12 December 2008

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Há certas dias que escrevo porque as coisas já não me cabem cá dentro. Pois hoje, não cabem. E sem que pudesse fazer nada para contê-lo, saiu-me o conteúdo por todos os poros. Extravasou como acontece ao leite do fervedor naquele segundo em que nos viramos para agarrar na pega. É uma confusão entre o leite que fica no fervedor e o que se esparrama no fogão.
Aproveitem o que conseguirem: o do fervedor ou o do fogão.



Sempre disse que não gosto de Saramago. Nem dos livros nem do homem.
Os livros bem que tentei. Comprei, tentei ler um. Depois outro. Recomeçava e estacava a meio. Continuo parada no meio do Memorial do Convento e não ando nem para a frente nem para trás.
As atitudes dele, a arrogância após o recebimento do Nobel, os comentários sobre Portugal, tudo isso me tirou ainda mais a vontade de tentar lê-lo.
E agora saiu o filme baseado no Ensaio sobre a Cegueira. E vejo 2 cenas que me deixam completamente sem chão.
Uma, quando ele próprio vê pela 1ª vez o filme, ao lado do realizador. É uma cena comovente. Vejo um velhinho, de olhos marejados de lágrimas, sem quase conseguir falar.
De repente, tornou-se humano. Igual a todos nós. Igual ao comum dos mortais. Numa entrevista diz que quer ser cremado e as suas cinzas colocadas debaixo de uma pedra sem qualquer inscrição. E que se alguém de vez em quando lá quiser deixar uma flor, só para se lembrarem que ele existiu...
Outra, uma cena do filme, num mundo de cegos em que só a Julianne Moore vê, a certa altura ela está sentada numas escadas, sozinha, abandonada, desesperada, com as lágrimas a correr pela cara abaixo. E vem um cão. Que se chega a ela. E se encosta a ela e lhe lambe as lágrimas. E Saramago comenta: aquilo é Compaixão, o sentimento mais nobre que o ser humano pode sentir.
E ponho-me a pensar: o que o fez mudar? A doença? A velhice? A possível proximidade da morte?
E já tinha pensado o mesmo de Lobo Antunes. É verdade que são diferentes. Como escritores e como homens. Mas a diferença entre o Lobo Antunes de antes e do depois da doença é imensa.
E ponho-me a pensar: é preciso sentir a morte a rondar para nos tornarmos humanos? Para percebermos que somos iguais a toda a gente?


Isto fez-me lembrar um livro maravilhoso que li há tempos: "História do Rei Transparente" de Rosa Mantero.
A determinada altura, Leola ( uma das personngens) diz assim:
- Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi na minha vida coisas maravilhosas. Fiz na minha vida coisas maravilhosas. Durante algum tempo, o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou.
Nyneve ( outra personagem) ensina palavras a Leola para que esta escreva no seu livro:
-Continuas a escrever o teu livro de palavras?
A pergunta de Nyneve surpreende-me. Endireito-me e olho para ela. A minha amiga, que também está a trabalhar na horta, descansa apoiada na enxada.
-Sim porquê?
-Porque te queria oferecer uma palavra a melhor de todas.
-Ah, sim? qual é?
- Compaixão. Que, como sabes é a capacidade de nos colocarmos na pele do próximo e de como ele sentir o que ele sente.
-Sim agrada-me. Mas, porque me dizes que é a melhor?
-Porque é única das grandes palavras em nome da qual não ferimos, não torturamos, não prendemos e não matamos...Pelo contrário, evita tudo isso. Há outras palavras muito belas: amor, liberdade, honra, justiça...Mas todas elas, todas, podem ser manipuladas, podem ser utilizadas como armas de arremesso e causar vítimas.
E ponho-me a pensar, que afinal se todos conhecessemos e compreendessemos o verdadeiro significado da palavra Compaixão, this would be a better world.

When you are guided by compassion and lovinkindness, you are able to look deeply into the heart of reality and see the truth.
Boudha

17 nhận xét :

salvoconduto said...

Com paixão te digo as coisas não são pretas nem brancas, existe entre ambas uma grande gama de cinzentos entre elas, para onde normalmente não se olha, Saramago também é assim, Lobo Antunes também.

Abreijo.

Tretoso Mor said...

Veludinho,

Muitas vezes as pessoas precisam apanhar um susto, ou viver o antagonismo da realidade actual, ou até mesmo enfrentar a morte, para tomarem consciência da sua realidade. Para mudarem. Para entenderem os outros.

