26 April 2009

( 33 ) NÃO RESISTI




Uma mulher nunca se atrapalha.

25 April 2009

PORTUGAL RESSUSCITADO


Depois da fome, da guerra
da prisão e da tortura
vi abrir-se a minha terra
como um cravo de ternura.

Vi nas ruas da cidade
o coração do meu povo
gaivota da liberdade
voando num Tejo novo.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido

Vi nas bocas vi nos olhos
nos braços nas mãos acesas
cravos vermelhos aos molhos
rosas livres portuguesas.

Vi as portas da prisão
abertas de par em par
vi passar a procissão
do meu país a cantar.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido

Nunca mais nos curvaremos
às armas da repressão
somos a força que temos
a pulsar no coração.

Enquanto nos mantivermos
todos juntos lado a lado
somos a glória de sermos
Portugal ressuscitado.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido.

José Carlos Ary dos Santos

(Caxias, 26 de Abril de 1974)

24 April 2009

WAITING FOR A CALL...


Dez anos de namoro. Formaram-se no mesmo colégio em anos diferentes, mas estavam juntos. Formaram-se na faculdade em épocas diferentes, mas estavam juntos. Foram padrinhos de casamento do irmão dele, baptizaram a filha da prima dela. Ganharam amigos novos, perderam pessoas da família.
Dez anos é uma vida.
Estávamos em meados da Primavera e caía a tarde. Ela decidiu, depois de meses a pensar no assunto, colocar um ponto final na relação. Conversaram e ela explicou-lhe que já não gostava dele como no início, que não era sentimento e sim costume, hábito, coisas pequenas que já faziam parte do quotidiano comum.
Separaram-se.
Ela sentindo-se óptima, leve, ele nem tanto.
Ambos esperaram por uma ligação nos dias seguintes, ela mais do que ele.
Em fins de Julho ele comemorou um mês de namoro com uma outra mulher.
Já se foram dez meses e ela, ainda hoje, continua a chorar olhando para o telefone mudo.

23 April 2009

*...


Maravilha-me a pele, aquece-me os pés, acalma-me os olhos
Faz-me cócegas no coração, acalenta-me os nervos, afaga-me a alma
Rouba-me os versos, paralisa-me os verbos, cala-me os medos
Faz-me vestir de flores, vê-me pintar os lábios, tira-me os receios
Resolve-me mulher, acende-me a pele, rasga-me a carne
Adivinha-me exausta, vela-me o sonho, enternece-me criança
Amanhece-me os sentidos, rouba-me a preguiça, faz-me café
Mata-me de rir, trata-me os caprichos, concede-me as vontades
Faz-me o bem, faz-me melhor, faz-me falta.

22 April 2009

PELA CONDUTA ABAIXO


Ando com um problema que espero, a vizinhaça me ajudará a resolver.
O Sebastião, que como sabem é a minha sombra branca, ( há quem tenha uma negra...) é muito meigo. Meigo demais. É assim uma espécie de melga.
Para alguém saber onde estou em determinada parte da casa, basta procurar por ele. Eu estarei a dois passos.
Bastas vezes já aconteceu eu tropeçar nele e quase me esparramar no chão, porque tem a mania de se meter debaixo dos meus pés. E também já tem acontecido de lhe pisar a cauda, coisa a que ele não acha muita graça.
Quando há dois anos e quase meio, o meu fiel companheiro de treze anos partiu para um jardim que eu imagino infinito e cheio de flores, onde pode brincar com todos os amiguinhos que partiram antes dele, a tristeza e a saudade instalaram-se no meu coração.
Assim, foi com algumas reticências que recebi o Sebastião quando os meus filhos me fizeram a surpresa de mo oferecer.
Surpresa tanto maior porque ele é um Terrier do Tibete, cão sagrado do Dalai Lama, a raça mais cara e rara do mundo. Não existem em Portugal e só em Nova Iorque se encontram os melhores exemplares. Por isso, um bébé, com o transporte e o seguro ronda os dois mil euros.
Mas, ou não estivesse ele no coração de Wall Street, o meu filho está sempre pronto para fazer bons negócios.
Descobriu o Sebastian em Nova Iorque, mas tinha um senão: tinha 2 anos e ele sabia que eu queria um bébé. Mas, os donos preparavam-se para se mudar para uma penthouse num prédio que não admitia animais, pelo que o pobrezinho foi para um canil.
Estranhando não ver no elevador a dog-sitter do cão informou-se e soube que o mesmo já estava no canil há 3 meses.
Daí a ir buscá-lo, tratar da papelada e enviar-mo foi um àpice.
Acontece que esperto como é, mal cá chegou, embora assustado com a viagem e com o ambiente desconhecido, tratou de conquistar-me e a toda a família.O que, diga-se de passagem, conseguiu.
Não sei se é pelas mordomias que tem: dorme em cima da minha cama, exactamente em cima dos meus pés, só come ração vegetariana,os biscoitos, também vegetarianos, vêm de Nova Iorque, vai passear no jardim 4 vezes ao dia, tem brinquedos, tem direito a uma fatia de bolo e 2 lambidelas de champanhe em dias de festa, e muitos outros mimos.
Vai daí, que além de estar sempre ao pé de mim, faz palhaçadas quando quer atenção e dá-me linguados que vão do queixo à testa. Ou seja, é meigo. Dá e quer carinhos, a toda a hora.
Ora, li hoje no blog do vizinho Pedro que um casal que estava em processo de adopção, devolveu a criança, porque ela era muito meiga. Segundo parece, dava e pedia muitos carinhos. O que é, evidentemente, anormal numa criança, mais ainda adoptada!!!
Sendo que o Sebastião é um cão, o meu dilema é:
Devolvo-o ou atiro-o pela conduta do lixo?

