXO


Ando com um problema que espero, a vizinhaça me ajudará a resolver.
O Sebastião, que como sabem é a minha sombra branca, ( há quem tenha uma negra...) é muito meigo. Meigo demais. É assim uma espécie de melga.
Para alguém saber onde estou em determinada parte da casa, basta procurar por ele. Eu estarei a dois passos.
Bastas vezes já aconteceu eu tropeçar nele e quase me esparramar no chão, porque tem a mania de se meter debaixo dos meus pés. E também já tem acontecido de lhe pisar a cauda, coisa a que ele não acha muita graça.
Quando há dois anos e quase meio, o meu fiel companheiro de treze anos partiu para um jardim que eu imagino infinito e cheio de flores, onde pode brincar com todos os amiguinhos que partiram antes dele, a tristeza e a saudade instalaram-se no meu coração.
Assim, foi com algumas reticências que recebi o Sebastião quando os meus filhos me fizeram a surpresa de mo oferecer.
Surpresa tanto maior porque ele é um Terrier do Tibete, cão sagrado do Dalai Lama, a raça mais cara e rara do mundo. Não existem em Portugal e só em Nova Iorque se encontram os melhores exemplares. Por isso, um bébé, com o transporte e o seguro ronda os dois mil euros.
Mas, ou não estivesse ele no coração de Wall Street, o meu filho está sempre pronto para fazer bons negócios.
Descobriu o Sebastian em Nova Iorque, mas tinha um senão: tinha 2 anos e ele sabia que eu queria um bébé. Mas, os donos preparavam-se para se mudar para uma penthouse num prédio que não admitia animais, pelo que o pobrezinho foi para um canil.
Estranhando não ver no elevador a dog-sitter do cão informou-se e soube que o mesmo já estava no canil há 3 meses.
Daí a ir buscá-lo, tratar da papelada e enviar-mo foi um àpice.
Acontece que esperto como é, mal cá chegou, embora assustado com a viagem e com o ambiente desconhecido, tratou de conquistar-me e a toda a família.O que, diga-se de passagem, conseguiu.
Não sei se é pelas mordomias que tem: dorme em cima da minha cama, exactamente em cima dos meus pés, só come ração vegetariana,os biscoitos, também vegetarianos, vêm de Nova Iorque, vai passear no jardim 4 vezes ao dia, tem brinquedos, tem direito a uma fatia de bolo e 2 lambidelas de champanhe em dias de festa, e muitos outros mimos.
Vai daí, que além de estar sempre ao pé de mim, faz palhaçadas quando quer atenção e dá-me linguados que vão do queixo à testa. Ou seja, é meigo. Dá e quer carinhos, a toda a hora.
Ora, li hoje no blog do vizinho Pedro que um casal que estava em processo de adopção, devolveu a criança, porque ela era muito meiga. Segundo parece, dava e pedia muitos carinhos. O que é, evidentemente, anormal numa criança, mais ainda adoptada!!!
Sendo que o Sebastião é um cão, o meu dilema é:
Devolvo-o ou atiro-o pela conduta do lixo?

21 April 2009

JOGOS DE CHOCOLATE


Reuniu os seus melhores sorrisos e escolheu a dedo as suas expressões na frente do espelho. Leve, queria deixar tudo leve e claro, a expressão do rosto, a voz, o ritmo de sua fala, a sua dicção. Decidiu que ia escutar mais do que falar.
Lavou os cabelos e obrigou-os a ficarem exactamente da forma que ele mais gostava. Não pôs batom para parecer natural e despreocupada. Ainda molhada espalhou umas gotinhas de óleo pelo corpo, só para ficar com um cheiro tão mas tão discreto que ele só perceberia se ficasse muito juntinho dela.
Demorou mais de 40 minutos em frente ao roupeiro para afinal escolher uns jeans confortáveis e um camiseiro branco. Calçou uns all star vermelhos e colocou um o cd do Frank Sinatra. Logo de seguida trocou porque achou que ele poderia achá-la muito romântica, em pleno fim de tarde de sábado, escutando aquelas músicas que parecem ter cheiro de whisky. Colocou Nina Simone. Preparou a cozinha para que estivesse tudo pronto para servir os canapés que tinha feito e oferecer um gin tónico assim que ele chegasse. Ou um whisky?
Imaginou-o já ali, sentado na cadeira, mexendo em qualquer coisa que estivesse em cima da mesa enquanto contava coisas da sua vida. Imaginou a cena e a conversa, e imaginou também que nessa situação sentiria muita vontade de cozinhar.Melhor começar já, para disfarçar.
Ansiosa como estava, abriu o frigorífico e não encontrou nada que a inspirasse. Algo doce. Chocolate! Isso mesmo.
Enquanto preparava um Sachertarte, entre ovos, farinha integral, açúcar mascavado e chocolate ficou ali à espera, com as mãos enfarinhadas, apreensiva, a chegada do homem que guardava nos seus bolsos um mundo cheiinho de possibilidades.

