19 January 2008

NEM TODA A SAÍDA É UMA ENTRADA PARA OUTRO LADO

Num livro que comprei em Nova Iorque de um americano que é um estudioso da filosofia Zen, chamado Tom Stoppard, entre muitas outras, houve uma frase que me chamou a atenção: - Qualquer saída é uma entrada para outro lado.
Não concordo com ela, porque transmite uma ideia de continuidade e de esperança, que por experiência própria sei que não corresponde à verdade..
O povo costuma dizer “que enquanto há vida há esperança.”
Defendo que “ Enquanto há esperança, há vida”.
A esperança é uma energia interna que cresce a cada momento e que nos torna capazes de derrubar muros que considerávamos intransponíveis. Mas tem que se materializar numa luzinha ao fundo do túnel para nos ajudar a enfrentar os quotidianos penosos, para podermos acreditar que qualquer saída é mesmo uma entrada para outro lado...que o dia que amanhece pode ser mais brilhante que o anterior. É algo irracional, ilógico...uma espécie de fé inabalável que, enquanto existe, nos mantém vivos!
Lembrei-me também de um ensaio de Píndaro que li há muitos, muitos anos, onde sublinhei “ A esperança doce alimenta, cuida na velhice, acompanha. É ela que conduz de modo exímio o coração disperso dos mortais “
Então, fiquei a remoer nisto da Esperança.
Não sei se é doce, mas é pungente.
É complexa e paradoxal.
Desde logo é um fenómeno exclusivo da existência humana. Não me parece que os animais tenham esperança!
Mas é paradoxal porque quando começa a morrer, torna-se pungente.
E temos nós alguma influência no acto de perder a esperança?
E se temos porque perdemos se sabemos que dói?
E é complexa, porque há muitas formas de esperança.
Tem, no entanto, uma característica essencial: toda a esperança tem a ver com o futuro.
Às vezes, pode ser vã, criar apenas a ilusão de que tudo é possível e ser apenas uma fuga para a frente que acaba por nos fazer despenhar.
Pode, se for alicerçada em bases reais, superar as nossas melhores expectativas. Esta esperança, sim, talvez seja doce.
Começa por ter um gosto doce quando nos permite colorir o nosso dia a dia, quando se constitui como a excepção à regra da sequência de todos os dias sempre uns a seguir aos outros, quando vem até nós para anular o desgaste e a erosão provocados pela repetitividade e monotonia do tempo, enquanto não chega o tempo que esperamos, com Esperança.
Mas a esperança, só é genuinamente doce, quando acaba com todo o nosso desespero. Esta é a experiência mais radical da esperança que podemos ter.
Sem esperança, tudo parece estar perdido.
Não nos reconhecemos.
Não sabemos sequer para que sítio havemos de ir, porque nos parece já termos estado em todo o lado.
Sem esperança, não resta ninguém, porque já conhecemos toda a gente.
Sem esperança, ficamos sem futuro porque já vivemos todas as vidas que tínhamos para viver.
Sem esperança não somos ninguém.
Mas às vezes, vinda não se sabe de onde, pondo-nos não sei como, há uma inversão de maré, do desespero nasce a esperança, e a esperança traz a mudança.
E esta esperança resgata-nos ao esgotamento total dos recursos para continuarmos.

Nota: A imagem é de um quadro da pintora brasileira Alice Vilhena e chama-se Esperança.

13 nhận xét :

Klatuu o embuçado said...

Depende muito do que se está a falar... até porque a esperança é como os pastéis-de-bacalhau... :)

anna collongues said...

serasse que a esperança ta a despertarsse por ai !??? que bom mesmo blue ! beijos

Lorenzo Monsanto said...

Acho que o segredo está nos objectivos.

Se tivermos objectivos de "lamber o beiço" a esperança, fé e crença, abarcam logo o nosso espírito e ficamos munidos de força. Aquela força que nos faz levantar de manhã e que nos impulsiona sobre os "muros que considerávamos intransponíveis."

Gostei muito desta reflexão e da tua visão sobre esta questão.

***

Xana said...

"Defendo que “ Enquanto há esperança, há vida”. ( Eu também assim defendo )
Mas é paradoxal porque quando começa a morrer, torna-se pungente." ( sem dúvida!)

Excelente texto teu aqui de reflexão, adorei blue.

;) e a resposta de: Quem és tu???
está lá mesmo... em "notas soltas"!

Beijos de veludinhos, bom fim de semana

Oliver Pickwick said...

Não vou nem comentar, Velvet, adoraria assinar esse artigo/ensaio.
Beijos.

Olá!! said...

Seja qual for a batalha que travamos nunca podemos perder a esperança...
Lindo texto, Blue, bonitos ensinamentos....
Beijossssssss

Maresi@ said...

Gostei dessa tua filosofia...e desse pensar....

Beijo suave ___maresia

Sol da meia noite said...

Minha amiga
Pois realmente... criar mais uma ilusão, é inventar mais sofrimento. É iniciar um processo bem doloroso...
Um pouco complicado para mim dizer algo mais...

Gostei do que escreveste.
Beijinhos

Um Momento said...

Bem...
Estou sem palavras...
Adorei este texto Blue...de coração
Minha Doçura...Esperança...Sempre

Deixo-te um beijo Enorme e muito, muito agradecido por este maravilhoso texto

(*)

Blue Velvet said...

Klatuu,
não sei bem o que tem a esperança a ver com pastéis de bacalhau, mas obrigada pela visita.

Anna,
serasse que ésse?
Beijinhos

Lozenzo,
obrigada pela visita.
Às vezes nem com esses de " lamber o beiço" conseguimos, mas já vi que é um optimista.
beijinhos

Xana,
obrigada pelo elogio e pela resposta. :)
Beijinhos

Oliver,
fiquei corada com o elogio.
Obrigada.
beijinhos

Olázinha,
este teu boneco é o fim :)
Beijinhos

Maresia,
obrigada pela visita.
Volta sempre.
beijinhos

Sol,
ainda benm que gostaste.
Beijinho para ti

Mi, querida
que bom que gostaste.
Beijinhos

Carminda Pinho said...

A esperança não é doce, não acalenta...a esperança, é o dia de amanhã, para quem nada mais tem além dela, da esperança, é como que um refúgio, para o passar do dia em que nada acontece e, que se esperava acontecesse.
Um dia (quando perdi o emprego) disseram-me: - tem esperança, quando Deus fecha uma porta, abre logo uma janela.
Fiquei a pensar neste dito, ou ditado (não conhecia) e acalentei a esperança...até hoje nada mudou.
Desde há uns tempos a esta parte a minha esperança é ...um dia de cada vez.
Beijos

MIMO-TE said...

Volto amanhã amiga,
Ler-te hoje e a esta hora seria pura palermice. Descilpa é mesmo uma questão de sonoooooooooooooo!!

Mimos
Volto
Bjo

Pekenina said...

Concordo plenamente contigo. Desculpa a ausência, mas não estive cá o fim-de-semana todo pelo que ando muito atrasada :p
Beijo*