16 April 2009

TELEPATIA


Já há uns dias que penso seriamente em inscrever-me num curso à distância chamado "Como enviar de forma segura mensagens telepáticas".
Porque no meu auto didactismo de desenvolver a técnica, sinto que quase consegui. Só que a ligação às vezes cai ou não sincroniza e não fica estabilizada.
Por esse motivo a mensagem fica presa, com erros ou só segue metade.
Telepatia serve quando nenhum atalho, nenhuma fresta aberta de janela, nenhuma porta da frente da casa destrancada, nenhuma música que possa ser enviada, nenhum link que esteja disponível, nenhuma letra ou número ou qualquer outro sinal visível, servem para gritarmos que estamos sozinhos.

15 April 2009

DOENÇA TERMINAL


Sr.Dr. a minha filha, queixa-se de que tem dores no peito todo o santo dia! Não sei o que é. Chora pelos cantos da casa. Sr. Dr. uma menina da idade dela, será que tem algum problema de coração?
- Diga-me, há casos de cardíacos na sua família?
- O meu pai! O meu pai tinha o coração aumentado, sr.Dr.
- Então amanhã traga-me a sua filha para eu a poder examinar.

- E então, sr. dr. o que dizem os exames?
- Minha senhora, não é muito grave... é exactamente o que eu imaginava...
- E o quê que a minha filha tem doutor? Aaaande. Diiiga!
- A sua filha tem o coração aumentado!
- Ai minhanossasenhoradefátima! Não acredito! E agora?
- Será preciso fazer uma drenagem interna.
- Drenagem? No coração? E como é isso doutor?
- O coração da sua filha tende a crescer um pouco mais todos os anos. E só a drenagem poderá resolver a situação..
- É?
- É! Mas há algumas complicações para este tratamento.
- Ó Valha-me Deus! E quais são Dr.? Diga-me...
- Minha senhora, o problema é que...amor nem sempre tem cura!

14 April 2009

REZANDO

Alessandro Barroucu

- Beija-me.
- hãm?
- Pedi para me beijares.
- Beijar-te?
- Sim.
- Mas... porquê? Muda alguma coisa? Muda o amanhã?
- Ah, sei lá... quem é que sabe do amanhã? Eu sei do agora, e agora eu quero um beijo teu.
E ela ficou em silêncio pensando que... quando não há sentimento, o amanhã é como um papel branco, um dia branco. Mas quando há sentimento, o amanhã é feito com aqueles tubinhos de aguarelas que enchem de cores toda a brancura de incertezas dos dias.
- Beija-me, anda...
Ele beijou-a e mais tarde, na cama, deitada ao lado dele, ela pôs as mãos e pediu a Deus que no dia seguinte o sol nascesse colorido de mil cores.

13 April 2009

ROTUNDAS DA VIDA


Ela ia e ele voltava. Ela de carro, ele de moto. Os seus olhares encontraram-se, fazendo girar lentamente as cabeças enquanto um passava pelo outro.
Ele desacelerou, ela fez a curva olhando pelo retrovisor. No sinal vermelho sentiram saudades.
E foram-se, felizes para sempre.

12 April 2009

( 31 ) NÃO RESISTI

11 April 2009

( 19 ) PORQUE É FIM-DE-SEMANA...DE PÁSCOA

Para todos os veludinhos e veludinhas que são meus vizinhos um miminho. É vosso.


10 April 2009

KING OF PAIN

9 April 2009

INFÂNCIA


Houve um tempo em que eu acreditava que algodão doce era nuvem com açúcar.
Houve um tempo em que eu acreditava que as bonecas, os brinquedos e os peluches tinham vida própria e despertavam quando eu adormecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que o mundo era um lugar lógico e seguro, e que até podiam acontecer coisas más de vez em quando, mas que no fim, tudo acabava bem.
Houve um tempo em que eu acreditava que as pessoas que amamos nunca morriam, nunca envelheciam, ficavam sempre iguais, à revelia do tempo.
Houve um tempo em que eu acreditava que os adultos sabiam tudo, não tinham dúvidas nem medos, e não erravam nunca.
Houve um tempo em que eu acreditava que se fechasse os olhos e pedisse com fé algo que desejasse muito, isso acontecia.
Houve um tempo em que eu acreditava que quando crescemos nos tornamos livres e podemos tudo.
Foi-se esse tempo.

8 April 2009

(2) JÁ TIVE OUTRA VIDA!


Passo horas no computador. A descobrir o que se passa no mundo. A descobrir números. A procurar saídas.
Como gomas em forma de amora. Uma a uma deixo-as derreter na boca.
Os dedos ficam pretos. Esta porcaria é só corantes. E fico agoniada. Mas gosto de estar entretida enquanto descubro o mundo e os números e as coisas.
Passo horas no computador.
Antes desta vida já vivi outra. Fiz cerelac e vesti-os. Mudei fraldas e perdi noites. Dei-lhes a mão e levei-os ao colégio. À ginástica, ao judo, ao francês.
Passo horas no computador.
Enjoada das gomas mudo para marshmallows. Com o sorriso fácil das pessoas burras. Entretida com o sabor doce na boca e os amigos nas pontas dos dedos.
Antes desta vida já vivi outra. Ajudei nos trabalhos de casa. Aplaudi as competições desportivas. Ri-me com os primeiros amores.
Passo horas no computador. Com o mundo, com os números. Com os caracteres que me preenchem e me tentam convencer que todas as esperas valem a pena.
E passo horas a tentar que o mundo, os números e a agonia doce das gomas me afastem pensamentos inoportunos.
Aquela história de que o que não tem remédio, remediado está, não serve para tudo na vida!

