28 March 2008

A MORTE TEM OS NOSSOS OLHOS


Nunca gostei de Lobo Antunes.
Gostei dos primeiros livros de Lobo Antunes.
Não gosto dele, nem como pessoa nem como escritor.
Descobri o Lobo Antunes.
Gosto dele.
Confusos? Também eu.
Descobri Lobo Antunes, como quase todos nós, quando ele escreveu Memória de Elefante e depois Os Cús de Judas. Com esses livros fiquei fã dele.
Depois ele começou a escrever livros e eu não conseguia passar da pág. 10 e quando isso acontece, não há nada a fazer.
Entretanto casado com a prima da minha melhor amiga, comecei a privar com ele.
E não conseguia gostar dele. É um homem triste, calado, arrogante, sempre deprimido, difícil.
As crónicas que escrevia e escreve na Visão eram execráveis. Para mim. Obrigava-me a lê-las, sabendo de antemão que ia odiar, que não ia perceber uma linha e que invariavelmente ia ficar deprimida. Mas era um exercício que fazia, semanalmente, quanto mais não fosse para dizer que tinha odiado.
Tendo-se separado, perdi o contacto com ele, porque com os livros já tinha perdido.
Só nos ligavam as crónicas que escrevia.
De repente, soube através da minha amiga, que ele tinha um cancro e que estava mal.
Continuei a ler as suas crónicas e comecei a achar que ele estava a escrever de uma forma diferente.
Começava a vislumbrar-se uma espécie de humanização que não lhe conhecia anteriormente.
Comecei a ler os seus livros, começando pelo último. Comecei a tentar ler.
Em Fevereiro deste ano, deu uma entrevista à revista/suplemento do jornal Sol, a Tabu.
Se quiserem, podem lê-la aqui
http://www.ala.nletras.com/entrevista.htm.
Eu já a li dezenas de vezes. Tenho-a no meu Pc e de vez em quando leio. Descubro sempre uma coisa nova.
Praticamente, cada resposta a cada pergunta que lhe fazem, é uma pérola.
Nada é dito ao acaso. Não tem pudor em afirmar coisas que a maior parte de nós só pensa, e mesmo assim, baixinho.
Por isso mesmo, e porque são várias páginas, não poderia transcrever aqui tudo o que disse.
Também por isso deixei o link, para quem quiser ler.
Mas não resisto a reproduzir aqui, duas ou três respostas:
E nunca se sente sózinho?
Não, não. Por que é que havia de me sentir sózinho? Raras vezes na minha vida, desde que me lembro de mim, tive um sentimento de solidão. E não me sinto mal na minha companhia, divertimo-nos muito os dois, eu e eu.
Àcerca da doença e da morte:
O que mudou em si depois?
Muito. Há coisas que eram importantes e deixaram de ser e coisas que não eram e passaram a ser. Como estar aqui sentado, poder andar; sentir-me bem fisicamente. Foi importante para mim passar por isso. Foi uma lição de humildade. Foi também importante dar-me conta da minha imensa precaridade.
Foi uma surpresa?
Nós pensamos sempre que somos imortais. Vamos vivendo para uma eternidade de 30, 40 ou 50 anos. Seis meses que sejam. A Maria Antonieta no cadafalso pedia ao carrasco que lhe desse mais um minuto e aquele minuto para ela era eterno. Vivemos em função de eternidades. Se tenho 20 anos penso que vou viver mais 50. A minha mãe vive em função de uma eternidade de um ano, estou a supor. E no entanto esse ano é tão comprido como os 50 anos das pessoas que têm 20. E de repente a morte está ali à frente. Ninguém está preparado para isso. A morte tem os nossos olhos. Não se passa impunemente por isso.
Dou graças por não ser uma pessoa que não muda de opinião.
Humildemente tenho a dúvida, se não seria minha a culpa de não entender os livros dele.
Para já dei um passo em frente: gosto dele, das suas crónicas e da sua poesia.
Os livros esperam-me.

