Não sou de ter amigas normaizinhas. Não tenho paciência para gente que não tem um pouco de loucura.
Que fazem coisas que ninguém espera ou que gostam de desafiar convenções.
Uma das coisas que faço é, seja onde for, no restaurante mais chic do mundo ou em casa, só como morangos inteiros, à mão. Agarro num, mergulho-o no chantilly e vou dando dentadinhas. Nunca me hei-de esquecer do ar absolutamente escandalizado do chef do Tavares quando me viu fazer isso. E eu tinha 16 anos!
O ano passado quando os Sheiks deram um concerto no Trindade, fui com um grupo de amigos vê-los e caí na asneira de calçar uns sapatos de salto muito alto, partindo do princípio que os senhores nos deixariam à porta do teatro. O que fizeram. Mas à saída, fomos informadas que só tinham arranjado lugar para os carros na Praça do Município.
É sabido que a nossa calçada portuguesa é lindíssima, mas inimiga de saltos altos. A escadaria que desce para o S. Carlos ainda aguentei. Depois, decidi que a única hipótese era tirar os sapatos, e lá fomos, cantando a plenos pulmões os êxitos acabados de ouvir, comigo descalça e de sapatos na mão.
Pois bem, eis que a semana passada, uma dessas amigas me telefonou, e depois dos cumprimentos habituais se sai com esta:
- Então, já começaste a fumar charros?
- .....
- Alôooo, estás aí?
- Estou, mas estou a pensar na resposta.
- Não há nada que pensar. É sim ou não.
- Pois, é não. Nunca fumei charros na vida, nem no meu tempo de adolescente, e não é agora que vou começar.
- Pois não sabes o que perdes.
- Mas olha lá, tu estás boa da cabeça?
- Perfeita. Os dedos é que me doem um bocado, porque dá um trabalhão a enrolar.
- ......
Confesso que comecei a ficar encanitada com a conversa. Se há coisa em que sou o mais fundamentalista possível é no que diz respeito a drogas, e não admito o argumento que erva não é droga, que faz menos mal que o tabaco, e blá, blá, blá.
- Olha lá, mas tu endoidaste? Já imaginaste se o teu marido ou o teu filho descobrem?
- Ah! Acharam uma óptima ideia. Levei um dia até conseguir enrolar o primeiro como deve ser, mas agora até já lhes consigo pôr filtro e tudo. Até forrei uma caixinha em cor-de-rosa com bolinhas ( ela adora bolas), para os guardar. Espera lá que te vou mandar por mail, para veres. Filtro? Em charros? Comecei a achar a conversa surrealista mas lá fiquei à espera de ver o mail. ( a caixinha e os ditos estão na imagem acima).
- Pois, a caixinha está muito bonita, os cigarritos também, mas se queres que te diga, acho isso uma ideia que não me agrada nada e ficava muito contente se te deixasses disso.
Esta minha amiga tem a particularidade de ser muito criativa e de me contar coisas que me põem os cabelos em pé, mas só quando me vê em ponto de rebuçado, resolve desmistificar os assuntos.
Então sai-se com esta:
- He, he, apanhei-te. Tu não me digas que ainda não aderiste à moda.
- Moda?
- Sim, criatura. Dadas as dificuldades financeiras e com o aumento do tabaco, as senhoras desataram a comprar tabaco, mortalhas e filtros, fazem os cigarros, põem-nos num maço de tabaco e em vez de gastarem 3,5€ por dia, gastam 5€ de 15 em 15 dias. Agora faz as contas.
- .....
Fiquei sem palavras. Não sabia se me ria, se me zangava com ela.
Certo é, que ainda que num tom de voz não muito alto dado que não me sentia assim muito à vontade, no dia seguinte lá fui à papelaria da esquina e perguntei:
- Tem tabaco em caixinhas e mortalhas?
- Ah, a Srª Drª também vai aderir à moda????
- Bem, não sei bem se é por ser moda, mas parece que é mais barato.
- Tenho várias marcas, conforme o gosto, e até tenho umas máquinas que fazem tudo sozinhas. É só meter lá dentro o tabaco, as mortalhas e o filtro e sai o cigarrinho já pronto.
- Hum, então dê-me o que for mais parecido com Marlboro, as mortalhas e os filtros.
Ontem passei boa parte do dia a tentar enrolar o cigarito. Mas como saía sempre tabaco, ou de um lado ou do outro, hoje voltei lá e comprei a maquineta.
Já tenho uma caixa de Marlboro cheia de cigarrinhos e são óptimos.
Só quero ver a cara da minha mãe quando puxar de um à frente dela.
Uma coisa é certa:
Nada como a necessidade para aguçar o engenho!