A personalidade de cada um é importante, mas penso que na base da maioria destas atitudes está a educação. No caso do Saramago, ainda se mistura com mais factores.

Ele é sensível e, embora não o queira demonstrar pessoalmente, acaba por o fazer por escrito.

Aos poucos está a "entrar nos eixos".

Tretices azulinhas para ti

Maria said...

Conheço o José Saramago há muitos anos. Por razões que não vêm ao caso, devo dizer-te que sempre o achei Humano, muito Humano. Penso até que já conversámos sobre isto.
ele é tão Humano, mas tão humano, que conseguiu escrever muito antes de tudo um livro chamado "Levantado do chão". Experimenta lê-lo. E depois fala-me do ser humano que ele é.

Um beijo, quase a correr....

Maria Clarinda said...

Ainda estou atordoada...adorei o teu texto, que saiu "como o leite do fervedor"...simplemente belo tudo o que escreves sobre o encontro da palavra compaixão...e o significado e os sentires que esse mesmo sentimento causa em nós!...
Posso gurdá-lo?
Jinhos mil

Antonio saramago said...

Não gostas de mim? Já podias ter dito!!!
Não é comigo? Bem! Já estou mais descansado e ainda bem que ele não é da minha familia, porque eu sou SARAMAGO de descendências e ele, segundo o próprio o diz, tem o nome de Saramago porque foi impingido pelo registo.
O Homem sempre andou pelas Espanhas e que eu saiba nada fez de significativo para Portugal.
Não gósto dele não SENHORA!!!

Si said...

Para mim, Saramago é contraditório desde o início. Também não passei do meio do 'Memorial do Convento', nem do 'Cerco de Lisboa', devorei de uma só vez o 'Evangelho Segundo Jesus Cristo'.
E chego à conclusão que não somos iguais em todas as fases da nossa vida, pelo contrário. A irreverência faz parte da juventude, a ponderação da idade adulta, a arrogância da meia idade, a fragilidade da velhice.
Os escritores são humanos e passam pelo mesmo. Do meu ponto de vista, tanto melhores, quanto são capazes de transmitir na sua escrita os sentimentos que a alma carrega no momento. Mas a verdadeira compaixão só é demonstrada por dois tipos de pessoas: os santos e os sofridos. Todos os outros demonstram apenas piedade.

Filoxera said...

De salientar estas definições de compaixão.
Já quanto à tua opinião sobre estes dois escritores, a minha sempre foi diferente...
Beijos amigos.

de dentro pra fora.... said...

Eu acho que quando algúém 'sonha' com a possivel morte, quando acorda ve o mundo de outra cor, não deveria ser assim mas é o muitas vezes

Beijinho

Carlos Barbosa de Oliveira said...

Escrevi ontem no CR sobre Saramago e já escrevi várias vezes sobre Lobo Antunes. Gosto dos dois como escritores e, sem abusar da sua paciência, convido-a a ler este post que escrevi no CR no dia 17 de setembro de 2007:
http://cronicasdorochedo.blogspot.com/2007/09/lobo-antunes-e-as-lgrimas-amargas-de.html
Está lá, preto no branco, a minha opinião sobre os dois e a visão de uma amiga alemã.
Só acrecento que tenho a sensação de que realmente o convívio com a morte toran as pessoas diferentes e melhores. Conheço alguns casos.
Saramago tem livros belíssimos, a começar em "Levantados do Chão", mas também tem alguns menos conseguidos, principalmente na fase pós Nobel.
E para terminar, porque o comentário já vai longo, gosto também muito de Rosa Mantero e das suas crónicas de domingo no El Pais.
Conchinhas

Patti said...

Soreo Saramago disse ontem no Rochedo o que achava.
Nunca gostei do Homem, nem das atitudes pós 25 de Abril e pós-Nobel.
Do escritor também gosto pouco e tenho de acabar o Memorial para ler a Viagem do Elefante, que segundo muita gente é o seu melhor livro desde o Nobel.
A doença e a velhice tornaram-no mais sereno e menos arrogante.

De ALA sou fã e discordo contigo no ponto em que a doença o modificou radicalmente. Modificou sim, mas não radicalmente e isso vê-se na compilação das suas entrevistas desde os anos 70.
Admiro-o imenso como escritor e sobretudo pensador.
Como homem, não sei. E só a família íntima o saberá.

Mas em relação aos escritores, estes ou outros não me 'interessa' o Homem, mas sim a obra.
E só assim é que se pode aprender.

Bom post, menina Velvet. Sentido.

Patti said...

Esqueci-me do resto.

Agora que a morte, a presença perante algo definitivo na nossa vida, mexe connosco, completamente.