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste,
abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis,
dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor,
a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
BOLERO DO CORONEL SENSÍVEL QUE FEZ AMOR EM MONSANTO
poema de Antóno Lobo Antunes

20 nhận xét :

Patti said...

Bom dia,

Entre uma espreitadela e outra, hoje resolvi fazer um comentário. E porquê hoje?
Porque gostei da "mudança de opinião".
Não por ela ser acerca do Lobo Antunes, mas pela mudança em si.
Tenho para mim, que só não muda de opinião quem a não tem.
Parabéns.

Mãe Galinha said...

Concordei contigo até à parte em que recomeçaste a gostar dele.
Com ou sem cancro, não cosigo ler os últimos livros dele ( apesar de,nem sei porquê), os ter comprado.
Faz um exercício e tenta ler as coisas como se não soubesses que ele tem cancro.

Blue Velvet said...

Patti,
bem vinda.
Também penso assim.
Dias Felizes

Blue Velvet said...

Olá Mãe Galinha,
é exactamente o contrário.
Não comecei a gostar dele, com aquela peninha que se começa a sentir de quem tem esse tipo de doença.
A doença é que o mudou ou mudou a sua forma de se mostrar aos outros.
E é por isso que passei a gostar dele.
Volte sempre.
Dias Felizes

Bernardo Moura said...

Eu conheço pouco de Lobo Antunes.
Sempre me pareceu uma pessoa deprimente e alguma defesa minha fez-me travar e não ler as obras dele.
Contudo, acredito que seja uma boa pessoa. Acredito que muitos dos seus trabalhos sejam realmente bons.
Vou explorar Lobo Antunes!
Bom fim-de-semana!
Bj

Palavras para quê? said...

Olá Blue Velvet! Gostei do poema de Lobo Antunes mas infelizmente ainda não tive a oportunidade de ler nada sobre o escritor. DE qualquer maneira resolvi passar por aqui porque queria que quando tivesses um tempinho disponível e passasses no meu novo projecto que passa pela ajuda de outros donos de blogs. Aqui vai o endereço:
http://www.especiedecriatividade.blogspot.com .
Conto com a tua ajuda!

Filoxera said...

Pois eu, que li a entrevista quando foi publicada, gosto dele. Gosto do seu estilo convencido, altivo, crítico, pois não se dá ao trabalho de ser politicamente correcto.
E gosto dos livros, embora ainda me falte ler vários...
Beijos.

rouxinol de Bernardim said...

Todos nós somos tão multifacetados que essa mudança de opinião é natural. Todos temos um «saldo final», temos aspectos positivos e negativos... o saldo é que conta...

Tenho um blogue onde era insultado de forma tão achincalhante que cortei os comentários!... Dava trabalho estar a limpar o lixo...

Mas, sinceramente, acho que não merecia aquele ódio... ou será que mereço?!

Admito que sim.

Admito também que se possa mudar de opinião...

Cumprimentos e... parabéns pelo blog. Tem saldo positivo. Muito mesmo...

Blue Velvet said...

Olá Bernardo,
começa pelos mais fáceis ou pela poesia.
Vais ver que começas a gostar.
Mas tens razão: são pedradas.
Mas a vida também o é, as mais das vezes.
Beijinhos e veludinhos

Blue Velvet said...

Palavras para quê,
obrigada pela visita.
Já fui ao endereço indicado e achei a ideia muito interessante.
Vou colaborar sim.
Dias felizes

Blue Velvet said...

Filoxera,
calculei que gostasses.
Beijinhos e veludinhos

Blue Velvet said...

Rouxinol de Bernardim,
obrigada pela visita.
Fui ao seu blog, li os seus últimos posts e não percebo o porquê da situação que narra.
Quer dizer, não percebo em circunstância alguma, mas muito menos pelo que li.
Volte sempre.
Dias Felizes

f@ said...

