6 April 2009

UMA PRATELEIRA DE AFECTOS

Olhava as prateleiras da minha despensa:

Esparguete, arroz, várias farinhas, alguns enlatados, poucos, especiarias, cereais, chocolates, azeite, enfim aquilo que é necessário para cozinhar aquilo que alimenta o nosso corpo.
Estava ali a olhar, tudo muito alinhado, por secções, com caixas todas da mesma cor.
Já tinha comido uma barrita de cereais, fruta, um iogurte, não era bem fome que eu sentia.
Era assim como que uma falta.
Descobri que preciso de mais uma prateleira onde possa pôr frascos. Frascos de formas diferentes, de várias cores e rótulos de letras gordas:
Cheiro dos meus filhos, bebés acabados de sair do banho.
Perfumes que marcaram várias fases felizes da minha vida.
Cheiro do mar.
Cheiro das noites africanas.
Cheiro de livros.
Cheiro da relva acabada de cortar.
Cheiro do pelo da cabecinha do meu James.
E sons? Será que consigo engarrafar sons? Sons de aviões a levantar voo, de ondas a bater no casco de um barco, de ventos enfunando velas, do batuque do samba que me faz saltitar os pés, sons de beijos repenicados, sons, sons de corações batendo um contra o outro num abraço apertado.
Descobri. Quero uma prateleira só de afectos.
É isso que falta na minha despensa para me poder saciar quando sinto estas faltas.

4 April 2009

( 18 ) PORQUE É FIM-DE-SEMANA

3 April 2009

JULGAMENTOS


As pessoas pensam que conhecem as outras. Mas, na verdade, o que elas fazem, a toda a hora, é julgá-las. Ainda que inconscientemente. O facto é que estamos 24 horas sob julgamento alheio. Seja dos nossos amigos, dos nossos colegas de trabalho, dos nossos amores, da nossa família, da vendedora da mercearia do lado. As pessoas julgam-nos o tempo todo. Julgam pela marca da roupa que nós vestimos. Pelo carro que a gente conduz. Pelo tom de voz com que atendemos o telefone. Pelo modelo de telemóvel que usamos. Pela mala. Pela empresa onde trabalhamos. Pelo cargo que ocupamos. Pelo nosso corpo. Pela cor da nossa pele. Pelo nosso sexo. Pela nossa idade. E por uma outra infinidade de coisas que não significam nada no final das contas.
Conheço muita gente que anda de carro do ano (pago em sei lá quantas milhares de prestações) e mal tem dinheiro para pagar as contas no final do mês. Conheço gente que ganha o salário mínimo e usa calças Rocco Baroco. Conheço gente que tem o telemóvel mais caro do mercado e não tem dinheiro para pagar a conta.
Conheço gente que fala docemente e é sacana. Gente que fala alto e é um doce.
Gente nova que já viveu para vida inteira. Gente velha que ainda tem muito o que viver. Conheço mulheres que trabalham mais do que qualquer homem. E homens que têm medo de baratas no chão da cozinha. (conheço inclusive homens que têm medo de tudo, mas isso é uma outra história).
Não venham dizer-me se eu devo trabalhar mais ou trabalhar menos. Gastar mais ou gastar menos. Beber mais ou beber menos. Sair mais ou sair menos. Comer mais ou comer menos. Comer carne ou não. Comer comida japonesa ou não. Não me julguem pelo que eu faço, pelos lugares que eu frequento ou pelas pessoas com quem eu me relaciono.
Estou cansada de ser rotulada! Quem as pessoas pensam que são para definir quem são ou como são os outros?!?
Eu não sou um produto de prateleira de supermercado para que alguém venha e coloque um rótulo dizendo os meus ingredientes ou o modo de usar...
Eu não sou um objecto, nem tão pouco um produto que pode ser comercializado e tão pouco tenho manual de instruções.
Não sou como as pessoas pensam nem mesmo como elas me vêem.
Sou um ser humano e tenho sentimentos, tenho direito de mudar, de ousar, de sorrir, de chorar, de me doer com palavras, de falar baixo segredando e também tenho direito de gritar!
Portanto, vamos viver mais e julgar menos. Viver mais a nossa vida e preocuparmo-nos menos com a dos outros. Vamos parar de colocar rótulos em tudo. De comprar o produto pela embalagem. De achar que sabemos de antemão quem são as pessoas com quem lidamos.
Nunca sabemos.
Nem nunca saberemos.

