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29 July 2008

O REVERSO DA MEDALHA


O meu blog não tem nem nunca teve como finalidade veicular as minhas ideias políticas.
Mas, citando Pierre Proudhon, a política é a ciência da liberdade.
E a liberdade é um ideal político para mim, por isso, em se tratando de liberdade não me calo.
Também sou visceralmente contra qualquer tipo de violência: desde a verbal à física, culminando na guerra ou na guerrilha.
Pior, se falarmos em terrorismo.
Mesmo para defender direitos inalienáveis ou repôr valores como a Justiça, a Democracia ou a Liberdade.
Em última instância se não houver como fugir, então os senhores da guerra que a façam, no caso os militares de carreira e nunca perdendo de vista que os civis deveriam sempre ser poupados.
Eu sei que esta conversa parece um blá blá de jovem alucinada, mas não é.
Pior ainda quando disser que vou voltar a falar de Ingrid Betancour.
Não dela, que é só a ponta do iceberg, mas de algo que sabia existir, mas de que desconhecia a verdadeira dimensão.
Confesso que talvez por ela ser a mais mediática sempre me interessei pelo seu caso. E como eu, que nada fiz para que fosse libertada, também se interessaram os que podiam fazer alguma coisa.
Porque esse era um joker com que sabiam ir ganhar a simpatia do mundo.
Só que se a guerra também se ganha através dos media, talvez que, se todos juntos formos denunciando o que se passa na Colômbia, as pessoas pelo menos se interessem em saber onde fica esse País.
Se interessem em saber o que são as FARC e porque existem.
Já disse e repito: não aprovo a sua existência e tão pouco os seus métodos. Mas só depois do massacre em Timor que todos vimos pela televisão o Mundo acordou para aquela realidade. Esperemos que não seja preciso um massacre igual, neste caso sobre os reféns das Farc.
Mas é imprescindível que se conheça a relaidade dos actos do Presidente Uribe.
Como a imprensa não os divulga um ou outro blog lá o vai fazendo.
Como se diz no Brasil, o buraco é mais em baixo e por isso sigo o seu exemplo.
Deixo-vos um relatório da Amnistia Internacional, que copiei do blog http://ocheirodailha.blogspot.com/ e que me deixou revoltada e horrorizada.
Lamento, mas mesmo que tudo o que possa fazer seja publicá-lo aqui, é isso que faço.
Aqui ficam mais alguns dados sobre a realidade colombiana nessa matéria, desta vez tirados de um relatório da Amnistia Internacional (AI).
Informa esse relatório que, «em 2007, aconteceram na Colômbia 280 execuções extra judiciais». As vítimas, na maioria camponeses, foram apresentadas pelos militares como sendo «guerrilheiros mortos em combate».
Por seu lado, os grupos paramilitares cometeram 230 assassinatos no mesmo ano de 2007. Ainda em 2007, estes grupos paramilitares - ligados, como se sabe, ao narcotráfico - «roubaram 4 milhões de hectares de terra a camponeses pobres».
Sempre segundo o relatório da AI, os que se queixam destes crimes à justiça correm sérios riscos, tal como os seus advogados de defesa.
Exemplos: Yolanda Isquierdo, advogada de várias famílias vítimas dos paramilitares, foi assassinada no dia 31/1/2007;
a advogada Carmen Romaña, que representava vítimas de roubos de terras, foi assassinada a tiro no dia 7/2/2007.
Quanto aos sindicalistas - que Uribe considera serem «elementos subversivos» - são alvos preferenciais da repressão.
Assim, informa a AI, durante as duas últimas décadas, foram assassinados 2. 245 sindicalistas e desapareceram 138 (estes desaparecimentos correspondem, regra geral, a assassinatos) - e 3. 400 sindicalistas estão ameaçados de morte.
Mais de 90% destes casos não foram sequer investigados - aliás, segundo a AI, «mais de 40 legisladores são suspeitos de ligação aos paramilitares»...
Eis, em resumo muito resumido e parcial, um retrato do governo de Uribe - que os média portugueses não se cansam de elogiar e apresentar como um exemplo de governo democrático.
Gravura Colômbia de Botero

18 July 2008

AFINAL HAVIA OUTRA...MULHER!