Só é pena, que para muitos ou mesmo a maior parte de nós só reajam no fim.

Eu quero viver toos os dias intensamente, nem sempre dá mas tento-o sempre e mais: lembro-me.

Vekiki said...

Velvet, este post está lindo apesar de te ter sujado o fogão quando transbordou...
Não vou falar nem sobre um escritor, nem sobre outro.
Vou falar sobre os sentimentos humanos, sobre o que nos faz ter nós na garganta e lágrimas nos olhos. Como estou hoje. À medida que os anos se vão acumulando na nossa história, o nosso interior vai amolecendo, mais e mais. Eu tenho sentido isso. Desde que fui Mãe, pela primeira vez, os meus sentimentos foram ficando cada vez mais à flor da pele! E cada vez estão mais...
Beijos para ti :-)

f@ said...

Era mesmo a minha sugestão... leres ensaio sobre a cegueira...
existe mesmo inconsciente uma cegueira social e pessoal que nos afecta a todos..
Pior que velhice ou morte existe a doença...mas... era bom se sempre os sentimentos e as emoções tivessem presente o quanto a vida e o mundo é do tamanho de uma ervilha...

Beijinhos das nuvens

Leonor said...

Uma doença grave e o pensamento presente que podemos morrer muda obviamente uma pessoa.
E ainda bem, digo eu. A vida fica mais clara, o tempo que dedicamos às coisas e pessoas mais premente. E, sobretudo, algumas coisas deixam de ser importantes.

Dito isto, também sempre tive dificulkdade a ler Saramago e, não sei porquê, ao principio nem sequer fiz muito esforço: a leitura também se faz de prazeres.

Até que me recomendaram um - Todos os Nomes - que é passado num arquivo. muito bem pensado e escrito, quase com vontade de saber se ele Saramago tb tinha alguma vez trabalhado num.
mas devo dizer que nem assim fui pegar nos óbvios. Agora com a saida da Viagem do Elefante, comprei, estou a ler e a gostar bastante. Talvez haja (para mim) uma altura para ler Saramago, descontando tb a ligeira irritação que sempre tive por este homem, que parece tão seco, tão duro. (mas quem escreve assim não pode ser).

Já quanto ao Lobo Antunes, sempre gostrei bastante.

veludinhos

(já respondi ao desafio... finalmente)

Jotabê said...

Estamos em sintonia. Não gosto da escrita, nem da pessoa. E também não me interessa se está mais macio, se por força da idade ou da doença, continuo a não gostar da escrita nem dele. E isto não é insensibilidade minha, apesar de parecer, é falta de pachorra para personalidade que se revelam nas adversidades da vida, nas bebedeiras, ou lá o que valha.

Não gosto da pessoa, que nada tem a ver com o escritor, não gosto da escrita, que nada tem a ver com os argumentos dos livros.
A pessoa é, amarga, intolerante, presunçosa, arrogante, por aí fora (se calhar já não é, mas não me interessa, já foi), a escrita é um desastre, não tem pontos finais, não tem travessões nas falas, é uma confusão ler um livro deste fulano. Uma ocasião, há uns anos atrás, alguém o questionou acerca deste modelo de escrita, e o senhor, assolado por uma dose massiva de modéstia disse que tinha uma escrita difícil, um estilo configurado para pessoas inteligentes. Nunca mais ‘pude’ com ele. (cá para mim ele não sabe é escrever) (vai tudo a eito) (e a maltinha que se preocupe em descodificar)

Pelos visto este último romance não o apresentou em Portugal, foi fazê-lo para o Brasil, continua igual a ele próprio

Quanto aos argumentos, acho que utiliza umas boas metáforas, propícias a enredos cinematográficos

Enquanto escrevia este post a luz da secretária fundiu-se, IRRA, este gajo é mesmo um agoiro.

:(

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:)

beijocas

Carlos Barbosa de Oliveira said...

Hoje, durante o TJ, lembrei-me muito deste post, por causa de uma peça sobre a modificação de pessoas que enfrentaram a morte. Era a uma delas- a Isabel Wolmar- que me referia no comentário anterior.

Sandra Daniela said...

Olá! Eu também tentei ler os livros deSartamago e estão numa prateleira, como novos! Confesso que quaando me convidaram para ir ver o filme torci o nariz, mas lá fui... E confesso que gostei... e durante o filme pemsei várias vezes:- "... mas aquele senhor pensou nisto tudo?! uauu"

Acho que trata muito bem o tema... A cegueira socisl onde vivemos!!

Beijinho