2 April 2009

MENINA IRREQUIETA


Como é irrequieta a minha menina dos olhos. Dei-lhe o nome de Íris e de bem comportada não tem nada!
Vive a correr pelos campos cor de trigo onde mora. Encanta-se com as cores do mundo, brinca em lago sereno de lágrimas quentes ou é lavada quando elas se transformam em rios selvagens. Às vezes, recolhe-se numa nuvem de tristeza, mas logo se anima ao acompanhar uma borboleta.
Persegue crianças, aviões, pássaros e palavras em livros. Não há infantário para a pôr nem colégio que a eduque. Espreita o sol, mergulha no mar e esconde-se do escuro.
Fala quando devia estar calada, mas tem uma qualidade: nunca mente.
Curiosa como uma criança, a minha menina Íris só sossega de noite quando se prepara para assistir aos meus sonhos.

1 April 2009

ESTÁ TUDO DOIDO?


Este definitivamente não é o meu filme. Quando me obrigo a ver os telejornais, fico com a certeza que o mundo está louco. Antigamente mandavam-se as crianças à padaria, andar fazia bem à saúde e namorar no jardim era agradável.
Hoje vamos nós à padaria e voltamos sem pão e sem dinheiro, se é que voltamos. ( Ainda bem que tenho máquina de pão).
As crianças vão correr e voltam sem ténis, saem para namorar e voltam sem namorado.
Dizem-me que tenho que ter Fé em Deus, mas Deus gosta quando a gente ajuda e toma cuidado.
Agora, em toda a parte, em todo o mundo, aparecem como cogumelos venenosos, monstros que fizeram as suas filhas mães.
Alguém me diz quando isto vai parar? Tenho vontade de estudar a mente destes seres. Seria a pobreza e o sofrimento que despertaram neles alguma loucura? Existe a possibilidade das pessoas se tornarem psicopatas ou elas nascem assim? Psicopatia será mesmo um distúrbio? Em que momento pára o nosso limite do normal e começa o louco assassino? O mundo fez as pessoas enlouquecerem ou as pessoas estão a enlouquecer o mundo?
Daria para voltar atrás no tempo e mudar a história do mundo? Reescrever cada dia apagando a fome, a pobreza, o ódio e a inveja que gera até roubo e morte?
Viver é bom mas dá trabalho. É preciso ainda ter mais coisas para dificultar?
Vá com Deus - diz-me a minha mãe quando se despede de mim.
(Mas com o Deus certo -penso eu- cuidado com os disfarces espalhados por aí. Existem disfarces para tudo).
Que bom que era que todos estes horrores fossem histórias do Dia das Mentiras.

31 March 2009

INDIFERENÇA


Passeando pela blogostera, que não pelo "meu bairro", mas pelo bairro de algumas vizinhas, deparei-me com algo que me podia ter deixado feliz. Eu merecia essa satisfação.
Mas tudo o que senti foi indiferença.
A mesma de que fala Martha Medeiros:
- Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bungee jumping, assistir aula de fraque, ganhar um Óscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus actos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência.
Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência.
Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos.
A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Não dá nem para sentir o doce gostinho da vingança. É tão bom ser bem formada!- Digo eu.

