7 October 2008

UM CORPO SEM ESPÍRITO ( FIM )


Mais do que a estranha frase foi o tom em que foi dita que me fez esquecer o meu problema da escolha dos peixes e olhar para quem tinha falado com olhos de ver.
Era uma senhora dos seus sessenta e tal anos, com uma ar muito delicado e extremamente bem vestida.
E a senhora era beige.
Os sapatos eram castanhos a condizer com a mala Hermés e com o saia-casaco. Tinha uma écharpe beige em cima de uma camisola beige, os cabelos alourados e a cara beige.
Os olhos não tinham qualquer expressão.
- E então, Sôtora? Leva o pargo ou o goraz?
Voltei a cabeça incomodada e olhei a peixeira que segurava um peixe em cada mão.
-Olhe que o pargo é legítimo e além disso é mais barato. Parecendo que não, são alguns euros de diferença. E a vida como está...e só tem ar de piorar...olhe, eu tenho medo é pelos meus filhos.
- E eu pelos meus netos.
A senhora que estava atrás de mim, estava agora ao meu lado e tinha murmurado aquela frase.
- Bem, os meus já estão encaminhados, mas como as coisas estão, nunca se sabe - disse eu com a sensação de que tinha que dizer qualquer coisa.
- Os meus também estavam, mas desde que partiram o que me peocupa são os meus netos.
- Ah, sei bem o que isso é. Um dos meus também foi para Nova Iorque e não deixo de me preocupar, mas eu não tenho ainda idade para ter netos.
Disse isto afastando uma ideia que me tinha passado pela cabeça, quando ouvi o que a senhora dissera à peixeira.
- A senhora leve o pargo. Pode levar à vontade. Desde que seja legítimo é muito bom. Os meus filhos diziam-me sempre: - A mãezinha compre pargo, mas só se for do legítimo. Agora que se foram, já não tenho ninguém para o comer, mas venho sempre comprá-lo. Por eles. E tudo o que faço é como fazia para eles. Durante um ano vivi como uma louca. Pensaram que eu tinha enlouquecido. Agora estou muito melhor. Já consigo sair de casa. Claro que estou forrada de comprimidos, mas ao menos já consigo rezar. A única coisa que me aborrece é que quando começo a Avé-Maria, a certa altura não sei bem em que parte vou e tenho que recomeçar do princípio.
A Zézinha continuava com os peixes na mão sem entender uma palavra do que a senhora dizia.
- Zézinha, eu levo o pargo. Dois. Arranje-os para assar no forno, se faz favor.
Disse isto como se estivesse no meio de uma nuvem de algodão e a seguir fiz uma coisa que vai contra a minha maneira de ser e contra qualquer regra de boa educação. Mas, saiu-me, sem eu mesma perceber.
- Desculpe, a senhora está dizer-me que perdeu 2 filhos?
- Sim, no mesmo dia, num desastre de automóvel. Há um ano e meio.
E consegue rezar, pensei eu. Fiquei sem palavras. E disse-lho, com toda a sinceridade.
- Não sei que lhe diga. Não tenho palavras. Não sei o que se diz a uma mãe...olhe..desculpe...mas não sei.
- Não se preocupe. Eu entendo.
A Zézinha, alheia a tudo isto, estendeu-me o saco com os peixes, eu peguei-lhe como um autómato, e despedi-me:
- As suas melhoras e coragem - e comecei a afastar-me.
- Felicidades para os seus filhos e vai ver que vai gostar dos pargos - disse ela muito baixinho.
Fiz então a segunda coisa que nunca me lembro de ter feito. Mas também nunca me tinha acontecido uma coisa assim.
Rodei nos calcanhares, voltei para trás e de saco com os peixes não mão, abracei a senhora com um abraço apertado e sentido.
Deve ter sido uma cena estranha para quem viu mas não me importei com isso.
- Obrigada, disse ela.
Afastei-me sem olhar para trás, com as lágrimas a correr pela cara abaixo, mas ainda a ouvi dizer:
- Zézinha, é o pargo legítimo do costume.

Nota: esta história é real. Passou-se comigo há dias atrás.

38 nhận xét :

Pitanga Doce said...

Agora quem ficou beige fui eu.

boa noite Bluevelvet

Maria said...