21 April 2009

JOGOS DE CHOCOLATE


Reuniu os seus melhores sorrisos e escolheu a dedo as suas expressões na frente do espelho. Leve, queria deixar tudo leve e claro, a expressão do rosto, a voz, o ritmo de sua fala, a sua dicção. Decidiu que ia escutar mais do que falar.
Lavou os cabelos e obrigou-os a ficarem exactamente da forma que ele mais gostava. Não pôs batom para parecer natural e despreocupada. Ainda molhada espalhou umas gotinhas de óleo pelo corpo, só para ficar com um cheiro tão mas tão discreto que ele só perceberia se ficasse muito juntinho dela.
Demorou mais de 40 minutos em frente ao roupeiro para afinal escolher uns jeans confortáveis e um camiseiro branco. Calçou uns all star vermelhos e colocou um o cd do Frank Sinatra. Logo de seguida trocou porque achou que ele poderia achá-la muito romântica, em pleno fim de tarde de sábado, escutando aquelas músicas que parecem ter cheiro de whisky. Colocou Nina Simone. Preparou a cozinha para que estivesse tudo pronto para servir os canapés que tinha feito e oferecer um gin tónico assim que ele chegasse. Ou um whisky?
Imaginou-o já ali, sentado na cadeira, mexendo em qualquer coisa que estivesse em cima da mesa enquanto contava coisas da sua vida. Imaginou a cena e a conversa, e imaginou também que nessa situação sentiria muita vontade de cozinhar.Melhor começar já, para disfarçar.
Ansiosa como estava, abriu o frigorífico e não encontrou nada que a inspirasse. Algo doce. Chocolate! Isso mesmo.
Enquanto preparava um Sachertarte, entre ovos, farinha integral, açúcar mascavado e chocolate ficou ali à espera, com as mãos enfarinhadas, apreensiva, a chegada do homem que guardava nos seus bolsos um mundo cheiinho de possibilidades.

20 April 2009

PERSEGUIÇÕES


As pessoas perseguem sonhos
como crianças correm atrás de bolas de sabão.
Porque é divertido.
Não importa se os alcançam ou não.
As pessoas perseguem sonhos como um cão atrás de um carro,
não por que os querem realmente.
Só para se enganarem.
As pessoas perseguem sonhos como o vento as folhas,
porque estes sonhos
quando alcançados, as adormecem
em noites sem sono.
As pessoas...

19 April 2009

( 32 ) NÃO RESISTI


Susan Boyle Britains Got Talent 2009 -

Não costumo pôr vídeos neste blog. Guardo-os para o surfinginthewind, o meu outro blog que ninguém lê mas que me diverte.
Mas desta vez, NÃO RESISTI.
Isto de julgar as pessoas pela aparência nem sempre tem o resultado esperado.

Nota: Parem a música do blog, na coluna do lado esquerdo. Vale a pena.

18 April 2009

( 20 ) PORQUE É FIM - DE- SEMANA



Porque todos os dias são bons para não ver televisão e brincar com os nossos animais.

17 April 2009

SE EU FOSSE HOMEM


Eu cheguei lá em forma de envelope.
Um papel com textura macia e de um azul clarinho, bonito.
O carteiro deve ter-me entregue pessoalmente e só ele pôde ver aquele sorriso bonito estampado no rosto dela.
Naturalmente os olhos ficaram apertados de alegria e a face corada, como ficava quando a timidez me permitia desabrochar sentimentalidades, mesmo que confusas ou certeiras demais. Porque nem sempre eu guardava tudo o que me sacudia, mas uma vez por outra recuava algumas nas atitudes, para evitar reacções negativas.
Ela desligou a chaleira que fervia a água para fazer chá - ela faz sempre chá a meio da tarde - foi para o quarto e sentou-se na beirinha da cama.
O azul das paredes parecia mudar para um azul também clarinho, como o do envelope, como um degradé, e sem entender o porquê da minha visita... ela rasgou-me.
Com os mesmos dedos finos e macios com que me acariciava os cabelos quando o sono baixava as pálpebras e me fervia os pensamentos que não passavam, por um triz, dos pensamentos dela... muito embora eu quisesse.
Certamente ela tinha sentimentos sinceros e mais leves que o meu e na certa não sofria como sofro.
E então, ela puxa-me sem medo, do todo. Talvez tenha pensado que eu teria chegado em forma de envelope apenas como mais um dos meus mimos.
E eu cheguei com o cheiro do mesmo perfume que uma vez ela disse ser bom.
Tudo que tinha dentro de mim de azul, foi posto em vermelho, para intensificar o que sentia todos os dias e me fazia faltar o ar.
Então ela segura-me com toda aquela delicadeza que só ela tem.
Passa pausadamente os olhos bonitos de sempre, com uma única certeza, a de não estar a perceber nada sobre a minha súbita visita, apesar de eu ter lhe arrancado um leve sorriso a princípio.
Sei que no início seria de uma estranheza maior do que a que me possui, mas eu não podia silenciar, não desta vez.
E com palavras alheias, descrevi o que era fumegante e bonito, de uma beleza que eu jamais poderia partir sem antes dizer:

"Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inutil"*
e...
eu fui, mas deixei com ela o envelope e tudo o que crescia em mim, mesmo que sem o seu consentimento.
*Excerto de um poema de Fernando Pessoa