22 October 2008

O CORCUNDA


Corria o ano de 1926.
A Baixa de Lisboa era o centro da vida da cidade. Durante todo o dia os trabalhadores afadigavam-se nas suas tarefas diárias e à noite recolhiam às suas casas, situadas num dos bairros populares.
As ruas tinham nomes conforme os profissionais que nelas tinham as suas lojas e oficinas: Douradores, Sapateiros, da Prata, do Ouro, dos Fanqueiros.
Adelino estava a acabar o curso de Direito para ser advogado.
Todos os dias passava à porta de Mestre João, um dos sapateiros mais conhecidos da rua com o mesmo nome.
Tinha já alguma idade mas continuava a fazer os sapatos, as alpergatas, os socos com a mesma mestria de outros tempos.
A vida não tinha sido fácil para este homem, que além de ter começado o ofício muito cedo, fora marcado com um defeito de nascença que o tornava diferente de todos os outros: Mestre João era corcunda.
Mas Adelino não se importava com isso. Gostava do seu ar bondoso, das histórias que contava e gostava sobretudo de entrar na oficina e ficar a olhar para todas aquelas ferramentas, a maior parte das quais nem sabia para que serviam: a máquina de coser giratória, o martelo de bater sola, a grosa de sapateiro, a tenaz, os vasadores, o arremachador de agulheta. Estavam ordeiramente pendurados nas paredes e Mestre João explicava-lhe para que serviam.
Também gostava muito do Bobbi, um cãozinho rafeiro preto que o sapateiro tinha recolhido e adoptado numa fria noite de Inverno. Nunca saía da soleira da porta e aceitava de bom grado as festas que todos os passantes lhe faziam.
De todas as ferramentas havia uma de que gostava muito e outra que receava. A que Adelino mais gostava era a grosa de sapateiro, uma peça invulgar formada por duas partes e nas duas faces repetida. Metade lima, metade grosa.
A que temia era uma outra: a sovela. Adelino era capaz de ficar horas a ver como Mestre João trabalhava com ela sem se ferir. A sovela era um instrumento constituído por uma espécie de agulha direita ou curva e encavada com que os sapateiros e os correeiros furavam o cabedal para o coser. Mas à velocidade com que o seu amigo cosia, Adelino não entendia como ele nunca furava uma mão.
E achava graça às várias caixas de tintas de muitas cores, todas estrangeiras e a fita métrica de sapateiro cuja graduação era em centímetros e pontos.
Todo o bairro gostava de Mestre João e o respeitava, excepto um bêbado desnaturado que todos os dias passava à porta de Mestre João e o cumprimentava:
- Bom dia, ó marreco!
Há anos que o fazia e há anos que Mestre João o avisava que um dia ainda se ia arrepender. Mas ele não ligava às palavras do velho sapateiro e continuava cumprimentando-o sempre com a mesma frase estafada e ofensiva:
- Bom dia, ó marreco.
No Verão desse ano, Adelino concluiu o curso com média de 18 valores o que encheu de orgulho a família e todos os trabalhadores da rua.
Antes de ir de férias foi despedir-se de Mestre João que lhe deu um abraço sentido e os Parabéns.
Em Setembro quando voltou, no 1º dia em que foi trabalhar para o seu escritório na Rua dos Sapateiros, passou pela oficina de Mestre João, mas foi com surpresa que verificou que a mesma se encontrava fechada.
