6 October 2008

UM CORPO SEM ESPÍRITO - 1ª Parte


O dia amanheceu cheio de sol e deitada na cama via pela janela o céu completamente azul. Espreguicei-me com prazer, como uma gata. Tinha muitas coisas para fazer naquele dia e adoro ter dias cheios. Para ajudar, a claridade do dia fazia-me sorrir. Era um daqueles poucos dias de Outono em que ainda está sol e o ar de Lisboa parece intocado.
Atirei o édredon para os pés da cama e comecei a rotina habitual:
Festas e mimos no mau amor de 4 patas que salta para cima de mim mal percebe que acordei.
Parece que está de tocaia, só à espera que me sente na cama para me atacar.
Todos os ataques fossem destes.
Sempre com a minha sombra branca nos calcanhares, fui para a cozinha, bebi o sumo de laranja enquanto punha as fatias de pão de centeio na torradeira, ( duas: uma para mim e outra para ele), o queijo fresco no prato, talheres, àgua na chaleira a ferver.
Tudo em ordem, tomei o pequeno alomoço, dei uma vista de olhos pelo New York Times enquanto fumava um cigarro, vesti umas leggings e uma t-shirt e fui passear o Sebastião.
Depois do banho tomado, vestida e pronta saí para o cabeleireiro cantarolando a música da Rádio Comercial.
Gosto do meu cabeleireiro. Comecei a ir lá tinha 14 anos. Acompanharam-me adolescente, jovem, arranjaram-me para o meu casamento, acompanharam as minhas gravidezes, conhecem os meus filhos, sabem de cor a data dos meus anos e dos rapazes e ainda hoje me tratam por menina.
Saí de lá bem disposta e apressada, toc, toc, em cima dos saltos altos, quando vejo junto ao meu carro um polícia com as mãos cheias com blocos de multas.
Dei meia volta e apliquei o meu plano A em situações semelhantes: pus-me a ver montras como se não fosse nada comigo à espera que ele se fosse embora.
Mas pelo canto do olho ia resmungando e mentalmente recitando todos os palavrões que conheço aplicáveis à situação.
Mas o sr. agente de autoridade estava com ar de quem ia multar todos os 35 automóveis que se encontravam mal estacionados. E eu cheia de pressa. Portanto, ataquei de plano B: despejar-lhe em cima todo o meu charme.
-Boa tarde! Não me multou o meu carrinho, pois não? -isto com um sorriso de orelha a orelha.
-Não sei qual é o carro da senhora.
-É aquele BMW preto.
-Ah, esse foi logo dos primeiros.
( sacana do homem) - Não me diga. Mas, rasgue lá o papelinho. Há mais de 20 anos que arrumo aqui o carro e nunca me multaram.
- Teve sorte.
( Raio do homem, não gosta, ou de Bmws, ou de preto).
Plano C - O que não tem remédio, remediado está. Ok, então quer o quê?
- Os seus documentos e os do carro.
Passei-lhe tudo para a mão, já sem sorriso nenhum. Só queria despachar-me e ir à minha vida. Viu tudo minuciosamente, deixou cair não sei quantas vezes os químicos das 3 vias no chão, perguntou-me "n" vezes com quantos tês se escreve o meu apelido e 25 minutos e 30 euros depois, consegui arrancar para o Corte Inglês.
A boa disposição da manhã estava um pouco abalada, mais pelo encontro com o polícia do que pela multa. Não gosto de polícias. Despertam-me energias negativas.
Mais abalada ficou depois de dar 3 voltas no estacionamento até encontrar um lugar para o carro.
Mas melhorei assim que comecei a subir as escadas rolantes.
Adoro o Corte Inglês. Foi amor à 1ª vista desde que abriu, mas o coup de foudre deu-se a 1ªvez que fui ao supermercado e vi a chuvinha que cai em cima dos peixes.
Só tinha visto aquilo em Nova Iorque já há muitos anos, e quando vi na peixaria do Corte Inglês fui como que teletransportada para o Whole Foods de Columbus Circle.
Dirigi-me exactamente à peixaria, principal razão da minha ida lá. Tirei o ticket e esperei pacientemente na fila até que chegou a minha vez.
- Olá Zézinha, está boa? - cumprimentei a simpática vendedora que costuma atender-me.
- Olá Sôtora, como está? Então hoje vai querer o quê?
- 2 gorazes, mais ou menos com 1 kilo e meio cada um, por favor.
- Ah, estamos mal. Não tenho. Só tenho ou de 600, 700 gramas ou com mais de 3 kilos.
- Não me diga. Não pode ser. Tenho visitas para jantar e preciso mesmo dos peixes.
- Pois, mas não tenho. Só se levar outro peixe.
Pus-me a olhar para os peixes todos expostos, mas nenhum me servia para o fim em vista.
Nem as engraçadas fanecas mesmo pedindo para ser fritas e acompanhadas com um arroz de grelos, nem os alaranjados salmonetes que só ficam bem grelhados, muito menos o peixe-espada preto, cujos filetes são uma ravilha acompanhados com banana.
E agora? pensava eu enquanto pela minha cabeça desfilavam receitas de peixe, mas nenhuma se aplicava ao belo prato de peixe assado no forno que tinha imaginado. Sentia-me cada vez mais enervada, sentindo ainda por cima, que a fila atrás de mim aumentava na proporção da minha indecisão.
Delicadamente, virei-me para trás e disse à senhora que estava logo a seguir a mim:
- Desculpe, mas é que estou mesmo sem saber o que fazer.
- Não tem importância. Não se preocupe comigo. Tenho todo o tempo do mundo.
Disse isto com uma voz muito baixa, quase em surdina e de forma arrastada.
Achei estranho tanta delicadeza, mesmo para clientes de um super mercado chic, mas preocupada com o meu problema nem liguei.
Virei-me para a peixeira que aguardava pacientemente:
- Ó Zézinha, dê-me uma ajuda. O quê que eu faço?
- Só se levar pargo. Pargos tenho do tamanho que quer.
- Pargo? Mas eu não gosto de pargo. Quer dizer, a minha avó é que me ensinou a comprar peixe e sempre me disse que o goraz é menos seco que o pargo. Por isso lá em casa sempre se comeu goraz. Mas...não sei...pese lá um pargo.
Ela escolheu metódicamente um pargo, pesou e anunciou como se estivesse a cantar os números da sorte grande:
- 1 kilo e meio!
Fiquei a olhar para ela e para o pargo, sem me decidir. E se o peixe era seco?
Virei-me outra vez para trás e repeti:
- Peço desculpa por esta demora. Mas é que vinha com uma ideia determinada e agora não sei mesmo que fazer.
Foi no mesmo tom de voz muito baixo, quase imperceptível e arrastado que a senhora respondeu:
- Não se preocupe. Esteja à vontade. Eu sou só um corpo sem espírito.