30 March 2009

( 1 ) POR ESSE MUNDO FORA...MEMORIES

CUBA Fotografia minha
Muitas vezes me tenho interrogado porque razão estou sempre pronta para partir.
Partir para viajar. Tinha 16 anos quando saí do País sozinha, mas antes disso já tinha feito várias viagens com os meus pais.
Desde aí, nunca mais parei e sou uma privilegiada por conhecer tantos e tão diferentes países e gentes.
Quem viaja muito sabe que acontecem coisas, umas boas, outras menos boas e às vezes até aventuras.
Acho que poderia escrever um livro com tudo o que vi e senti, mas como isto de escrever um livro não é para qualquer um, por isso, fico-me aqui pelo meu blog.
E mesmo assim, porque uma certa vizinha passa a vida a seringar-me para que o faça. Não sei se aquilo que irei contando terá grande interesse para quem não esteve lá, mas vale a intenção.
Vou começar por Cuba, apenas por um acaso. A vizinha Si fez um post há 2 dias, que me recordou um episódio muito divertido que me aconteceu em Cuba.
Esta não era a abordagem que tinha em mente quando pensei escrever sobre Cuba, mas calhou assim.
Porque Cuba tem tanto que se lhe diga, tem tanto para ver, pode ser vista com olhares tão diferentes, que uma dezena de posts bem longos não dariam para contar tudo o que vivenciei das duas vezes que lá fui.
Disse sempre que queria ir a Cuba com Fidel no poder e a Macau ainda sob administração portuguesa.Tive a sorte de conseguir ambas as coisas.
Mas, para os menos avisados, digo já que quem se meteu no avião em Lisboa e foi directo para Varadero, não pode dizer que foi a Cuba.
Quem não tiver ido a Cienfuegos,Trinidad, Santiago de Cuba e, naturalmente a Havana, ou almoçar a casa de uma família cubana, não sabe o que é Cuba.
Cuba é muito mais que os resorts e as praias maravilhosas. Ou melhor, Cuba não é Varadero, embora lá também me tenham acontecido coisas muito engraçadas.
Por hoje vou só contar esse tal episódio que o post da Si me recordou.
Nessa altura, eu e duas amigas, formávamos um grupinho a que os nossos maridos chamavam "As Lolas", sendo que uma era a "loira",( eu ) outra a "preta" por ser morena e a outra a " mais ou menos" por nem ser uma coisa nem outra.
Ainda hoje nos tratam assim.
Entre os vários passeios que se podem fazer, um deles é ir de catamaran a Cayo Coco ou de teco teco a Cayo Largo.
Como a "mais ou menos" se recusou a entrar no teco-teco fomos a Cayo Coco.
O Catamaran era enorme e lindo. Fomos recebidos com mojitos e Margaritas e aquela musiquinha que põe qualquer um a mexer.
A determinada altura um dos "marinheiros" informou-nos que embora estivéssemos na época em que era proibido apanhar lagostas, ele ia mergulhar e ver se encontrava algumas para o nosso almoço.
E assim foi. O catamaran ficou balançando docemente nas àguas quentes e transparentes, enquanto o intrépido mergulhador, sem máscara nem oxigénio nem nenhum acessório a não ser as mãos, se atirou para dentro de àgua à procura de uma lagostinha.
Ficámos suspensos do que iria acontecer, quando de repente ele aparece com uma enorme lagosta que atirou para dentro do catamaran, enquanto mergulhava de novo. Claro que a pobre da lagosta andava de um lado para ou outro, enquanto nós nos refugiávamos na rede onde ela não poderia chegar.
Minutos depois, lá aparece o mergulhador com nova lagosta e novo mergulho.
A certa altura já havia tantas lagostas como pessoas, e a risota era geral, porque parecia que as bichinhas tinham sido lá colocadas previamente para o nosso almoço.
Ficámos sempre com essa dúvida, que preferimos não aprofundar.
Depois do fantástico almoço, da caminhadas na praia deserta da ilha, com areia fininha e branca, iniciámos o passeio de volta.
Foi aí que 5 músicos que até aí não tínhamos visto, apareceram e começaram a tocar quase todos conhecemos e amamos: desde Rumba Azul e Maria La-Ô ao eterno "Hasta Siempre" e ao delicioso Beso Discreto.
Claro que nos desafiaram a dançar e iam-nos ensinando os passos.
Foi então que aconteceu uma coisa que me iria perseguir durante toda a estadia em Cuba:
A letra de Beso Discreto, tem uma parte no estribilho que diz assim:
Para besar-te asi, mi amor,
asi,
asi,
asi
Um dos músicos, novo e bem parecido, enquanto cantava o Beso Discreto, de cada vez que chegava a esta parte, pregava-me um sonoro beijo num ombro, primeiro perante o meu espanto, e depois perante o riso geral.
Resultado: durante o resto da viagem e ainda hoje, as minhas amigas, a propósito de nada, me dizem com um ar malandro:
O que tu queres é um Beso Asi, Asi, Asi.

Nota: a fotografia retrata o momento da apanha da 1ª lagosta...