20 April 2009

PERSEGUIÇÕES


As pessoas perseguem sonhos
como crianças correm atrás de bolas de sabão.
Porque é divertido.
Não importa se os alcançam ou não.
As pessoas perseguem sonhos como um cão atrás de um carro,
não por que os querem realmente.
Só para se enganarem.
As pessoas perseguem sonhos como o vento as folhas,
porque estes sonhos
quando alcançados, as adormecem
em noites sem sono.
As pessoas...

19 April 2009

( 32 ) NÃO RESISTI


Susan Boyle Britains Got Talent 2009 -

Não costumo pôr vídeos neste blog. Guardo-os para o surfinginthewind, o meu outro blog que ninguém lê mas que me diverte.
Mas desta vez, NÃO RESISTI.
Isto de julgar as pessoas pela aparência nem sempre tem o resultado esperado.

Nota: Parem a música do blog, na coluna do lado esquerdo. Vale a pena.

18 April 2009

( 20 ) PORQUE É FIM - DE- SEMANA



Porque todos os dias são bons para não ver televisão e brincar com os nossos animais.

17 April 2009

SE EU FOSSE HOMEM


Eu cheguei lá em forma de envelope.
Um papel com textura macia e de um azul clarinho, bonito.
O carteiro deve ter-me entregue pessoalmente e só ele pôde ver aquele sorriso bonito estampado no rosto dela.
Naturalmente os olhos ficaram apertados de alegria e a face corada, como ficava quando a timidez me permitia desabrochar sentimentalidades, mesmo que confusas ou certeiras demais. Porque nem sempre eu guardava tudo o que me sacudia, mas uma vez por outra recuava algumas nas atitudes, para evitar reacções negativas.
Ela desligou a chaleira que fervia a água para fazer chá - ela faz sempre chá a meio da tarde - foi para o quarto e sentou-se na beirinha da cama.
O azul das paredes parecia mudar para um azul também clarinho, como o do envelope, como um degradé, e sem entender o porquê da minha visita... ela rasgou-me.
Com os mesmos dedos finos e macios com que me acariciava os cabelos quando o sono baixava as pálpebras e me fervia os pensamentos que não passavam, por um triz, dos pensamentos dela... muito embora eu quisesse.
Certamente ela tinha sentimentos sinceros e mais leves que o meu e na certa não sofria como sofro.
E então, ela puxa-me sem medo, do todo. Talvez tenha pensado que eu teria chegado em forma de envelope apenas como mais um dos meus mimos.
E eu cheguei com o cheiro do mesmo perfume que uma vez ela disse ser bom.
Tudo que tinha dentro de mim de azul, foi posto em vermelho, para intensificar o que sentia todos os dias e me fazia faltar o ar.
Então ela segura-me com toda aquela delicadeza que só ela tem.
Passa pausadamente os olhos bonitos de sempre, com uma única certeza, a de não estar a perceber nada sobre a minha súbita visita, apesar de eu ter lhe arrancado um leve sorriso a princípio.
Sei que no início seria de uma estranheza maior do que a que me possui, mas eu não podia silenciar, não desta vez.
E com palavras alheias, descrevi o que era fumegante e bonito, de uma beleza que eu jamais poderia partir sem antes dizer:

"Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inutil"*
e...
eu fui, mas deixei com ela o envelope e tudo o que crescia em mim, mesmo que sem o seu consentimento.
*Excerto de um poema de Fernando Pessoa

16 April 2009

TELEPATIA


Já há uns dias que penso seriamente em inscrever-me num curso à distância chamado "Como enviar de forma segura mensagens telepáticas".
Porque no meu auto didactismo de desenvolver a técnica, sinto que quase consegui. Só que a ligação às vezes cai ou não sincroniza e não fica estabilizada.
Por esse motivo a mensagem fica presa, com erros ou só segue metade.
Telepatia serve quando nenhum atalho, nenhuma fresta aberta de janela, nenhuma porta da frente da casa destrancada, nenhuma música que possa ser enviada, nenhum link que esteja disponível, nenhuma letra ou número ou qualquer outro sinal visível, servem para gritarmos que estamos sozinhos.