Blue que lindo nem sabes como eu adoro ouvir este bolero... e agora que acabei de ver a letra vou ver onde anda o meu cd... ai que desarrumada que sou...
"Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer ..." o ALA escreve coisas bonitas que depois musicadas como é o caso deste poema ... nunca + se esquece... beijinhos e todas as nuvens claras e leves no teu mundo

Outonodesconhecido said...

Blue
gostei muito, muito do teu post e da tuas plavras deixadas para mim também.
A humildade!!! como eu batalho na importância da humildade, mas as pessoas têm medo, associam-na a humilhação: quão tolas são. As pessoas mais maravilhosas, encantadoras e inteligentes que conheço são de uma humildade tão genuina que me fascina.
Obrigada
Bom fim de semana
http://comecardenovo2008.blogspot.com/

Carminda Pinho said...

Gosto e sempre gostei de Lobo Antunes. Admito que não é muito fácil gostar dele como pessoa, pelas entrevistas que dá, não o conheço pessoalmente, mas mesmo assim não deixo de gostar dele, não me perguntes porquê.
Tenho seguido os seus livros, embora ainda tenha os dois últimos para ler e, as suas crónicas também já adaptadas em livro.
Li essa entrevista que referes e...
dei comigo com lágrimas nos olhos...

António Lobo Antunes é para mim um dos melhores escritores portugueses comtemporâneos.

Beijos

Maria said...

Sabes que eu gosto do ALA. Muito (embora às vezes me zangue com ele...).
Acho que ele mudou sim, aliás acho que toda a gente muda depois de passar o que ele passou.
A correr, e depressa, mando-te um beijinho (é que não quis deixar de te espreitar...)

bjus

Sérgio Figueiredo said...

Blue Velvet,

Visito teu blog e gosto das tuas palavras. Desta vez confronto-me com um post que não é fácil comentar (para mim). Tem a ver com uma figura sábia em palavras mas que a mim faz com que tenha dificuldade em ler determinados livros, Lobo Antunes.
Reconheço ser um escritor de primeira mas...umas vezes gosto, outras é uma tormenta chegar ao fim.
Neste teu posto tens o gosto em publicar um poema, adorável, deste homem tão peculiar. É um poema de uma vida cheia de tabus, expressivo, não escondendo pormenores e demonstrando sentimentos.

Gostei e também gostei de saber que passaste a gostar de Lobo Antunes.

até

Leonor said...

Blue

O António Lobo Antunes é uma pessoa ímpar na nossa cena cultural, mas reconheço de difícil convivio, apesar de não o conhecer pessoalmente.

Falo pelo que leio e vejo. Li os primeiros livros, que me conquistaram logo, não fui lendo todos, gosto das crónicas, considero aquele livro com as cartas escritas para a mulher pleno de humanidade... e sim, acho que a doença o mudou, de uma maneira como só uma doença como o cancro, onde a pessoa por momentos não sabe realmente se sobreviverá, o faz.
E ele tem essa grande capacidade de falar disso, de se expor, como bem referes. Duvido que houvesse muita gente a fazê-lo, e é nessas atitudes que sempre o considerei e considero alguém com um grande sentido de humanidade.
Mesmo que depois diga que merece o Nobel...
beijos

Oliver Pickwick said...

Não conhecia este autor, Blue. Pelo que escreveu e reproduziu, é um desses escritores considerados "malditos"; na maioria das vezes, alguém com personalidade forte e talento invulgar.
Parece um autor muito interessante.
Beijos!

eremita said...

Amiga, fico fleiz porque pqcificaste tua relação com A. Lobo Antunes. pessoalmente considero a sua escrita do melhor em português e lê-lo é um exercício de fascínio e encantamento. muito mais do que nos primeiros livros que o lançaram. A profundidade textual que consegue criar é absolutamente incomum e de mestre.
fraterno abraço