11 December 2009

(2) MEMÓRIAS DE INFÂNCIA - UM NATAL


Eu não tenho terra. Nunca tive. Nascida e criada em Lisboa, sou aquilo que se chama uma "alfacinha de gema", embora não tenha nem um grande amor pela cidade nem nunca lhe tenha descoberto a tal luz especial que tantos falam. Reconheço que deve ser um deficiência minha, mas é assim, os seus amantes que me perdoem. Há zonas de que gosto mais do que outras, mas amá-la, não amo.
Pequenina, no colégio, sofria daquilo que considerava um enorme defeito, que era não ter "terra". Sobretudo na época das férias grandes ou no Natal e Páscoa, quando as minhas amiguinhas iam todas para a terra e eu não.
Assim, porque mesmo pequenina já era muito voluntariosa, cheguei um dia a casa e disse ao meu Pai:
- Papá, eu quero uma terra. Tem que me comprar uma terra!
Ele olhou-me com olhos atentos como sempre fazia quando eu falava com ele e disse-me que eu já tinha muitas terras. Que agora ainda não eram minhas, mas que um dia seriam.
- Não, eu quero uma terra agora.
E expliquei-lhe o meu problema.
Mais aliviado, ele disse-me que se o problema era esse, então podia escolher entre a terra da minha mãe, no Alentejo, ou a dele, perto de Óbidos.
Resolvi ficar com ambas. Naquela altura, sentia mais a dele como minha, por ser lá que a minha avó tinha a quinta e lá passar toda a família, o Natal.
Só muito mais tarde vim a descobrir o encanto do Alentejo e por ele me apaixonei, dizendo hoje a todos que sou alentejana.
Assim, no último dia de aulas, com um ar blasé enquanto guardava as coisas na minha minúscula pasta, deixei cair:
- Tenho que me despachar para ir fazer as malas. Logo à noite, vamos para a terra.
Ninguém me ouviu mas eu senti que algo na minha vida tinha mudado.
A casa da quinta era enorme, e disso já aqui falei o ano passado, e embora fosse na enorme sala que todos se reuniam e conversavam junto à lareira ou com os pés metidos debaixo de camilhas, em pequenas mesas redondas com braseiras, era a cozinha que me fascinava e era nela que passava parte do dia e um pouco da noite, nas vésperas de Natal.
Havia o grande fogão de ferro, com muitas bocas e outras tantas portinhas, uma de cada tamanho, onde as criadas ( que me perdoem as auxiliares domésticas) iam metendo madeira para manterem o fogo sempre aceso.
Havia uma enorme mesa com tampo de mármore onde se alinhavam os alguidares que tinham, todos um destino: o das batatas, o das couves, o das filhoses que depois era embrulhado em cobertores e posto junto ao fogão para levedarem, e um espaço destinado a bater a massa do pão e dos bolos que depois seriam cozidos no forno de lenha.
Aquela azáfama tinha uma magia que me atraía como as lâmpadas atraiem os insectos. Toda aquela gente trabalhava como uma orquestra bem ensaiada, debaixo da batuta da minha avó.
Esta minha avó não era a minha preferida. Tinha até um pouco de medo dela. Era austera demais e isso brigava com o espírito livre e desalinhado que sempre tive.
Sendo viúva, era ela que se sentava na cabeceira da enorme mesa ficando à sua frente o filho mais velho, o outro a seguir do seu lado direito e assim sucessivamente, com os filhos de um lado, as noras de outro e os netos e a neta ( eu era a única menina), intermeados no meio de toda aquela gente. Em noites de Natal, à Ceia, éramos mais de 25 à mesa.
Depois de ela fazer a oração habitual, podíamos então iniciar a refeição.
Naquela altura, mandava a tradição que depois de virmos da Missa do Galo rezada na capela da quinta, todas as crianças punham o sapatinho na chaminé, já que os presentes só eram abertos na manhã seguinte.
Nunca percebi porque razão os adultos também tinham presentes, se nunca lá vi os sapatos deles, mas isso é outra história.
Todos os Natais era a mesma coisa: depois da Missa e da Ceia, as crianças iam para a cama, o meu pai e os meus tios ficavam a conversar na sala e as mulheres iam para a cozinha, o que aliás muito irritava a minha avó.
Naquele Natal, devia ter os meus 5 anos, resolvi sair da cama e ir espreitar a chaminé para ver se já lá estavam os presentes.
Escondida atrás do reposteiro que tapava a porta da cozinha, preparava-me para espreitar quando ouvi esta frase, dita pela Ermelinda, a mais velha cozinheira da minha avó:
- Bom, vamos lá então tirar os tomates ao perú!
- Ó Ermelinda, tenha modos - ouvi a voz severa da minha avó.
Fiquei imóvel e estarrecida. Então o perú tinha tomates? E iam tirar-lhos? E comiam-se?
Dei meia volta sem seque me lembrar dos presentes e fui enfiar-me debaixo dos cobertores, na minha cama, com aquela dos tomates na cabeça.
No dia seguinte, mal o sol raiou, eu e os meus primos, todos em pijama, corremos para a cozinha, onde, como sempre, os presentes nos esperavam.
Foi a confusão do costume, à qual se seguiu um lauto pequeno-almoço com todos os doces tradicionais de Natal mais os típicos da zona e depois fomos todos arranjar-nos para a Missa do meio-dia, essa na capela da aldeia.
Quando chegou a hora do almoço, todos sentados nos seus respectivos lugares, eis que entra com pompa e circunstância o enorme perú, todo enfeitado.
Era assim todos os anos.
Depois da avó dizer a oração, o filho mais velho trinchava o perú como um ritual.
Mas aquele almoço ia ser diferente.
De repente, e antes que o meu Pai começasse a trinchar o bicho, eu cortei com os rituais e as regras todas e tornei aquele Natal tão inesquecível que ainda hoje oiço uma certa pergunta, nos almoços de Natal, hoje infelizmente já com quase ninguém desse tempo presente, excepto os meus primos e os meus pais.
Levantei-me e pus-me de joelhos em cima da cadeira para ficar maior e alto e bom som disse:
- Eu quero os tomates do perú!
Fez-se um silêncio total por uns segundos, após o que, todos tentavam controlar o riso, excepto a minha avó, que mantendo o seu ar de sempre ( embora, acho eu, tivésse ficado com o carrapito um bocado de lado, mas se calhar foi impressão minha...) me disse:
- A menina sente-se e não diga disparates.
Depois do almoço tentei que alguém me explicasse o que era isso dos tomates e porquê que não mos tinham dado, mas o mais que consegui foi que a Ermelinda me respondesse com ar jocoso:
- Ó menina, isso o melhor é perguntar às peruas!

