14 May 2009

AS CORES DO AMOR


Rosália morava numa rua sem nome. E era assim que diziam quando era necessário dar uma qualquer referência, fosse para o rapaz das pizzas ou o merceeiro que vendia verduras numa bacia equilibrada na cabeça - assim, você passa pela Rua dos Sonhos, depois vira à esquerda, em seguida vira na Rua da Desilusão e depois vira numa rua sem nome.
E a rua passou a ser chamada assim, “Rua Sem Nome”.
A casa de Rosália era uma casa com uma tonalidade meio amarelada, não sei se de um branco envelhecido ou um amarelo “tipo esquecido”.
Tinha telhado de barro com manchas de lodo. A porta da frente tinha uns desenhos abstractos que pareciam ter sido talhados com um enorme carinho.
Havia algumas flores do lado de fora com um certo ar de abandono, um pinheiro estranho do lado direito da casa e uma gaiola com um passarinho de brinquedo.
Os vizinhos de Rosália diziam que desde que o marido saiu de casa ela nunca mais viu o sol nascer sem ser através das persianas. Diziam que ela agora era uma mulher sorumbática e desleixada.
Para ela, os dias eram como se fossem um papel dobrado, uma, duas, três... cinco, sete, dez dobras.
Caminhava de uma forma serena pelas divisões da casa, mas passava a maior parte do tempo enfurnada dentro do quarto, com os cabelos desgrenhados, dando conta dos seus tiques nervosos.
Usava uma lavanda que lhe deram no dia do seu aniversário, aquelas de dois litros que duram uma eternidade. Vestia roupas leves e tinha uma feição tristonha.
Rosália escrevia poesias em folhas de papel pautado e depois de terminar os versos ritmados, amassava o papel e o fazia cinza em labaredas.
Os vizinhos diziam que o marido de Rosália era agressivo, que tinha um ar estranho, mas Rosália amava a forma dura, ou não, com que ele a tratava.
Até que um certo dia, nas caminhadas serenas dentro de casa, Rosália foi remexer as gavetas todas cheias de fotografias antigas e bilhetes rabiscados de sentimentos, cartões de Natal, convites de casamentos, um envelope. Rasgado, manchado e com uma carta escrita num papel amarelado.
Era dele. Escrita por ele, para ela.
No tempo em que o amor era uma janela aberta. Quando ele deixava a caneta escorregar no papel de um jeito tão manso que parecia afago.
No branco, agora amarelado.
Rosália lia, relia e chorava de forma compulsiva.
Não imaginava que um amor digno de talhar porta com desenhos abstractos, se tivesse coberto num rubro sangrado, num todo asco.
Ela chorava, chorava, até que os olhos se fecharam e o peito gritou num palpitar cansado que o amor não é um canto ensaiado, é um pintar da forma que quer, traçar da forma que quer.
O amor é solúvel, é palpável, é maleável e pode mudar seja com o anteceder do tempo ou com o passar do tempo.
E o amor às vezes, transforma-se em desamor ou num grande amor desbotado.
Rosália lia, relia e agora suspirava de uma forma quase epifânica. Como quem arrisca sorrir ao pensar em ir lá fora ver o sol nascer.
Observar de um ângulo que não seja o de dentro, a casa da Rua Sem Nome.
E num piscar de olhos, tentar tingi-la de qualquer cor, desde que não lembre um certo tom amarelado.

20 nhận xét :

ematejoca said...

Olá Blue!
Que história tão comovente, e com um final feliz.
Temos que concordar, que é uma felicidade para a Rosalina, e para nós, leitores, que ela compreenda, que o amor não é eterno. E que é um grande disparate morrer aos poucos de dor por causa dum homem!

Beijinhos e gostei muito do "amor desbotado", penso que, é o meu caso!
Teresa

Antonio saramago said...

Felizmente que nos dias de hoje já não se sofre dessa maneira por Amores.

Pitanga Doce said...

É, por vezes o amor muda de cor. Vai mudando até ficar transparente ou de uma cor inexistente, como o próprio amor.

bom dia Blue

Filoxera said...

Brevemente terei net e não perderei este e outros posts teus.
Beijos.

sagitario said...

pior do que um amor desbotado é nunca ter tido um amor.
Mas quase todas as Rosálias deste mundo compreendem a Rosália.
um dia bom

BC said...

Penso que a história da Rosália é tua, e está maravilhosamente bem escrita como sempre.
Como alguém diz, já ninguém morre de amores eu não estarei tão certa, o facto é que é preciso ultrapassar, porque se calhar esse amor não é merecedor dos nossos sacrifícios, e por isso temos que olhar em frente e seguir para o final feliz
Beijocas

BlueVelvet said...

BC
esta história não tem rigorosamente nada a ver comigo.
Felizmente não sofro de males de amor.
Beijinhos

ematejoca said...

Olá Blue!
Tu gostas tanto do Brasil, e o "ematejoca azul" tem dois selinhos brasileiros para ti!

Até logo!

ematejoca said...

Olá Blue!
Tu gostas tanto do Brasil, e o "ematejoca azul" tem dois selinhos brasileiros para ti!

Até logo!

maria inês said...

Males de amores... quem não os tem?

Patti said...

Triste, embora com uma réstia de esperança, Velvet, que é fundamental. Gostei imenso.

“Observar de um ângulo que não seja o de dentro, a casa da Rua Sem Nome.
E num piscar de olhos, tentar tingi-la de qualquer cor, desde que não lembre um certo tom amarelado.”
Fez-me logo lembrar do que eu ainda hoje eu li “Quando se olha muito tempo para o abismo, o mais certo é o abismo devolver esse olhar apra dentro de nós”.
Nietzsche

Donagata said...

Blue Velvet! Quando a menina falar de talento naquilo que eu escrevinho, tenha vergonha. Isto é talento. isto é algo de bonito, emotivo que nos puxa para lá, que nos faz sofrer com a Rosália, que nos faz vestir a sua própria pele...

Um beijo Graaaaaannnnnde. E espero que esteja (e está) a dar um biqueiro neste mau momento.

Justine said...

Acho o teu texto muitíssimo bem escrito. E mais: luminoso, como uma porta a escancarar-se para a vida:))

eu, do alto do meu salto said...

Simplesmente LINDO!

(não tenho mais palavras.... devem ter ido todas ter contigo :))

beijinhos

paulofski said...

Gostei bastante de conhecer e ter feito companhia à Rosália nem que tenham sido uns breves minutos.

Bjs. Bom fim-de-semana.

Antonio saramago said...

Que tenhas um FDS a teu gôsto, ou pelo menos bom!!!

Antonio saramago said...

A Luz do Amor é tão intensa, tão Maravilhosa que até nem se paga por ela.

Si said...

Este texto encheu-me as medidas, pela forma como as palavras se encheram de outros, tantos, significados e encontraram a forma perfeita de se exprimirem.
Gostei. Muito.
Beijinhos

P.S. Veja lá se guarda bem esses bicos que lhe confiei, no seu jardim, sim??? ;)

Sunshine said...

Por vezes é tão difícil aperceberm-nos que existe outro ângulo de visão diferente daquele que usamos. Esta descoberta é apenas o início... foi assim comigo.
É um prazer ler-te.
beijinhos com raios de sol

Oliver Pickwick said...

Boa garota, a Rosália. Enfim descobriu que jamais deveria ligar-se de modo tão intenso a qualquer coisa que pode ser descartável.
Um beijo!