Há dias assim, em que nos cruzamos com PESSOAS!
E que bom que é cruzarmo-nos com Pessoas, que nos põem a pensar, que nos trazem ao de cima sentimentos que estavam adormecidos....
Mas, ó Blue Velvet, tinhas que ir comprar o peixe ao corte inglês?
Ai que nervos...

Beijinhos azuis

Paula Crespo said...

Por mais que se diga "imagino...", não se imagina uma dor dessas. Transcende tudo porque é contra-natura.
Bjs

nuvem said...

Tantas são as histórias de outros que se cruzam com a nossa... Somos um livro cheio de anotações nas margens, sublinhados e rasurados... E há sempre mais uma personagem que nos toca enquanto escreve nas nossas páginas sem pedir licença...

Mil beijos

f@ said...

Triste.

Luto dos sonhos…
Como uma fuga
Ausentar-se assim do corpo em viagem para os confins da recordação…

Beijinhos das nuvens

Filoxera said...

Conheço duas senhoras que perderam já dois filhos cada uma. É dose!...
Não há palavras, de facto...
Beijos.

Cecília said...

A ficção tem, na realidade, a sua maior inspiração e concorrência: os sentimentos, as intuições, as irracionalidades, as censuras interiores, a timidez, a rebeldia, a coragem, o desânimo, a perda, o reencontro, a alegria, a tristeza, a luta, a vitória, a derrota, afluem instantaneamente e em doses variáveis, a cada cérebro. As reacções em cadeia, que daí resultam, possuem uma receita complexa, de ingredientes altamente instáveis, que nenhuma ficção consegue dosear, misturar e cozinhar com o mesmo sabor autêntico....

1/4 de Fada said...

Li e não consigo comentar já. Sobreviver aos filhos é contra a natureza. Volto depois.

BC said...

A história está espectacular,aliás como todas as que escreves, de uma realidade fantástica.
Porque esta é a realidade da vida.
BEIJINHOS

carlota said...

Curiosidade satisfeita e lágrima no canto do olho.
Agora sou eu que nem sei que dizer.
As palavras nestas coisas não conseguem transmitir aquilo que nos vai na alma.

E então gostaste do Pargo?

Patti said...

Pormenores que descreveste, um pouco díspares nessa senhora.
Perder dois filhos e sair para a rua de carteira Hermés e toda de beije a fazer pendant, não combina de todo comigo.
Mas realmente uma história triste e nem quero pensar como será. Valeu o teu abraço.

Pitanga Doce said...

Ó Patti, vamos provocá-la para aliviar o clima? E ela ( a Blue Betty Boop) fez questão de nos dizer que não tem idade pra ser avó!!! Mas que coisa!

beijinhos e já vou

Patti said...

Pois é! Eu é que n tenho idade para ser avó, porque a Beatriz só tem 12 anos. E dizem que as Velevet dão umas avós upa-upa!

Patti said...

E que chic seria comprar artigos para as netas no Bloomingdales!

BlueVelvet said...

Pitanga,
pois. Agora imagina eu:(
Beijinhos

BlueVelvet said...

Maria,
LOL. Está bem. Já sei que não querias que comprasse lá o peixe. Mas não posso ir à tua ilha.
Beijinhos amiga.

BlueVelvet said...

Paula Crespo, é verdade.
Transcende tudo e torna os nossos "grandes" problemas em insignificâncias.
Beijinhos

BlueVelvet said...

Nuvem, que bom tu aqui, querida.
Tens razão: a nossa vida é um livro em branco, onde a nossa história se vai escrevendo com as histórias dos outros.
Beijinhos linda

BlueVelvet said...

Fa,
que lindo.
Ausentar-se do corpo...
Beijinhos amiga

BlueVelvet said...

Filoxera,
impossível de imaginar.
Beijinhos querida

BlueVelvet said...

Cecília,
um comentário que diz tudo, não é vizinha?
Beijinhos

BlueVelvet said...

1/4 de fadas,
mais uma das incongruências da vida.
Beijinhos amiga

BlueVelvet said...

BC,
obrigada pelas tuas palavras.
Só tentei passar para o papel as emoções díspares por que passei ao longo do dia.
Beijinhos

BlueVelvet said...

Carlota,
gostei sim.
Mas não volto a comer.
Embora não acredite que é por isso que vou esquecer esta história.
Mas enfim...
Beijinhos

BlueVelvet said...