15 April 2009

DOENÇA TERMINAL


Sr.Dr. a minha filha, queixa-se de que tem dores no peito todo o santo dia! Não sei o que é. Chora pelos cantos da casa. Sr. Dr. uma menina da idade dela, será que tem algum problema de coração?
- Diga-me, há casos de cardíacos na sua família?
- O meu pai! O meu pai tinha o coração aumentado, sr.Dr.
- Então amanhã traga-me a sua filha para eu a poder examinar.

- E então, sr. dr. o que dizem os exames?
- Minha senhora, não é muito grave... é exactamente o que eu imaginava...
- E o quê que a minha filha tem doutor? Aaaande. Diiiga!
- A sua filha tem o coração aumentado!
- Ai minhanossasenhoradefátima! Não acredito! E agora?
- Será preciso fazer uma drenagem interna.
- Drenagem? No coração? E como é isso doutor?
- O coração da sua filha tende a crescer um pouco mais todos os anos. E só a drenagem poderá resolver a situação..
- É?
- É! Mas há algumas complicações para este tratamento.
- Ó Valha-me Deus! E quais são Dr.? Diga-me...
- Minha senhora, o problema é que...amor nem sempre tem cura!

14 April 2009

REZANDO

Alessandro Barroucu

- Beija-me.
- hãm?
- Pedi para me beijares.
- Beijar-te?
- Sim.
- Mas... porquê? Muda alguma coisa? Muda o amanhã?
- Ah, sei lá... quem é que sabe do amanhã? Eu sei do agora, e agora eu quero um beijo teu.
E ela ficou em silêncio pensando que... quando não há sentimento, o amanhã é como um papel branco, um dia branco. Mas quando há sentimento, o amanhã é feito com aqueles tubinhos de aguarelas que enchem de cores toda a brancura de incertezas dos dias.
- Beija-me, anda...
Ele beijou-a e mais tarde, na cama, deitada ao lado dele, ela pôs as mãos e pediu a Deus que no dia seguinte o sol nascesse colorido de mil cores.

13 April 2009

ROTUNDAS DA VIDA


Ela ia e ele voltava. Ela de carro, ele de moto. Os seus olhares encontraram-se, fazendo girar lentamente as cabeças enquanto um passava pelo outro.
Ele desacelerou, ela fez a curva olhando pelo retrovisor. No sinal vermelho sentiram saudades.
E foram-se, felizes para sempre.

12 April 2009

( 31 ) NÃO RESISTI

11 April 2009

( 19 ) PORQUE É FIM-DE-SEMANA...DE PÁSCOA

Para todos os veludinhos e veludinhas que são meus vizinhos um miminho. É vosso.


10 April 2009

KING OF PAIN

9 April 2009

INFÂNCIA


Houve um tempo em que eu acreditava que algodão doce era nuvem com açúcar.
Houve um tempo em que eu acreditava que as bonecas, os brinquedos e os peluches tinham vida própria e despertavam quando eu adormecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que o mundo era um lugar lógico e seguro, e que até podiam acontecer coisas más de vez em quando, mas que no fim, tudo acabava bem.
Houve um tempo em que eu acreditava que as pessoas que amamos nunca morriam, nunca envelheciam, ficavam sempre iguais, à revelia do tempo.
Houve um tempo em que eu acreditava que os adultos sabiam tudo, não tinham dúvidas nem medos, e não erravam nunca.
Houve um tempo em que eu acreditava que se fechasse os olhos e pedisse com fé algo que desejasse muito, isso acontecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que quando crescemos nos tornamos livres e podemos tudo.
Foi-se esse tempo.

8 April 2009

(2) JÁ TIVE OUTRA VIDA!