O facto é, que ainda hoje, à chegada do perú à mesa, me perguntam: então e continua a querer os tomates?
Só que agora essa pergunta provoca em mim um sorriso nostágico, até uma lágrima ao canto do olho, pelos Natais maravilhosos da minha infância que se foram para sempre.

Nota: este texto foi escrito para ser publicado aqui e participar num concurso de textos com Memórias de Natal. Aqui fica a minha contribuição.

19 nhận xét :

salvoconduto said...

Raios me partam se a Licas não é a mulher do Zé Maria!

Abreijos.

BlueVelvet said...

Ó Salvo este comentário era para aqui?
Quem é a Licas e o Zé Maria? Humpft!

salvoconduto said...

Ai. Queres lá ver que tenho de te fazer um desenho. A Licas é a autora do blogue para onde vais mandar os tomates do galo, isto é, a tua história de Natal. Até posso estar enganado, mas como sou bom observador...

BlueVelvet said...

Ó Salvo,
um de nós bebeu. Como eu não fui...
A blogger para onde mandei o texto chama-se Quica e não é galo é perú!!!!

salvoconduto said...

Está bem, ou isso. Se é peru, são "maiores". Isto é que vai aqui uma açorda. Mas afinal a Quica é ou não é quem eu penso? Vou tirar isto a limpo. E já agora quem bebeu de certeza, foi o perú, aguardente para ficar mais tenrinho.

Abreijos sem álcool.

josé luís said...

miss veludo,

descontando o álcool, adorei o seu texto, que achei divertido e muito bem (d)escrito... apenas tenho de lhe apontar o facto de, a partir de agora, nunca mais poder olhar para um perú da mesma maneira...

kakauzinha said...

Todas as memórias da nossa vida são uma riqueza especial... incluindo os tomates do peru.

Os Natais passam, mas deixam o ouro do espírito da infância. Nunca desaparece, mantém-se nos sonhos, todos os dias, percorrendo "pastelaria a pastelaria".

Beijo azul*

Fernanda said...

Amiga BlueVelvet

Ri-me imenso :)))) Imagino que tenhas sido sempre "endiabrada", como eu!!!

O texto está fantástico, escreves lindamente.
Pena que eu só tenha vivido Natais assim em sonhos... alguns foram semelhantes, daí a minha nostalgia ser ainda maior este ano.
Mas tudo bem...estou resignada e embora a familia do meu falecido pai seja toda de V.N. de Cerveira e imensa e claro tenhamos tido muitos convites, vamos ficar na nossa quintinha com muito pouca gente.

Adorei mesmo o texto...fui ao link mas não vi lá este texto.
É algum concurso? ou foi só uma ideia gira da Pó de Estrelas???

Beijinhos

Antonio saramago said...

E por acaso sabes para que dá aguardente aos perùs antes de lhes cortar o pescoço?
é que bêbados, são ao contrario das pessoas, não dão tantos saltos, nem têm forças para fugir sem pescoço...
Também para tornar a carne mais apetitosa e ainda porque lhes acaba por inchar os tomates...
Bonita, esta tua narração sobre recordações Natalicias e ainda bem que não és das pessoas que julgam e apregoam que Portugal é Lisboa e o resto só paisagens...

Filoxera said...

Nostálgica...
:-)
Beijos.

BlueVelvet said...

