2 October 2008

E CONTUDO, ELAS SONHAM


Iam a caminho de casa já umas onze da noite. Noite fria para Verão e um pouco húmida de orvalhos.
Carregadas das compras. Uma ida ao centro comercial repentina. Um jantar noite dentro. Um dia que se pretende que acabe tarde ou nunca acabe. É difícil adivinhar o texto das suas vidas. Daquele momento. (Duas pizzas em duas caixas de uma marca conhecida em duas mãos apressadas por chegar a casa. O jantar tardio parece-me óbvio e vinho também) Uma delas vai extenuada no seu passo cansado mas rápido e nos dois pesados sacos que tilintam o som de vidro. Dois cheios e pesadas sacos de plástico desse lixo que não questionamos.
Talvez de coisas essenciais como latas de conservas e vegetais para uma salada. Tabaco. Azeitonas. Batatas fritas ou aperitivos de queijo. Talvez nada disso. Pasta dos dentes ou sabonetes. Champô com amaciador. Preservativos por entre pensos higiénicos ou tampões. A revista que fala daquilo que é importante. Da programação de televisão. Do horóscopo. De culinária. Das novelas.
Iam apressadas e felizes. Depois das compras as pessoas sentem-se sempre mais pessoas. Mais gente. Que ter é ser!
- Ele disse que aparece lá para as onze e meia. Mas sabes como é (agora desvanece-se em compasso mais lento alguma coisa. Alguma dúvida.) o António tem de deixá-la ir para a cama. E primeiro ainda tem que adormecer os filhos.
- Espero que não vá dar-se algum imprevisto. Nunca se sabe…com as mulheres.
(Com as mulheres e com os homens).
Não há nuvens no céu. Está uma noite transparente e a lua, ah a lua, a lua está com aquela luz suficiente para que tudo à volta pareça ser.
- Sabes que ela está desconfiada e aí pode ser matreira. Um dia destes ainda vais ter chatices.
- E queres que faça o quê? Eu estou farta desta merda, ele já esteve para pedir o divórcio se não fosse muito caro. Sabes que aquilo é preciso gastar muito dinheiro. Tenho medo é que as pizzas arrefeçam. Espero que não se demore muito. Estou estoirada e depois já não consigo fazer nada. Dá-me o sono.
A cadência aumenta.
Olho para o chão e na humidade negra do asfalto, quase um espelho, aquela luz suficiente, aquela luz quase neutra, e à volta as coisas desvanecendo-se sem importância alguma. Sem a importância que tiveram durante o dia.
Alternamos caminhos e eu deixei de pensar nos sacos com, seguramente, garrafas de vinho. Seguramente duas ou mais, mas pelo menos pelo ritmo do vidro coincidente com a dança das suas nádegas, duas.
Aquela luz suficiente demorou os meus passos distraídos na beleza obrigatória da penumbra. Na visão dos vultos e das suas diminutas sombras, quais almas penadas.
Gemidos distantes que no entanto, punham em expectativa a próxima esquina.
Raio de quotidiano de vida.

16 nhận xét :

AnaMar said...

E ainda bem que sonham. E sonhamos.

Excelente texto.

(Espero que o António não tenha conseguido sair de casa, :))

sagitario said...

e como diz o meu netinho ( É A VIDA)

Passe pelo meu cantinho, tenho uma mensagem para os amigos e as fotos dos homens da minha vida

um abraço

Filoxera said...

Raio de vida, mesmo...

Cecília said...

O quotidiano, as relações entre as pessoas, os segredos mais íntimos revelados em gestos banais, a teia intricada das emoções à flor da pele, o cenário exacto para levantar o véu que nos dissimula durante o dia....
Um texto tão pequeno e tão intenso, sublime pelo conteúdo e pela forma, na arte de personificar diferentes narradores em simultâneo.

Vekiki said...

É verdade. Há quaotidianos muito difíceis, muito matreiros...
Bjs

Maria said...

São vidas. É o que mais temos por aí, quantas vezes mesmo ao nosso lado...

Beijos azuis

Pitanga Doce said...

Espero que as pizzas não tenham arrefecido...e nem ela.

bom dia, Bluevelvet

Paula Crespo said...

Excelente texto! Não é fácil escrever desta maneira sobre um quotidiano baço... mas é precisamente um conjunto de pequenos nadas, entre momentos felizes e outros mais obscuros, que nos preenche a existência.
Bjs

BC said...

Tens uma maneira de escrever muito própria, muito directa,muito realista.
Conseguimos passar para o lado de lá mesmo não estando a viver as situações, e isso é muito bom!!!!
Beijinhos

JC said...

Descrição mais que correcta do nosso quotidiano. Como a vida é difícil..., mas muito mais dífícil para aqueles que nem dinheiro para compras têm e em vez de viver sobrevivem.
Beijinhos

1/4 de Fada said...

Um texto muito bem escrito, mesmo "à Bluevelvet", daqueles a que nos habituaste... descreves na perfeição uma situação tão vulgar e que sempre me impresionou precisamente por isso, por ser tão frequente e aceite tão facilmente. Como é que se consegue ter uma vida dupla por vezes durante anos a fio?

Delfim peixoto said...

Glup... é mesmo

f@ said...

Sonhar é um verbo infinito ... em todos os aspectos...mas os sonhos são feitos da essência das pessoas ...
beijinhos das nuvens

Justine said...

Que retrato duro e certeiro! Tão bom o retrato, que me senti um pouco deprimida com estas vidas tristes,sem brilho nem orgulho.

(quanto ao felino é capaz de ser difícil, mas pode ser que tenhas sorte!Comigo é mais fácil, é só combinarmos:)))

Patti said...

Não entendo quotidianos destes. E para mais, parece que cada vez, são em maior número.
Muito bem demonstrado por ti e mais uma vez cheio da sensibilidade que já nos habituas-te.

Sorrisos em Alta said...

Bem... se ele não aparecer, ela que me telefone.
Não para o substituir, mas estragar o vinho é que não!!!!

;o)