Passo horas no computador. A descobrir o que se passa no mundo. A descobrir números. A procurar saídas.
Como gomas em forma de amora. Uma a uma deixo-as derreter na boca.
Os dedos ficam pretos. Esta porcaria é só corantes. E fico agoniada. Mas gosto de estar entretida enquanto descubro o mundo e os números e as coisas.
Passo horas no computador.
Antes desta vida já vivi outra. Fiz cerelac e vesti-os. Mudei fraldas e perdi noites. Dei-lhes a mão e levei-os ao colégio. À ginástica, ao judo, ao francês.
Passo horas no computador.
Enjoada das gomas mudo para marshmallows. Com o sorriso fácil das pessoas burras. Entretida com o sabor doce na boca e os amigos nas pontas dos dedos.
Antes desta vida já vivi outra. Ajudei nos trabalhos de casa. Aplaudi as competições desportivas. Ri-me com os primeiros amores.
Passo horas no computador. Com o mundo, com os números. Com os caracteres que me preenchem e me tentam convencer que todas as esperas valem a pena.
E passo horas a tentar que o mundo, os números e a agonia doce das gomas me afastem pensamentos inoportunos.
Aquela história de que o que não tem remédio, remediado está, não serve para tudo na vida!

7 April 2009

(2) CONVERSAS DE VELUDO


Não sou de ter amigas normaizinhas. Não tenho paciência para gente que não tem um pouco de loucura.
Que fazem coisas que ninguém espera ou que gostam de desafiar convenções.
Uma das coisas que faço é, seja onde for, no restaurante mais chic do mundo ou em casa, só como morangos inteiros, à mão. Agarro num, mergulho-o no chantilly e vou dando dentadinhas. Nunca me hei-de esquecer do ar absolutamente escandalizado do chef do Tavares quando me viu fazer isso. E eu tinha 16 anos!
O ano passado quando os Sheiks deram um concerto no Trindade, fui com um grupo de amigos vê-los e caí na asneira de calçar uns sapatos de salto muito alto, partindo do princípio que os senhores nos deixariam à porta do teatro. O que fizeram. Mas à saída, fomos informadas que só tinham arranjado lugar para os carros na Praça do Município.
É sabido que a nossa calçada portuguesa é lindíssima, mas inimiga de saltos altos. A escadaria que desce para o S. Carlos ainda aguentei. Depois, decidi que a única hipótese era tirar os sapatos, e lá fomos, cantando a plenos pulmões os êxitos acabados de ouvir, comigo descalça e de sapatos na mão.
Pois bem, eis que a semana passada, uma dessas amigas me telefonou, e depois dos cumprimentos habituais se sai com esta:
- Então, já começaste a fumar charros?
- .....
- Alôooo, estás aí?
- Estou, mas estou a pensar na resposta.
- Não há nada que pensar. É sim ou não.
- Pois, é não. Nunca fumei charros na vida, nem no meu tempo de adolescente, e não é agora que vou começar.
- Pois não sabes o que perdes.
- Mas olha lá, tu estás boa da cabeça?
- Perfeita. Os dedos é que me doem um bocado, porque dá um trabalhão a enrolar.
- ......
Confesso que comecei a ficar encanitada com a conversa. Se há coisa em que sou o mais fundamentalista possível é no que diz respeito a drogas, e não admito o argumento que erva não é droga, que faz menos mal que o tabaco, e blá, blá, blá.
- Olha lá, mas tu endoidaste? Já imaginaste se o teu marido ou o teu filho descobrem?
- Ah! Acharam uma óptima ideia. Levei um dia até conseguir enrolar o primeiro como deve ser, mas agora até já lhes consigo pôr filtro e tudo. Até forrei uma caixinha em cor-de-rosa com bolinhas ( ela adora bolas), para os guardar. Espera lá que te vou mandar por mail, para veres. Filtro? Em charros? Comecei a achar a conversa surrealista mas lá fiquei à espera de ver o mail. ( a caixinha e os ditos estão na imagem acima).
- Pois, a caixinha está muito bonita, os cigarritos também, mas se queres que te diga, acho isso uma ideia que não me agrada nada e ficava muito contente se te deixasses disso.
Esta minha amiga tem a particularidade de ser muito criativa e de me contar coisas que me põem os cabelos em pé, mas só quando me vê em ponto de rebuçado, resolve desmistificar os assuntos.
Então sai-se com esta:
- He, he, apanhei-te. Tu não me digas que ainda não aderiste à moda.
- Moda?
- Sim, criatura. Dadas as dificuldades financeiras e com o aumento do tabaco, as senhoras desataram a comprar tabaco, mortalhas e filtros, fazem os cigarros, põem-nos num maço de tabaco e em vez de gastarem 3,5€ por dia, gastam 5€ de 15 em 15 dias. Agora faz as contas.
- .....
Fiquei sem palavras. Não sabia se me ria, se me zangava com ela.
Certo é, que ainda que num tom de voz não muito alto dado que não me sentia assim muito à vontade, no dia seguinte lá fui à papelaria da esquina e perguntei:
- Tem tabaco em caixinhas e mortalhas?
- Ah, a Srª Drª também vai aderir à moda????
- Bem, não sei bem se é por ser moda, mas parece que é mais barato.
- Tenho várias marcas, conforme o gosto, e até tenho umas máquinas que fazem tudo sozinhas. É só meter lá dentro o tabaco, as mortalhas e o filtro e sai o cigarrinho já pronto.
- Hum, então dê-me o que for mais parecido com Marlboro, as mortalhas e os filtros.
Ontem passei boa parte do dia a tentar enrolar o cigarito. Mas como saía sempre tabaco, ou de um lado ou do outro, hoje voltei lá e comprei a maquineta.
Já tenho uma caixa de Marlboro cheia de cigarrinhos e são óptimos.
Só quero ver a cara da minha mãe quando puxar de um à frente dela.
Uma coisa é certa:
Nada como a necessidade para aguçar o engenho!