ESTE COMENTÁRIO É DA TITÉ.
NÃO CONSEGUI PUBLICÁ-LO; POR ISSO COPIEI-O,mas não acrescentei nem uma vírgula:)
Desculpa Tité.

Bluevelvet,

Que bom que te lembraste de falar no complexo alfacinha de não terem terra.
Ainda um destes dias falei nisso num comentário lá na casinha da Patti.
Felizmente que descobriste depressa que tinhas mais do que uma a pontos de poderes escolher a tua preferida infantil e de adulta.
Mas... adiante!
Como é possível com 5 anos teres já tendências para gostares dos tomates do "pirum"!

Quanto à pergunta da Na até fico espantada pois ela passou no meu blog e viu o desafio dizendo que não tinha disponibilidade de tempo para o aceitar.

OK

Tenho que reservar algum comentário para fazer lá, na casinha mágica da nossa amiga Quica.

Jokas Natalícias

Licas said...

Amiga BlueVelvet

Fasrtei-me de rir com esta história/memória.
Não há dúvida que a inocência é maravilhosa...

Vou aproveitar para responder aqui
ao "Salvo Conduto" ...
Realmente eu LICAS, não sou mulher do Zé Maria.
O que o levou a pensar isso?

Um abraço para todos e passem pelo meu cantinho
Licas

Carlos Barbosa de Oliveira said...

Belíssimo este seu texto, no qual em parte me revejo. Também não tenho raízes, não tenho Pátria, mas tenho a má sina de não ser um "cidadão do mundo". Sou apenas um andarilho e, embora me sinta bem na pele que vesti, por vezes sinto uma profunda amargura.
Nunca reclamei os tomates do peru, porque em minha casa, no dia de Natal, para além da roupa velha, comia-se capão e esse, coitadito, já sabemos qual foi a sua triste sina!

Tite said...

Licas,

O salvoconduto foi ao Pó de Estrela e viu lá a dizer desafio da Licas e depois deve ter visto a foto do perfil da Quica. Vai daí associou Licas à Quica e disse isso.
Só a Quica poderá responder quando voltar.
Agora já estou a ficar preocupada com a ausência da Quica.
Espero que ela tivesse ido de fim de semana e teremos que aguardar até Domingo à noite.

Beijosssss

Pó de Estrela said...

olá Veludinho

Mas que "bebedeira emperuada" aqui vai!

A tua história, está de gritos! Como deves ter lido no meu mail, só agora é que a vou postar!

Tité Tité

Tu tás com falta dos meus lanches não é?
Diz lá que sim!

Mas afinal quem é o Salvoconduto?
Eu fui cuscar e vi lá que se chama Adriano e é do Porto e por acaso, o meu Perúzinho e eu conhecemos um Adriano muito capaz de ter um blog comó dele!!! Mas claro que não vou dizer assim sem mais nem menos, que o meu perúzinho se chama Zé Maria e que eu sou a mulher dele!
Ó Adriano, toda a gente sabe que eu me chamo Quica, fui Educadora de Infância, tenho dois filhos maiores, tenho uma neta (tu ainda não deves saber!) e que o meu perúzinho é bancário reformado!

Chega? se queres mais vai perguntar no meu blog, que eu chego-te as estrelas! (espero que sejas mesmo tu, se não morro de vergonha!)

Desculpa a intromissão Veludinho.

Fica-te com o teu saborzinho a perú com tomate, que eu vou fazer salada do mesmo com Estrelas. Daqui a bocadinho Já lá podes Ir!!!

Beijokas

Hoje Há perú no meu blog!!!!Glu,glu, glu!

Tite said...

Espero que o salvoconduto leia a tua explicação que me parece bem verosímil pelos comentários por ele feitos aqui.

Bem querida Quica, hoje já estou de papinho cheio e não vou ao teu perú porque já tinha petiscado aqui na casinha da Blue.

Depois, tu sabes como é esta quadra... hoje enfrasquei-me de aletria ma-ra-vi-lho-sa com o tal sabor de canela que eu tanto gosto.

Já reparaste que só nós é que falamos???

Então até amanhã e descansa com os teus anjinhos mai'las tuas estrelinhas cheias de pó mágico.

Ciao!!!!

Si said...

Ai, credo, Sôdotora Velvet!
Abrenúncio, que já me benzi 3 vezes só de ver aqui referidas com tanto à vontade as partes pudibundas do 'pirú'!!!!
E não fossem os maravilhosos enfeites de Natal que me mandou para a Árvore do Bairro, acho que tinha que vir aqui de bloquinho de contravenções em punho!!
Mas pronto, prometido é devido e saio daqui às apalpadelas para não ver mais desavergonhices....com licença, com licença, deixem passar e cuidado que eu vou de olhos fechados e braços à frente!!! ;D

C NARCISO said...
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ematejoca said...

Refiro-me no "ematejoca azul" às tuas Memórias de Natal, que foram para mim as melhores: um estilo de escrita excelente e com muito humor. BRAVO, Blue Velvet!