29 March 2009

( 30 ) NÃO RESISTI



Ela passou o primeiro dia empacotando todos os seus pertences em caixas, caixotes e malas.
No segundo dia, ela chamou os homens da transportadora que levaram a mudança.
No terceiro dia, ela se sentou pela última vez na bela mesa da sala de jantar, à luz de velas, pôs uma música suave e se deliciou com uns camarões, um pote de caviar e um garrafa de Chardonnay.
Quando terminou, foi a cada um dos aposentos e colocou alguns pedaços de casca de camarão besuntadas com caviar nas cavidades dos varões das cortinas.
Depois limpou a cozinha e se foi.
Quando o marido retornou com a nova namorada, tudo estava um brinco nos primeiros dias.
Depois, pouco a pouco, a casa começou a feder.
Eles tentaram de tudo: limpando, lavando e arejando a casa..
Todas as aberturas de ventilação foram verificadas à procura de possíveis ratos mortos e os tapetes foram limpos com vapor.
Desodorizantes de ar e ambiente foram pendurados em todos os lugares.
A empresa de combate a insectos foi chamada para colocar gás em todos os encanamentos durante alguns dias, durante os quais tiverem de sair da casa, e no fim ainda tiveram de pagar para substituir o caríssimo tapete persa.
Nada funcionou.
Os amigos pararam de visitá-los.
Os funcionários das empresas de consertos se recusavam a trabalhar na casa.
A empregada demitiu-se.
Finalmente, eles não suportaram mais o fedor e decidiram mudar-se.
Um mês depois, apesar de terem reduzido o valor da casa em 50%, não conseguiram um comprador para a casa fedorenta.
A notícia espalhou-se e nem mesmo corretores de imóveis locais retornavam as ligações.
Finalmente, tiveram de fazer um grande empréstimo no banco para comprar uma casa nova.
A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas.
Ele contou-lhe o martírio da casa podre.
Ela escutou pacientemente e disse que sentia muitas saudades da casa antiga e que estaria disposta a reduzir a parte que lhe caberia do acordo de separação dos bens em troca pela casa.
Sabendo que a ex-mulher não tinha ideia de como estava o fedor, ele concordou com um preço que era cerca de 10% do que valeria a casa.
Mas só, se ela assinasse os papéis naquele dia mesmo.
Ela concordou e em menos de uma hora, os advogados deles entregavam os documentos.
Uma semana depois, o homem e sua namorada assistiam, com um sorriso malicioso, os homens da mudança empacotando tudo para levar para a sua nova casa...
incluindo os varões das cortinas...

28 March 2009

PORQUE É FIM-DE-SEMANA

MySpace-Comments

When Charles deGaulle decided to retire from public life, the British ambassador and his wife threw a gala dinner party in his honor.
At the dinner table, the Ambassador's wife was talking with Madame deGaulle:
-Your husband has been such a prominent public figure, such a presence on the French and international scene for so many years! How quiet retirement will seem in comparison. What are you most looking forward to in these retirement years?"

"A penis," replied Madame de Gaulle.

A huge hush fell over the table.

Everyone heard her answer... and no one knew what to say next.

Le Grand Charles leaned over to his wife and said: "Ma cherie, I believe ze English pronounce zat word,"Appiness!"

27 March 2009

BRINCANDO DE MÃE


Conduzia hoje o meu carro quando vi cair da janela do laranja que ia à minha frente, uma boneca.
Assustei-me porque de repente pensei que fosse um bébé. Na verdade, hoje em dia, já poucas coisas me admiram.
Respirei de alívio quando vi que era uma boneca, mas senti uma tristeza estranha quando o laranja passou, eu passei, os outros carros passaram, e a boneca ali ficou, caída e abandonada.
A vontade que tive foi de parar o carro, apanhá-la mesmo já suja , alcançar o autocarro e devolver a filha querida aos braços daquela pequena mãe que estaria em prantos, desesperada.
Mas não sou nenhuma super- mulher com super poderes para conseguir fazer isso tudo num piscar de olhos.
Se fosse com uma filha minha teria suplicado ao condutor que parasse o autocarro para a ir apanhar.
Mas nada disso aconteceu.
Fiquei então a pensar como estaria a pequena mãe? O seu pequeno coração já teria experimentado outras perdas ou essa seria a primeira de muitas?
Uma outra mãe estaria ao seu lado consolando-a, ou seria um pai a dizer que já havia repetido mil vezes para não colocar a boneca na janela?
Como responder que estavam a divertir-se as duas e que ela queria apenas mostrar o mundo à sua pequena filha?
Estaria a pequena mãe imaginando a sua filha, só de fraldas, braços e olhos abertos, atirada numa berma da estrada?
Dá-me uma raiva ver crianças a sofrer.
Mesmo que seja por perderem a sua boneca favorita.