19 February 2009

FANTASIAS


Escrevo
e me descrevo
sou várias,
sou única

E a cada frase,
em cada verso
dispo-me
e transformo -me.

Às vezes exagerada
Noutras um pouco acanhada
Vou contando a minha vida
De uma forma nublada.

Escondo dramas,
crio romances,
mas as fantasias são minhas
e só me pertencem a mim.

18 February 2009

VERBO SAUDADES


Sinto uma saudade descabida. Saudade descabida porque não cabe em mim mesma. Não cabe em lugar algum. Transbordou. Saiu da borda. Uma saudade estranha. Uma saudade de ninguém. Uma saudade que não tem nome ou um endereço específico. Saudade de ser tão igual e fazer toda a diferença. Saudade de gostar dos mesmos lugares e de bebidas tão diferentes. Saudade do calor, do cheiro, do gosto. Saudade do toque, do beijo, do carinho. Saudade com remetente e sem destinatário. Saudade sem preço, sem endereço e sem data para expirar.
Não sei qual é o verbo exacto que deve acompanhar esta palavra tão densa. Quando tenho saudades também sou as saudades. Penso saudades, sinto saudades. Vivo as saudades…respiro ar novo mas que nem por ser novo não deixa de estar contaminado por ela, a dolorida, ardida e incompreendida saudades. Parece que esta palavra é plural e ela realmente é. Sempre plural, as saudades não sabem ser singulares.
Sempre que sinto saudades de um momento, de uma pessoa ou de qualquer que seja o objecto, este vem directo de um sótão empoeirado onde as memórias são guardadas. Vem também de uma memória que se encontra na cristaleira de cristais raríssimos, localizada perto do coração. Vem da sala onde guardo as minhas músicas, próximo das orelhas quando dizem respeito às músicas ou ruídos de vento ou ondas de mar. As saudades espalham-se em pontos estratégicos do meu corpo. As vezes acredito que embora eu tenha uma forma que me faz ser identificável como eu mesma, cada fragmento de célula meu, tem saudades específicas.
Saudade do que ignoro me falta viver.

16 February 2009

AS MULHERES TÊM OS FIOS DESLIGADOS


"Há uns tempos a Joana
-Pai, acabei um namoro à homem
perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
-Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim
o que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
-Não quero mais
chegam com discursos vagos,circulares
-Preciso de tempo para pensar
-Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas ou declarações no género de
-Tu mereces melhor do que eu
-Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
-Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
-Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
-Custou mas foi
-Amandei-lhe aquelas lérias do costume e a gaja engoliu
-Chora um um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar chichi, sede, fome, a janela de que esqueceram de baixar o estore), ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas, pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarrados à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
-O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é pensar que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
-As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez.
Meu Deus,que pena me dão as mulheres.
Se informam
-Já não gosto de ti
se informam
-Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos, ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-te ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, Che Guevara ou eu, e eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que se lá deitam e os outros dois com quem sonham.
Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhes caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra a porta do carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levantam quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia (para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
-O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: eu até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Schubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Reinzerberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui (espero não muitas vezes) rasca. E volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta.
Como os elogios que vêm logo depois:
és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas?
Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
-Mereces melhor que eu
levou como resposta
-Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
-O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
-Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
-E depois de ele se ir embora?
-Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me"
Crónica de António Lobo Antunes in Visão 31 de Julho 2008

( 7 ) NOVA IORQUE, MEU AMOR


Eu e os génios temos uma entente cordiale:
às vezes zango-me com eles e cortamos relações. É excelente porque eles nem sabem que eu existo e portanto isso não os incomoda, e eu posso ignorá-los à vontade.
Ás vezes, depois fazemos as pazes. Nem sempre.
Agora estou um bocadinho amuada com Woody Allen. Mas só um bocadinho. Porque a verdade é que o homenzinho pequenino, com um ar insignificante, inseguro, hipocondríaco, neurótico que veste a pele de anti-herói e de mal-amado pelas mulheres, tem duas coisas, entre outras, que me fazem estar de bem com ele.
Uma é o facto de ele gostar de nós, mulheres, como poucos cineastas.
A outra é o seu amor por Nova Iorque.
Se um turista quiser perceber porquê que há pessoas que têm paixão por Nova Iorque não pode ver só a Estátua da Liberdade ou o Empire State Buildinig, além dos outros locais de visita obrigatória.
Isso, provavelmente dar-lhe-á a imagem da cidade que fascina mas que assusta pela sua grandeza e onde “ nunca poderia viver”.
Mas se fizer o percurso da Nova Iorque que Woody Allen nos mostra nos seus filmes, aí sim, aperceber-se-á da alma da Big Apple..
A Nova Iorque dele é a verdadeira.
Das esquinas especiais, dos museus, dos “Delis”, das árvores de Manhatten.
Se quiserem acompanhar-me num tour pelos mais memoráveis locais de filmagens dos seus filmes, podemos começar por aquele que é considerado a sua obra-prima: Annie Hall.
Para além de ter lançado a moda das mulheres começarem a usar gravatas de homem sobre camisas compridas, blazers e chapéus, entre as cenas mais memoráveis incluem-se as filmadas no Beekman Theatre e no Thalia Cinema .
Manhattan continua a ser o favorito dos aficcionados de Woody Allen. Filmado a preto e branco e com música de Gershwin, mostra-nos a John’s Pizzeria (278 Bleecker Street em Greenwich Village), um clássico dos restaurantes da cidade, o Elaine’s, (1703 Second Avenue entre East 88th e East 89th Street) e aquela que é considerada a cena mais famosa do filme, quando Woody e Diane Keatons se sentam num banco em Riverview Terrace em Sutton Square, mesmo por baixo da 59th Street Bridge no east side de Manhattan, para verem o nascer do sol..
Não é fácil explicar o que é um Deli. É um restaurante, normalmente grande, que está aberto 24 horas por dia, onde se pode comer ou levar comida pronta para casa, a preços muito razoáveis.
Em Broadway Danny Rose aparece aquele que é seguramente um dos mais famosos de Nova Iorque, o Carnegie Deli situado no 854 da 7ª Avenida. Woody frequenta-o desde sempre e fez questão de o colocar neste filme.
The Pomander walk e o Central Bar aparecem em Hannah and Her Sisters, o De Lucca Café em Husbands and Wives.
E por aí podíamos continuar.
Mas o melhor fica para o fim.
E o melhor acontece às 2ªs feiras no bar do Hotel Carlyle. É lá que há anos, Woody Allen toca com uma banda de amigos, a New Orleans Jazz Band.
É uma hora e meia mágica, em que ele percorre os temas musicais dos seus filmes, ao sabor do tradicional jazz do French Quarter de New Orleans.
É sem dúvida um privilégio dos nova-iorquinos poderem assitir a espectáculos destes ao preço de uma bebida ou de um jantar.
O que me faz rir com risinho de bruxa malvada quando penso no ridículo de pagar 5oo euros para o ver tocar num reveillon no Casino do Estoril.
É o que se chama o homem errado, no local errado para o público errado.

