17 September 2007

E OS BONS? ONDE ESTÃO?

" A penalização por não participares na política, é acabares a ser governado pelos teus inferiores". PLATÃO


O 25 de Abril apanhou-me muito nova, para perceber exactamente o que se estava a passar.

E curiosamente, devo ter sido das primeiras pessoas ( públicas), a saber que tinha havido uma Revolução. ( Hoje, acho que foi mais um golpe de Estado, mas enfim...).

Ia a caminho do aeroporto, aí pelas 6 da manhã, quando à chegada à Portela, fui barrada por um soldado ( que me perdoe se era um capitão, mas não percebo nada de patentes), que encostando o cano da G3 à janela aberta do meu carro me disse: " a menina vá pra casa, que houve uma Revolução". Respondi-lhe, pouco ralada com o acontecimento: "pois, tá bem, mas eu não tenho nada com isso, e tenho que ir apanhar um avião". Aí, já com cara de poucos amigos, ele respondeu-me: " Não há aviões nenhuns, e trate de ir pra casa depressa, antes que se magoe". Resignada, resolvi seguir a ordem, não sem antes lhe perguntar " e, olhe lá, já agora, você é dos bons ou dos maus?". Espantado, ele respondeu-me: " dos bons, claro ".

Galguei os degraus de casa dos meus pais, e entrei espavorida no quarto deles gritando: " Acordem. Houve uma Revolução".

Aí, percebi que a coisa devia ser séria, porque deram ambos um salto da cama, e a minha mãe que não é de grandes demonstrações, tinha lágrimas nos olhos.

Lá fui seguindo tudo aquilo, e mais o que veio a seguir, embora não me lembre de nada de mau de antes do 25 de Abril: não tenho irmãos, ninguém da família foi para a guerra de Africa, nunca senti que não tinha liberdade para isto ou para aquilo, e só com tempo e com as explicações de minha mãe, alentejana e sendo uma Catarina Eufémia ferrenha, fui percebendo que algo tinha mudado.

Com o ambiente de esquerda que se vivia em minha casa e levada a reboque pela dita mãe, votei orgulhosamente no PC para a Assembleia Constituinte, e disso não me arrependo, e depois fui votando sempre em partidos de esquerda.

Não porque defendesse sistemas como o soviético, mas porque acredito firmemente que todas as pessoas devem ter os mesmos direitos, e que o Estado se deve encarregar de pôr à disposição de todos os mesmos recursos básicos: educação, saúde, etc. Algo assim como a canção do Sérgio Godinho " Paz, Pão, Educação".

Com o passar dos anos, tive amigos que são hoje considerados cantores de intervenção, conheci o Zé Carlos Ary dos Santos, assisti à estreia da 1ª Revista post 25 de Abril, da sua autoria, " Uma no Cravo outra na Ditadura", fui militante de um Partido Político, e estive muito perto dos corredores do Poder.

Hoje em dia, não voto, não leio jornais nem vejo tele jornais.

Não sei o nome de nenhum Ministro e tanto se me faz que esteja no Governo o PS, PSD, o PP ou qq outro grupelho político.

Tanto se me faz que a Câmara caia ou se levante. Agora então com o Sr. António Costa lá!!! Esse sei o nome. Acho mesmo que nunca o esquecerei.

Todos, todos, escória. Ladrões, tachistas, vígaros, de esquerda ou direita, se é que essa diferença ainda faz algum sentido, são todos iguais. E garanto que sei do que falo.

Para mim, simplesmente este País não tem remédio. É ingovernável. É uma anedota.

Estou farta de Casas Pias, de Apitos Dourados, de Carolinas Salgados, de Leonores Belezas e seu mefistofélico advogado que habilidosamente a livrou do processo dos Hemofílicos, de João Nabais a casar por Igreja, de reality shows cujos concorrentes se tornam estrelas nas revistas, de todos os que encheram os bolsos à custa da Expo98, dos lobbys gay, dos Hermans e sus muchachos, enfim, se pudesse fugia daqui pra fora para nunca mais voltar.

Como diz um amigo do meu pai, com imensa graça, a quem chamamos Salazarento, e que se refere a Salazar como " o meu primo António" embora nunca tenha conhecido o senhor, como ele diz " Então não era muito melhor no tempo dele? A gente não sabia da escandaleira, portanto não nos indignávamos. Agora, sabemos, e vivemos num stress enorme, porque sabemos, mas não acontece nada..."

Pois, se calhar...


Vem toda esta restemenga a propósito de uns textos que que li, o primeiro de um poeta russo, de princípios do século xx, de nome Maiakovsky, que se " suicidou" no tempo de Lenine, e que diz assim:


Na primeira noite, eles se aproximam,
colhem uma flor do nosso jardim,
e não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles,
entra sózinho, em nossa casa, rouba-nos a lua,
e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E, porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

Ele que tinha feito propaganda pela Revolução Bolchevique por toda a Europa, acabou a escrever isto!
Depois dele, outros se lhe seguiram.
Bertholt Brecht ( 1898-1956 ) foi um deles.



Primeiro levaram os negros,
mas não me importei com isso,
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários,
mas não me importei com isso,
Eu também não era operário.

Depois, prenderam os miseráveis,
mas também não me importei.
Eu não era miserável.

Depois, agarraram uns desempregados,
mas como tenho meu emprego,
Eu também não me importei.

Agora, também estão a levar-me,
mas é tarde,
como não me importei com ninguém,
também ninguém se importa comigo.


Outros se seguiram, mas passados mais de cem anos, continuamos amorfos, inertes e submetidos aos caprichos e à ruína moral dos poderes governantes, que vampirizam o erário público, aniquilam as instituições, e nos deixam,apenas os ossos roídos,e o direito a um dia a dia sem ilusões e sem futuro.

Pergunto eu: Onde andam os BONS?

Nota: a 2ª parte do texto foi escrita com a ajuda do Google:)

2 nhận xét :

Emigrante said...

Oi! amiga!

Permite-me que te trate assim.
Era efectivamente no link que me envias-te que encontrava a resposta.
Não só porque és uma mestre das palavras, mas porque me identifico muito com elas.
Já referi que, estou a passar uma espécie de cabo bojador e, estes espaços virtuais são uma bolha de oxigénio.
obrigado blogoesfera, obrigado Blue.

Teresa

P.S.

Penso que andas no Hi5. comecei por lá também. É mais uma tentativa

Donagata said...

Li o teu post. Tens também uma história engraçada da tua tomada de conhecimento da "revolução de Abril"

Contudo, como eu entendo as sucessivas desilusões que vens sentindo. O consequente desacreditar, nos governantes seja qual for a sua cor.

Neste momento, embora me regozije ainda pelo 25 de Abril de 74, e o recorde como algo que senti de uma forma difícil de descrever, sinto uma pena pelo que se fez depois disso. Não que quisesse voltar ao "antes". Mas, a verdade, é que conseguimos dar cabo do "depois...