7 April 2009

(2) CONVERSAS DE VELUDO


Não sou de ter amigas normaizinhas. Não tenho paciência para gente que não tem um pouco de loucura.
Que fazem coisas que ninguém espera ou que gostam de desafiar convenções.
Uma das coisas que faço é, seja onde for, no restaurante mais chic do mundo ou em casa, só como morangos inteiros, à mão. Agarro num, mergulho-o no chantilly e vou dando dentadinhas. Nunca me hei-de esquecer do ar absolutamente escandalizado do chef do Tavares quando me viu fazer isso. E eu tinha 16 anos!
O ano passado quando os Sheiks deram um concerto no Trindade, fui com um grupo de amigos vê-los e caí na asneira de calçar uns sapatos de salto muito alto, partindo do princípio que os senhores nos deixariam à porta do teatro. O que fizeram. Mas à saída, fomos informadas que só tinham arranjado lugar para os carros na Praça do Município.
É sabido que a nossa calçada portuguesa é lindíssima, mas inimiga de saltos altos. A escadaria que desce para o S. Carlos ainda aguentei. Depois, decidi que a única hipótese era tirar os sapatos, e lá fomos, cantando a plenos pulmões os êxitos acabados de ouvir, comigo descalça e de sapatos na mão.
Pois bem, eis que a semana passada, uma dessas amigas me telefonou, e depois dos cumprimentos habituais se sai com esta:
- Então, já começaste a fumar charros?
- .....
- Alôooo, estás aí?
- Estou, mas estou a pensar na resposta.
- Não há nada que pensar. É sim ou não.
- Pois, é não. Nunca fumei charros na vida, nem no meu tempo de adolescente, e não é agora que vou começar.
- Pois não sabes o que perdes.
- Mas olha lá, tu estás boa da cabeça?
- Perfeita. Os dedos é que me doem um bocado, porque dá um trabalhão a enrolar.
- ......
Confesso que comecei a ficar encanitada com a conversa. Se há coisa em que sou o mais fundamentalista possível é no que diz respeito a drogas, e não admito o argumento que erva não é droga, que faz menos mal que o tabaco, e blá, blá, blá.
- Olha lá, mas tu endoidaste? Já imaginaste se o teu marido ou o teu filho descobrem?
- Ah! Acharam uma óptima ideia. Levei um dia até conseguir enrolar o primeiro como deve ser, mas agora até já lhes consigo pôr filtro e tudo. Até forrei uma caixinha em cor-de-rosa com bolinhas ( ela adora bolas), para os guardar. Espera lá que te vou mandar por mail, para veres. Filtro? Em charros? Comecei a achar a conversa surrealista mas lá fiquei à espera de ver o mail. ( a caixinha e os ditos estão na imagem acima).
- Pois, a caixinha está muito bonita, os cigarritos também, mas se queres que te diga, acho isso uma ideia que não me agrada nada e ficava muito contente se te deixasses disso.
Esta minha amiga tem a particularidade de ser muito criativa e de me contar coisas que me põem os cabelos em pé, mas só quando me vê em ponto de rebuçado, resolve desmistificar os assuntos.
Então sai-se com esta:
- He, he, apanhei-te. Tu não me digas que ainda não aderiste à moda.
- Moda?
- Sim, criatura. Dadas as dificuldades financeiras e com o aumento do tabaco, as senhoras desataram a comprar tabaco, mortalhas e filtros, fazem os cigarros, põem-nos num maço de tabaco e em vez de gastarem 3,5€ por dia, gastam 5€ de 15 em 15 dias. Agora faz as contas.
- .....
Fiquei sem palavras. Não sabia se me ria, se me zangava com ela.
Certo é, que ainda que num tom de voz não muito alto dado que não me sentia assim muito à vontade, no dia seguinte lá fui à papelaria da esquina e perguntei:
- Tem tabaco em caixinhas e mortalhas?
- Ah, a Srª Drª também vai aderir à moda????
- Bem, não sei bem se é por ser moda, mas parece que é mais barato.
- Tenho várias marcas, conforme o gosto, e até tenho umas máquinas que fazem tudo sozinhas. É só meter lá dentro o tabaco, as mortalhas e o filtro e sai o cigarrinho já pronto.
- Hum, então dê-me o que for mais parecido com Marlboro, as mortalhas e os filtros.
Ontem passei boa parte do dia a tentar enrolar o cigarito. Mas como saía sempre tabaco, ou de um lado ou do outro, hoje voltei lá e comprei a maquineta.
Já tenho uma caixa de Marlboro cheia de cigarrinhos e são óptimos.
Só quero ver a cara da minha mãe quando puxar de um à frente dela.
Uma coisa é certa:
Nada como a necessidade para aguçar o engenho!