29 nhận xét :

Tiago. said...

Hoje o Reflexões Exteriores faz anos! Passa por lá! :)

Tiago

Fátima André said...

Deliciosa aventura :))

Uma excelente semana para ti!

PS. Deixei um comentário no post anterior... talvez se tenha perdido pelo caminho :(

sagitario said...

mais uma história da vida real, para isso só as pessoas que andam na vida e se preocupam com os outros a sabem contar, como é o seu caso.
Vou seguir com todo o interesse, pois a história deve ser muito sofrida.

utopias said...

Oh amiga, hoje fizeste-me lembrar de uma passagem blíblica em que, depois da ressurreição, os discipulos duvidam ... passa lá pelo meu blog. Não me reconheceste pelo meu abraço???
Beijinhos e Sorrisos :)

Filoxera said...

Ia comentar que também não simpatizo muito com polícias; de trânsito, sobretudo...
Depois, que se a protagonista és tu, dar-te os parabéns por conseguires estacionar no Corte Inglés.
Mas o que me ficou mesmo retido foi a frase final: "sou só um corpo sem espírito"- tanto haveria a dizer sobre isto!...
Mas you know what I mean...
Beijos.

carlota said...

Ao contrário de ti eu adoro Pargo assado no forno. Acho mesmo um peixe delicioso.
A essa senhora que dizia ser um corpo sem espirito fiquei intrigada.
Que história de vida estaria por trás dela...eu sou curiosa.
eu tambem adoro o Supermercado e a loja gourmet do Corte ingles. É o unico local onde consigo encontrar alguns produtos.
Sou cliente frequente e provavelmente já nos cruzamos :D

Maria said...

Por mim ia para a dourada ou para o robalo, mas não os comprava no corte inglês, e tu sabes...
:)))
Fico por aqui agora.

Boa semana para ti

Beijos azuis

Pitanga Doce said...

Uma peixaria onde cai uma chuvinha em cima dos peixes? Essa ainda não vi mas deve ser fixe.
Um conselho, ou decides logo pelo pargo, que com batatas assadas no forno fica bom demais, ou vai para a fila da carne, mulher, que esse "ghost" que está atrás de ti já começa a ficar nervoso.

boa semana Bluevelvet

Paula Crespo said...