Foi com o coração apertado e temendo o pior, que se informou se tinha acontecido alguma coisa ao amigo.
Era grave, sim, mas pelo menos não tinha morrido.
Contaram-lhe que uma manhã, Alfredo, passando pela porta de Mestre João o tinha cumprimentado como fazia há mais de vinte anos:
- Bom dia, ó marreco.
E o velho sapateiro tinha-se levantado do banquinho em que trabalhava e furara-lhe a garganta com a sovela que tinha na mão.
O bêbado ficara no chão a esvair-se em sangue até ser transportado para o Hospital de S. José, antigo Hospital Real de Todos-os-Santos, onde já tinha chegado morto e Mestre João preso.
Adelino apressou-se a visitar o amigo na Penitenciária e depois de ouvir a sua história resolveu ser seu defensor.
O julgamento decorreu sem sobressaltos de maior, todas as testemunhas abonaram o excelente carácter de Mestre João, e chegou o último dia.
O dia em que Adelino iria fazer as suas alegações.
Como era de praxe, levantou-se, ajeitou a toga e começou:
- Data Vénia,
Exmo. Senhor Dr. Juiz,
Exmo. Procurador da República,
Caro Colega,
Minhas Senhoras e Meus Senhores.
Os magistrados, bem como todos os presentes fixaram os olhos em Adelino preparando-se para o ouvir.
Mas ele repetiu:
- Data Vénia,
Exmo. Senhor Dr. Juiz,
Exmo. Procurador da República,
Caro Colega,
Minhas Senhoras e Meus Senhores.
O Juiz olhou com estranheza para os colegas enquanto a assistência se entreolhava.
Mas Adelino continuou:
- Data Vénia,
Exmo. Senhor Dr. Juiz,
Exmo. Procurador da República,
Caro Colega,
Minhas Senhoras e Meus Senhores.
Na sala do tribunal da Boa Hora o silêncio era de espanto e não para ouvir o que o jovem advogado tinha a dizer. Nunca se tinha visto uma coisa assim. Parecia que estava gago ou engasgado. O único que sorria era Mestre João.
Fazendo uma pausa, Adelino retomou a palavra:
- Data Vénia,
Exmo. Senhor Dr. Juiz,
Exmo. Procurador da República,
Caro Colega,
Minhas Senhoras e Meus Senhores.
Dessa vez o Juiz perdeu a paciência e invectivou-o:
- Sr. Dr. Já cumprimentou o Tribunal e os presentes. Agora continue que já está a fazer-nos perder tempo.
O Dr. Adelino baixou a cabeça como uma criança apanhada em falta, limpou a garganta e fez ouvir a sua voz:
- Data Vénia,
Exmo. Senhor Dr. Juiz,
Exmo. Procurador da República,
Caro Colega,
Minhas Senhoras e Meus Senhores.
O Juiz levantou-se irritado e disse-lhe:
- Sr. Dr. O senhor está a desrespeitar o tribunal ou não está no seu juízo perfeito. Faça o favor de continuar. Já estamos todos mais que cumprimentados.
Adelino dirigiu-se para o centro da sala e continuou:
- Peço desculpa, mas não pretendi ofender ninguém. Limitei-me a cumprimentar respeitosamente todos os presentes. Mesmo assim, todos ficaram impacientes e até pensaram que estava a faltar-lhes ao respeito.
O que acham que o acusado sentiu sendo chamado de corcunda pela vítima, durante 20 anos?
Adelino tinha demonstrado o que queria.
Ganhou a sua 1ª causa.
Mestre João foi condenado a 1 ano de prisão com pena suspensa e voltou à sua oficina onde continuou a trabalhar mais alguns anos, tendo por companheiro o seu fiel Bobbi.
E o Dr. Adelino começou ali aquela que viria a ser uma carreira mais do que brilhante.

