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23 July 2008

EU ATÉ NÃO GOSTO DE CALCINHA...


Desde bem pequenina que me lembro da minha mãe me dizer que eu poderia estar toda mal enjorcada, mas nunca com umas cuequinhas sujas, rotas ou rasgadas. O motivo é que eu poderia cair na rua, e pior, em frente de um rapaz.
Agora, oiço as minhas amigas dizerem às filhas para vestirem cuecas, nem que estejam sujas, furadas ou rasgadas, mas que vistam.
Parece portanto que a moda é não cobrir as respectivas pererecas...e que mudam-se os tempos...
Este fait-divers lembrou-me um poema genial que aqui vos deixo:

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss
O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma.

O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone.

A peruca virou aplique,
interlace,
megahair,
alongamento.

A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MMA
crise de nervos virou estresse.

A chita virou viscose
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse
Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou
anti-séptico bucal.

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service
A tristeza,
depressão
O espaguete virou Miojo pronto.

A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping
A areia virou ringue.

A caneta virou teclado
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3.

É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email
O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo.

O break virou street
O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro,
halloween.

O piano agora é teclado,
também
O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico.

Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike.
Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer.

Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e
TVBaby se converteu.

RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada
agora é perdida.

A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças.
Luis Fernando Veríssimo

29 February 2008

PALAVRINHA HORROROSA: QUASE... I

Ainda pior que a convicção do não,
é a incerteza do talvez,
é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda,
que me entristece,
que me mata
trazendo tudo que poderia ter sido,
e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga,
quem quase passou ainda estuda,
quem quase morreu está vivo,
quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades
que escaparam pelos dedos,
nas chances que se perdem por medo,
nas idéias que nunca sairão do papel
por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me,
às vezes,
o que nos leva a escolher uma vida morna;
ou melhor não me pergunto,
contesto.
A resposta eu sei de cor,
está estampada na distância
e frieza dos sorrisos,
na frouxidão dos abraços,
na indiferença dos "Bom dia",
quase que sussurrados.
Sobra covardia e
falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima,
o amor enlouquece,
o desejo trai.
Talvez esses
fossem bons motivos
para decidir entre a alegria
e a dor,
sentir o nada,
mas não são.
Se a virtude
estivesse mesmo no meio termo,
o mar não teria ondas,
os dias seriam nublados
e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina,
não inspira,
não aflige nem acalma,
apenas amplia o vazio
que cada um traz dentro de si.
Não é que fé
mova montanhas,
nem que todas as estrelas
estejam ao alcance,
para as coisas
que não podem ser mudadas
resta-nos somente paciência
porém,
preferir a derrota prévia
à dúvida da vitória
é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Prós erros há perdão;
prós fracassos, chance;
prós amores impossíveis,
tempo.
De nada adianta
cercar um coração vazio
ou economizar alma.

Um romance
cujo fim é instantâneo
ou indolor não é romance.
Não deixe
que a saudade sufoque,
que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino
e acredite em você.

Gaste mais horas
realizando
que sonhando,
fazendo
que planejando,
vivendo
que esperando
porque,
embora quem quase morre
esteja vivo,
quem quase vive
já morreu...
Luís Fernando Veríssimo ...
Pintura de João Carita