6 April 2009

UMA PRATELEIRA DE AFECTOS

Olhava as prateleiras da minha despensa:

Esparguete, arroz, várias farinhas, alguns enlatados, poucos, especiarias, cereais, chocolates, azeite, enfim aquilo que é necessário para cozinhar aquilo que alimenta o nosso corpo.
Estava ali a olhar, tudo muito alinhado, por secções, com caixas todas da mesma cor.
Já tinha comido uma barrita de cereais, fruta, um iogurte, não era bem fome que eu sentia.
Era assim como que uma falta.
Descobri que preciso de mais uma prateleira onde possa pôr frascos. Frascos de formas diferentes, de várias cores e rótulos de letras gordas:
Cheiro dos meus filhos, bebés acabados de sair do banho.
Perfumes que marcaram várias fases felizes da minha vida.
Cheiro do mar.
Cheiro das noites africanas.
Cheiro de livros.
Cheiro da relva acabada de cortar.
Cheiro do pelo da cabecinha do meu James.
E sons? Será que consigo engarrafar sons? Sons de aviões a levantar voo, de ondas a bater no casco de um barco, de ventos enfunando velas, do batuque do samba que me faz saltitar os pés, sons de beijos repenicados, sons, sons de corações batendo um contra o outro num abraço apertado.
Descobri. Quero uma prateleira só de afectos.
É isso que falta na minha despensa para me poder saciar quando sinto estas faltas.