Grande final o desta história... arrepiante!
Bjs

Patti said...

É concerteza um regalo para os olhos a charcutaria, peixaria, talho e queijos do corte inglês. Também lá passo e me deleito. Sou fá dos hamburgeures biológicos deles e do confit.
Mas não dispenso o comércio tradicional e sou uma privilegiada pois tenho acesso a ele a qualquer hora do meu dia.

Sempre quero saber dessa senhora, que sem te conhecer de parte nenhuma, te responde assim. Vou aguardar.

Carlos Barbosa de Oliveira said...

Quem vai comprar peixe ao Corte Inglês está a pedi-las... Ai está, está!
Aguardo o desenrolar dos próximos capítulos...

BlueVelvet said...

Tiago,
já lá fui e deixei parabéns.
Voltarei para ler com tempo.
Veludinhos azuis

BlueVelvet said...

Fátima André,
foi mais que uma aventura.
Verás na 2ª parte.
O teu outro comentário, de facto, não chegou.
Beijinhos tribais

BlueVelvet said...

Sagitário,
obrigada pelas tuas palavras.
Soubéste ler nas entrelinhas...
Beijinhos

BlueVelvet said...

Utopias,
abraço?
lamento mas não entendi:(
Veludinhos azuis

BlueVelvet said...

Filoxera,
I know what you mean, sim.
Beijinhos amiga

BlueVelvet said...

Carlota,
eu não sabia se gostava.
Nunca tinha comido.
Beijokas

BlueVelvet said...

Maria,
voltáste:))
Mas a dourada e o robalo não davam para tanta gente:))
O resto eu sei, sim.
Beijinhos e boa semana

BlueVelvet said...

Pitanga,
a chuvinha é o máximo. E em Nova Iorque também cai em cima dos legumes. Só visto:))
Quanto à carne, esqueceste-te que sou vegetariana...
E o ghost... bem, tens que voltar para saber o fim da história.
Beijokas

BlueVelvet said...

Paula,
não acabou a história:)
Acaba hoje.
Beijinhos

BlueVelvet said...

Patti,
cá te espero:))

BlueVelvet said...

Carlos,
é só mais um capítulo: acaba hoje.
Beijinhos e boa semana

Grace Olsson said...

Blue, estou acompanhando;.nbeijos e dias felizes, querida

Cecília said...

Lá ficámos nós em suspenso por mais uma história, que se adivinha intensa....
Logo hoje que estou tão apressada, tão cheia de stress, tão nervosa e tão saturada de trabalho até ao tecto, ficar "pendurada" assim, Velvet, não é justo, principalmente porque já são estas horas e só vou poder voltar amanhã!

Ohhhh, amuei....

P.S. Mas amanhã cá estou....

1/4 de Fada said...

Só consegui chegar agora, depois de uma tarde inteira sem acesso à internet e dou de caras com uma história destas! Mais uma das magníficas narrativas da BlueVelvet que termina precisamente na parte em que eu já estou agarrada à cadeira. Um corpo sem espírito! Amanhã vou estar de plantão na sala de computadores lá da escola!

Antonio saramago said...

VAMOS A VER SE NÃO APARECE POR AQUI ALGUEM A DIZER (NOVAMENTE)QUE É UMA HISTÓRIA e não uma passagem REAL num dia de sinal menos...
Afinal, o parguito era bom ou não?

salvoconduto said...

Eu quero lá saber do corpo sem espírito! Quando saio à rua vejo resmas deles!

Eu quero lá saber do pargo, do goraz, do peixe espada preto ou do sacana do polícia!

Eu quero é para amanhã, pró almoço, umas fanecas fritas com arroz de grelos!

Já está um Quinta de Camarate branco no frigorífico.

Será que esta noite vou sonhar com as fanecas ou com a tal senhora sem espírito?

Abreijo

f@ said...

O corpo desagregado pelas incursões da vida…nega-se a persistir oco... sem rumo sem caminho sem voz...

Agente de polícia é pior que larápio …
Mas então e tu em vez de ires logo ter com o agente de autoridade ainda te pões a ver montras!... Choravas furtavas o livro das multas raptavas o próprio agente, ou convidavas para um chá : - Sr agente acompanhe-me a casa estou em pânico… o Sr. tb deve andar exausto….mas fui assaltada agora mesmo… e desmaiavas …se é que valia a pena!… ainda te escrevia o bilhetinho na mesma… lol….

beijinhos das nuvens

Oliver Pickwick said...

Altas horas, mente cansada. Leio este amanhã.
Um beijo!