15 February 2009

A PEDIDO DO PEDRO


O fenómeno da blogosfera, a forma como veio mudar a comunicação, a ferramenta, as potencialidades, o futuro…


Estes são alguns temas que irão ser discutidos no 1.º Encontro da Blogosfera Portomosense, no dia 21 de Fevereiro.
Porto de Mós tem sido um palco fértil para a blogosfera e há algum tempo vários intervenientes começaram a pensar numa “reunião de família” para discutir o fenómeno.

O desafio foi lançado à ZonaTv, que o aceitou desde a primeira hora, para fazer este primeiro encontro chegar mais longe. Além da discussão presencial, o encontro vai ser transmitido, em tempo real, na Internet, permitindo que os bloguers, do concelho ou de qualquer ponto do mundo, possam participar na discussão.
Todas as novidades do 1.º Encontro da Blogosfera Portomosense poderão ser acompanhadas neste blogue «Blogosfera Portomosense». Também a transmissão em directo da iniciativa irá ser transmitida a partir do referido blogue.
O encontro é aberto a todos quantos queiram comparecer, as inscrições podem ser feitas para este e-mail

(28) NÃO RESISTI

MySpace-Comments

Manuelito estava na aula quando a professora pergunta:
- Manuel , quantos são dois e dois?
- DEPENDE, professora, porque se os números estão na horizontal são 22 se estão na vertical são 4.

- Muito giro, você parece que é mesmo do contra. Diga lá, agora: quem descobriu o Brasil?
- DEPENDE: se se refere a 1500 foi Pedro Álvares Cabral; agora se nos referirmos a antes, foi o Índio que já lá estava quando ele chegou.

- Ah... Você se julga muito inteligente, não é Manu? Você se acha um superdotado, certo? Agora diga-me, quantos são os mandamentos da Lei de Deus?
- Os mandamentos são... Bom, DEPENDE, professora.
- Como é que é DEPENDE!!?
- DEPENDE, porque se são para homens são dez, mas se são para mulheres são nove, porque as mulheres não podem desejar a mulher do próximo.
- DEPENDE..., sussurra a professora.

14 February 2009

(16) PORQUE É FIM-DE-SEMANA




HAPPY VALENTINE!

13 February 2009

PAGO BEM

E, então, toma-me de assalto aquela imagem budista de que a vida é como um rio, que quando passa não mais se repete, pois nunca nada fica no mesmo lugar. Depois da enxurrada, já se sabe, as coisas não voltam à harmonia da sua quietude anterior, por mais que se aprestem os trabalhos de reconstrução e chegue o voluntariado da ajuda internacional, assentando arraiais e montando tendas pelas planícies fora.
Quem espreitava feliz, da entrada acolhedora da sua palafita e vê agora as estacas (antes sulcadas no fundo lacustre, ricamente adornadas com anos de coisas felizes) algures à deriva contra o molhe de betão, é muito difícil encarar os destroços, mesmo que apenas através das palavras escritas e das fotografias desmaiadas, guardadas em arquivo.
Preciso por isso de uma empilhadora dentro de mim, daquelas com várias pás que cheguem alternadamente aos recantos mais difíceis da minha geomorfologia magoada.
Pago bem e à hora.

12 February 2009

AS APARÊNCIAS ILUDEM


Quase tudo na Natureza me fascina. Mesmo as coisas assustadoras. Posso ficar horas a olhar para o fogo ou para uma tempestade no mar. Numa trovoada o que me fascina são os relâmpagos quando cruzam o céu. E os icebergs, lindos, majestosos, brancos, imponentes!
O problema é que como não há almoços grátis, até a Natureza cobra.
O fogo consome, o mar invade, os relâmpagos matam e os icebergs mostram a sua beleza mas escondem a sua verdadeira dimensão.

11 February 2009

.......


Ás vezes o mundo fica mais pequeno
Quando as memórias se esbatem e se confunde a realidade com o imaginado é bom ter alguém que nos diz "É verdade, eu vi; eu estive lá."
E quando são amigos, quando é a amiga, então acreditamos.
Quando encontramos alguém que se cruzou no nosso caminho nalgum desses momentos que guardámos num canto tão escuro de nós que temos dificuldade em saber se existiu, quando esse alguém também se lembra, então acreditamos em nós.
E quando acontece tudo no mesmo dia, e todos estivémos lá, e todos lembramos quem lá esteve...
Sim, era eu.
Era eu que lá estava.