Nota: Ouvi esta história, era eu bem pequenina, em casa de meus pais da boca do próprio Adelino...da Palma Carlos.

19 nhận xét :

Patti said...

Muito interessante e curiosa a tua história Velvet. Sabes que ainda hoje, quando preciso de forrar sapatos para alguma cerimónia, é à rua dos Sapateiros que eu vou?

Gostei muito dos teus pormenores da descrição da oficina e de todos os seus utensílios, é isso que enriquece uma história bem contada como esta.

salvoconduto said...

Deliciosa!

Queres saber uma coisa? Na minha vida conheci dois sapateiros, um deles era corcunda o Maurício, onde me sentava num banquinho a ouvir as sua dissertações sobre a vida e muito principalmente sobre os padres...

Um abraço para ele esteja onde estiver!

mfc said...

Nota-se a ternura com que nos fazes o relato.
O cuidado na escrita, a minudência do detalhe, a cumplicidade para com os dois intervenientes principais
Uma história contada... em azul.

Sorrisos em Alta said...

Mais um excelente texto para o curriculum!

PS - Espero que a pena ainda hoje seja igual, pois também há um ou dois a quem me apetece espetar coisas na garganta...
;o)

Beijinhos

Antonio saramago said...

A tua forma de nos prenderes ás tuas palavras é verdadeiramente fascinante.
Quem diria que o DR Palma Carlos tinha começado a sua Fama dessa maneira.
Nota máxima para mais esta história.
SRA DRA.Qual é a máxima que se pode dar?
Beijinho a voar com o vento a pregar-se no teu rosto.

1/4 de Fada said...

A grande diferença entre uma boa história muito bem escrita e uma história magnífica muitissimo bem escrita está aqui bem patente. A vida real pode servir de base às histórias imaginadas que lemos, mas nunca nos fica o sabor que esta me deixou...

Si said...

Lições de vida, de moral, de princípios, de respeito e educação, inspirados em factos que ultrapassam a ficção.
O mundo teria muito a ganhar se todos aprendessemos com os rastos que a História nos deixa...
Prendinhas azuis

Maria Clarinda said...

Não calculas como gostei de ler esta história que ouvias contada pelo próprio Adelino...agora, aquela rua terá um sabor especial quando lá passar....Jhs muitos.

sagitario said...

Velvet,
é uma história muito antiga, mas sempre actual, só nos demonstra que a paciência tem limites e qualquer pessoas pode perder as estribeiras.
Mas gostava que fosse até ao meu cantinho, pois publiquei um poema que o meu filho escreveu quando tinha 16 anos, aliás foi uma altuta bastante dificil para ele e para mim como mãe a criá-lo sozinha e com todas as dificuldades do mundo, por muito que façamos nunca podemos substituir a outra parte ausente.
Mas em parte o seu blog ajudou-me a deitar cá para fora o que me vai na alma e isso faz-me sentir bem,
obrigada pelas suas histórias tão reais

Filoxera said...

Com todo o pormenor, uma história interessante e uma lição.
Beijos.

samuel said...

Genial!!!

BC said...

Com a realidade podemos escrever uma boa ao dia à dia as pessoas simples da nossa sociedade e ainda por cima, profisssões que hoje já são tão raras por aqui, mas que nos fazem recuar no tempo e ir a sítios recôndidos da nossa imaginação, onde ainda existem os sapateiros, os limpa chaminés, os
amuladores (que vinham em dias que
obrigatoriamente seriam aqueles em que iria chover)e que acontecia
a maior parte das vezes por incrível que pareça.
Mas infelizmente qualquer dia ficam mesmo só na nossa imaginação.
Beijinhos

Carlos Barbosa de Oliveira said...

Conheci essa história quando andava na Faculdade de Direito. A grande diferença é que era despojada de todos os detalhes que a Bluevelvet narra e lhe dão um sabor muito mais picaresco e ternurento.

f@ said...

História brilhante simples comovente...o rigor dos detalhes...
A paciência tem limites... e até um bom homem é capaz de uma loucura quando humilhado...
O brio e o talento profissional quando executados com gosto e por causas como esta que descreves tem um mérito maior...

Beijinhos das nuvens

BlueVelvet said...

Sorrisos,
não te aconselho:))
E depois, não há muitos Palma Carlos por aí.
Beijokas

BlueVelvet said...

Obrigada a todos que por aqui passaram.

Tretoso Mor said...

Veludinho,

Fabuloso!...

Admiro a habilidade mental.

Tretices azulinhas para ti

http://tretas-da-vida.blogs.sapo.pt/

Paula Crespo said...

Excelente história! E uma boa estratégia de defesa: uma bocadinho arriscada, mas vá... ;);)
Bjs

Oliver Pickwick said...

Muito, muito boa, Velvet! Até o estilo da escrita é compatível com a época. Excelente narrativa, ótima descrição do ambiente. Quase senti a atmosfera do lugar.
No entanto, se fizesse parte do corpo de jurados, votaria pela condenação do sapateiro. Sabe que sou meio à moda antiga, fã do código de Hamurabi.
Um beijo!

P.S.: Na minha infância e juventude, fiquei célebre no bairro por tornar-se um excelente criador de apelidos. Depois de ler o seu conto, só agora percebi o risco de tal ofício.