Quem me costuma ler está a pensar:
-A BlueVelvet gosta da Mónica Sintra?
Pois é. A menina que me desculpe, mas não gosto dela. Ou melhor, do que ela canta e do que ela simboliza.
De facto o título do meu post não tem nada a ver com a Mónica mas sim com a Ingrid Betancourt.
Desde a libertação da senhora, com a qual muito me congratulei ( babyvelvet 3/07), que uma coisa me andava a incomodar: a posição do Partido Comunista.
Como nunca acreditei que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço, e sei que não são pessoas diferentes de nós, ou seja, não têm as orelhas em bico como o Dr. Spock, nem escondem mais segredos inconfessáveis que qualquer outro grupo partidário ( política é política), começou por me fazer confusão o facto de o Grupo Parlamentar não ter votado na Assembleia o voto de congratulação pela libertação de Ingrid Betancourt. Mais confusão me fez quando passando por alguns blogs que sei estarem ligados ao Partido Comunista via uma espécie de alegria envenenanda.
Até parecia que não estavam contentes com a libertação da refém.
Como sempre gostei dos pontos nos iis e dos traços nos tts, tratei de ir investigar.
E descobri que:
1º
O Grupo Parlamentar do PCP apresentou no passado dia 4 um voto de congratulação na Assembleia da República sobre «Ingrid Betancourt em liberdade».
Nele se diziam, entre outras coisas que:

«Após seis anos de cativeiro na selva, é motivo de justa satisfação o regresso à liberdade de Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial colombiana.»
E após uma série de considerandos, terminava:
«1. Congratula-se pelo regresso à liberdade de Ingrid Betancourt.
2. Exprime o seu desejo de que a liberdade de Ingrid Betancourt possa contribuir para um caminho de paz para a Colômbia.
3. Apela às partes envolvidas para que encetem negociações no sentido da libertação de todos os prisioneiros.
4. Valoriza todos os esforços orientados para alcançar uma solução política negociada.
5. Apela às partes para que se empenhem na busca de uma solução política negociada do conflito, que dura há mais de quatro décadas.
6. Manifesta-se pelo respeito da soberania do povo colombiano na definição dos destinos do seu país.»
Portanto, o Partido Comunista apresentou sózinho um voto de congratulação, mas tal não foi referido pelos meios de comunicação social. Ou, se foi, não o foi com o mesmo destaque que deram ao facto de não ter votado o outro.

Agora pergunto eu:
Porquê? A quem incomodam aquelas palavras? Só pode ter sido por uma de duas razões: ou anticomunismo primário ou censura.
Qualquer das coisas não me agrada e uma delas, a censura, preocupa-me muitíssimo.
2º
Descobri também que a alegria que faltava nos tais blogs, se devia à preocupação com todos os outros reféns e com uma outra mulher também de apelido Betancour( escrito assim, por ser hispânica), de seu primeiro nome Sónia, que desde 22 de Abril vivia horas, dias, semanas e meses de angústia e de dor com a sua pequena filha Chiara Rivera.
É que, desde aquela data, não sabiam do paradeiro, estado ou situação de Guillermo Rivera Fúquene, seu marido e pai, comunista e membro do Polo Democrático Alternativo que governa o munícipio de Bogotá, e ainda e sobretudo Presidente do Sindicato dos funcionários da autarquia da capital do país.
Tinha sido visto pela última vez no já referido dia 22 de Abril, às 6.30 da manhã, numa rua do bairro «El Tunal» onde tinha ido levar a filha à escola, em Bogotá, onde residia. Uma testemunha e câmaras de video instaladas no local atestam que foi abordado por um grupo de agentes policiais e foi forçado a entrar num carro da Polícia Metropolitana.
Apesar de todas as iniciativas da família e dos seus companheiros e dos apelos de organizações sindicais internacionais, quatro meses depois do seu desaparecimento, as autoridades dependentes do Presidente Álvaro Uribe não tinham prestado nenhum esclarecimento cabal sobre este drama
Apareceu agora, assassinado e abandonado na rua.

Como não gosto nem de 2 pesos e 2 medidas nem de histórias mal contadas, aqui fica reposta a verdade quanto ao voto de congratulação do PCP, e aqui apresento as minhas condolências a Sónia Betancour.