Patti,
imagino que a senhora se vestia assim antes.
Portanto, tudo o que ela queria era repor um pouco de normalidade na vida dela.
Além de que para mim o luto não está no preto que se veste, mas no preto da alma.
Beijinhos

BlueVelvet said...

Ó Pitanga,
tu fazes favor de não me vir provocar?
Ou tu julgas que todas as mulheres têm a sorte de ser avós com a tua idade e ainda para mais com esse corpinho...
Beijokas:)))

BlueVelvet said...

Ah, a Patti também quer guerra:))
Qual Bloomingdales, qual carapuça.
Saks, menina. Saks.
LOL

1/4 de Fada said...

Voltei e reli a tua história com outros olhos, mais atentos mas também mais desiludidos... Continuo sem vontade de grandes comentários, em primeiro lugar porque a história fala por si, em segundo lugar porque as circunstâncias do dia tiraram-me ainda mais a vontade de o fazer... Devemos agarrar todos os momentos felizes que podemos, porque são efémeros.

sagitario said...

faço votos para a senhora de beige, escontre sempre uns abraços amigos como o que lhe deu, talvez a vida dela tenha mais um pouco de alegria

Patti said...

Eu não falei do beije por não ser luto. Nem ligo nada a preto-luto.
Falei do beije pela preocupação do pendant. Preocupação essa que eu não teria, se tal fatalidade me aparecesse na vida.
Mas não somos todos iguais.

BlueVelvet said...

1/4 de Fadas,
tens razão fadinha.
Não é o melhor dia para grandes comentários.
Beijinhos

BlueVelvet said...

Sagitário,
tomara ela encontre qualquer coisa a que se possa agarrar.
Veludinhos azuis

BlueVelvet said...

Patti,
percebi que não te referias ao luto, mas ao facto de estar bem vestida e com as cores assorties.
Mas como disse, talvez seja uma forma de tentar viver de uma forma o mais aproximada possível da realidade.
Sei lá eu. Não consigo imaginar tal situação.

1/4 de Fada said...

Vou juntar aqui uma outra história verídica que conheço em 1ª mão e que me parece vir a propósito: passou-se (e continua a passar-se)com uma pessoa que me é muito próxima e que teve uma depressão gravíssima devido à morte de um familiar há quase 40 anos. A dita depressão atingiu uma intensidade tal que o psiquiatra que a tratava, desesperado pela ineficácia dos tratamentos utilizados, com receio de algum acto extremo, e perante a total ausência de reacção e de entusiasmo pela vida da senhora em questão, deu-lhe um conselho: nunca, em caso algum, deixar de se arranjar de manhã, nem abandonar, por pior que se sentisse, os cuidados habituais que tinha consigo. Conheci esta senhora já em idade avançada e sempre me espantou o cuidado que mostrava no seu vestuário, na combinação de cores, nos acessórios que usava, numa descrição em tudo semelhante à da senhora deste post. E, no entanto, sempre a conheci numa grande revolta e num grande desespero perante a vida... Foi ela mesma que me contou o conselho do psiquiatra, que nunca tinha esquecido e que sempre a acompanhou pela vida fora e que, segundo ela, tinha sido mais eficaz do que todo o restante tratamento. Disse-me inclusivamente que no dia em que eu a visse descuidada consigo, ou apenas com uma roupa que não fosse cuidadosamente escolhida para a ocasião, podia estar certa que ela tinha desistido definitivamente de viver... e que seria altura de eu me preparar para o seu velório...

Antonio saramago said...

PUZESTE-ME A CHORAR... é VERDADE!
SEM MAIS COMENTÁRIOS.

Carlos Barbosa de Oliveira said...

Esta história tem demasiadas semlhanças com a minha vida para que possa comentar. Desculpe
Beijinhos

salvoconduto said...

Oh pessoal contenham-se! Como venho só agora aqui encontro tudo enxarcado! À cautela vou só falar do pargo. Eu só sei se ele é legítimo no prato, ainda não tráz selo de garantia.

Abreijo

"Connect1on" said...

sem palavras pela isto. Nao sou de me emocionar com facilidade, mas isto tocou-me profundamente.
obrigada por partilhares isto connosco!
beijinho grande

sininho*