4 April 2009

( 18 ) PORQUE É FIM-DE-SEMANA

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3 April 2009

JULGAMENTOS


As pessoas pensam que conhecem as outras. Mas, na verdade, o que elas fazem, a toda a hora, é julgá-las. Ainda que inconscientemente. O facto é que estamos 24 horas sob julgamento alheio. Seja dos nossos amigos, dos nossos colegas de trabalho, dos nossos amores, da nossa família, da vendedora da mercearia do lado. As pessoas julgam-nos o tempo todo. Julgam pela marca da roupa que nós vestimos. Pelo carro que a gente conduz. Pelo tom de voz com que atendemos o telefone. Pelo modelo de telemóvel que usamos. Pela mala. Pela empresa onde trabalhamos. Pelo cargo que ocupamos. Pelo nosso corpo. Pela cor da nossa pele. Pelo nosso sexo. Pela nossa idade. E por uma outra infinidade de coisas que não significam nada no final das contas.
Conheço muita gente que anda de carro do ano (pago em sei lá quantas milhares de prestações) e mal tem dinheiro para pagar as contas no final do mês. Conheço gente que ganha o salário mínimo e usa calças Rocco Baroco. Conheço gente que tem o telemóvel mais caro do mercado e não tem dinheiro para pagar a conta.
Conheço gente que fala docemente e é sacana. Gente que fala alto e é um doce.
Gente nova que já viveu para vida inteira. Gente velha que ainda tem muito o que viver. Conheço mulheres que trabalham mais do que qualquer homem. E homens que têm medo de baratas no chão da cozinha. (conheço inclusive homens que têm medo de tudo, mas isso é uma outra história).
Não venham dizer-me se eu devo trabalhar mais ou trabalhar menos. Gastar mais ou gastar menos. Beber mais ou beber menos. Sair mais ou sair menos. Comer mais ou comer menos. Comer carne ou não. Comer comida japonesa ou não. Não me julguem pelo que eu faço, pelos lugares que eu frequento ou pelas pessoas com quem eu me relaciono.
Estou cansada de ser rotulada! Quem as pessoas pensam que são para definir quem são ou como são os outros?!?
Eu não sou um produto de prateleira de supermercado para que alguém venha e coloque um rótulo dizendo os meus ingredientes ou o modo de usar...
Eu não sou um objecto, nem tão pouco um produto que pode ser comercializado e tão pouco tenho manual de instruções.
Não sou como as pessoas pensam nem mesmo como elas me vêem.
Sou um ser humano e tenho sentimentos, tenho direito de mudar, de ousar, de sorrir, de chorar, de me doer com palavras, de falar baixo segredando e também tenho direito de gritar!
Portanto, vamos viver mais e julgar menos. Viver mais a nossa vida e preocuparmo-nos menos com a dos outros. Vamos parar de colocar rótulos em tudo. De comprar o produto pela embalagem. De achar que sabemos de antemão quem são as pessoas com quem lidamos.
Nunca sabemos.
Nem nunca saberemos.

2 April 2009

MENINA IRREQUIETA


Como é irrequieta a minha menina dos olhos. Dei-lhe o nome de Íris e de bem comportada não tem nada!
Vive a correr pelos campos cor de trigo onde mora. Encanta-se com as cores do mundo, brinca em lago sereno de lágrimas quentes ou é lavada quando elas se transformam em rios selvagens. Às vezes, recolhe-se numa nuvem de tristeza, mas logo se anima ao acompanhar uma borboleta.
Persegue crianças, aviões, pássaros e palavras em livros. Não há infantário para a pôr nem colégio que a eduque. Espreita o sol, mergulha no mar e esconde-se do escuro.
Fala quando devia estar calada, mas tem uma qualidade: nunca mente.
Curiosa como uma criança, a minha menina Íris só sossega de noite quando se prepara para assistir aos meus sonhos.

1 April 2009

ESTÁ TUDO DOIDO?


Este definitivamente não é o meu filme. Quando me obrigo a ver os telejornais, fico com a certeza que o mundo está louco. Antigamente mandavam-se as crianças à padaria, andar fazia bem à saúde e namorar no jardim era agradável.
Hoje vamos nós à padaria e voltamos sem pão e sem dinheiro, se é que voltamos. ( Ainda bem que tenho máquina de pão).
As crianças vão correr e voltam sem ténis, saem para namorar e voltam sem namorado.
Dizem-me que tenho que ter Fé em Deus, mas Deus gosta quando a gente ajuda e toma cuidado.
Agora, em toda a parte, em todo o mundo, aparecem como cogumelos venenosos, monstros que fizeram as suas filhas mães.
Alguém me diz quando isto vai parar? Tenho vontade de estudar a mente destes seres. Seria a pobreza e o sofrimento que despertaram neles alguma loucura? Existe a possibilidade das pessoas se tornarem psicopatas ou elas nascem assim? Psicopatia será mesmo um distúrbio? Em que momento pára o nosso limite do normal e começa o louco assassino? O mundo fez as pessoas enlouquecerem ou as pessoas estão a enlouquecer o mundo?
Daria para voltar atrás no tempo e mudar a história do mundo? Reescrever cada dia apagando a fome, a pobreza, o ódio e a inveja que gera até roubo e morte?
Viver é bom mas dá trabalho. É preciso ainda ter mais coisas para dificultar?
Vá com Deus - diz-me a minha mãe quando se despede de mim.
(Mas com o Deus certo -penso eu- cuidado com os disfarces espalhados por aí. Existem disfarces para tudo).
Que bom que era que todos estes horrores fossem histórias do Dia das Mentiras.