26 January 2008

O PREÇO DE TUDO E O VALOR DE NADA


Dado que o ser humano é eminentemente um ser sociável, poucos são os que não gostam de ter amigos, de se dar com outras pessoas, de ter grupos, de viajarem juntas, enfim, de certo modo de se sentirem integrados numa determinada sociedade.
Esse é o grande grupo a que todos pertencemos.
Os que assim não são, até têm nome. Pouco sociáveis, bichos-do-mato, e expoente máximo: eremitas.
Depois há os grupos mais pequenos: a tribo e a família.
A família não se integra no tema sobre o qual hoje discorro.
A tribo o que é?
É aquele grupo a que pertencemos por escolha própria por infinitas razões: porque somos culturalmente semelhantes, porque gostamos do mesmo tipo de filmes, porque lemos o mesmo género de livros, porque frequentamos os mesmos restaurantes e tendencialmente até porque nos vestimos e falamos do mesmo modo.
E estamos sujeitos a uma infinidade regras, que quando não cumpridas, nos diferenciam imediatamente uns dos outros e, pior, faz com que imediatamente se perceba que não pertencemos àquela tribo.
E as regras mudam. Com o tempo!
Há que estar atento.
Há dois tipos de homens: os que só usam meias azuis escuras e os que usam meias brancas: os chamados pé de gesso.
Pertencem obrigatoriamente a tribos diferentes.
Quem cumprimenta alguém com 2 beijos não pode pertencer à mesma tribo dos que só dão um beijo como cumprimento.
E, se a pessoa beijada fica de cara estendida à espera do segundo beijo, só com esse sinal denuncia que a sua tribo é outra.
Fui sempre muito rebelde, palavra educada para dizer que nem sempre actuava “by the book”, mais tarde passei a politicamente incorrecta e, quem sabe um dia não me chamarão extravagante!
Sempre defendi a liberdade a todo o custo, sendo que a liberdade vai desde fazer o que gosto à liberdade de um povo ou de um País.
Liberdade é liberdade.
Point, à la ligne.
Ou há ou não há. Não há liberdadezinhas.
Até aos trinta anos esse comportamento não levantou grandes críticas, mas eu também tinha algum cuidado em não chocar demasiado as pessoas.
Depois, decidi que não adianta.
Não vale a pena.
E já agora, aquela célebre frase: “já não tenho idade para fazer fretes”, resolvi segui-la.
Quero lá saber se as mulheres depois dos 30 não usam cabelo comprido. Sempre usei, é assim que me sinto bem e jamais andarei de cabelo curtinho, com mises certinhas e cheias de laca, nem quando tiver 70 anos.
Gosto de saias curtas e de vestidos de noite decotados. Será ridículo quando tiver 60 anos? Não quero nem saber.
Não gosto de Saramago. Nem do escritor nem da pessoa. Blasfémia? Que seja.
Não sou fã dos filmes de cinemateca e não faço tenções de o esconder.
Tanto leio Danielle Steel como os grandes clássicos e não escondo os livrinhos da senhora que mais livros do género vende no mundo, só porque é considerada literatura de avião.
Gosto do Winnie the Pooh, da Betty Boop e do Garfield. Já não sou criança, dizem.
Pois não, mas o António Vitorino de Almeida tem centenas de peluches, alguns dos quais o acompanham nas suas viagens.
Ah, mas ele é um génio! Será. E daí?
Com vestidos não gosto de vestir roupa interior. A minha mãe põe as mãos na cabeça e diz: “ Já viu se lhe acontece alguma coisa, a vergonha que é no hospital quando virem que não tem nada por baixo do vestido?”
Ora, a Billie Holiday sempre cantou sem cuecas e não foi isso que a impediu de ser quem foi.
Não acredito numa única letra da frase que algumas mulheres repetem, quando afirmam gostar das suas rugas: - Que as rugas têm história!
Mas se eu não ando a contar às pessoas desconhecidas a minha vida, as minhas histórias, por que carga de água as minhas rugas o deveriam fazer?
Se tiveram a paciência de me ler até aqui, deverão estar a perguntar-se: - Mas a que propósito vem isto?
Pois explico:
Relendo um livro de Óscar Wilde, há uma frase dele que diz assim: - Hoje em dia, as pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada.
Pois então é isso mesmo.
Liberdade é saber o que está para lá do preço.
Ser livre é dar valor ao que não tem preço.
Como ler o livro que se quer.
Ver os filmes de que se gosta.
Gostar de quem nos ampara.
Seguir o nosso coração.
Doa a quem doer.


22 nhận xét :

Maria said...

Ó Baby Velvet, comentar este post dava-me pçara escrever o triplo do que tu escreveste. descansa que não o vou fazer.
Até sorrio, com ele.
Porque já passei, há muito, a idade dos trinta.
Porque gosto de Saramago (do escritor e do Homem, que conheço pesoalmente).
Porque conheço também o A. Vitorino de almeida, e os peluchos dela são tema para conversa mais privada. Mas gostei, e muito, da "ousadia" deste post.
Talvez volte aqui, consoante os comentários......

Agora, a esta hora, eu, membro de TRIBO, deixo-te um beijo!!!!!!!!!!!!!

parvinha said...

Blue gostei muito do que li, é claro que sou membro de uma tribo, felizmente...são eles que acompanham os meus passos, eu estou nos trintas, mas as idades são diversas!
Não largo mão da minha liberdade e da minha forma de estar mesmo que considerem estranha!
Nada como respeitar as diferenças e acima de tudo sermos fiéis a nós próprios!
Mudar em função do que o outro pensa, NÃO!
Até porque ouve alguém que me disse o que os outros pensam de mim não me diz respeito!
Palavras sábias.
Bom domingo
Beijinhos

Blue Velvet said...

Maria,
bem gostava que deixasses o tal comentário/post. :)
Fiquei morta de curiosidade com os peluches do Vitorino de Almeida. Vais ter que me contar, ou queres que tenha um ataque de urticária?
O que importa é que gostaste do Post e que és da TRIBO.
Beijinhos

Blue Velvet said...

Olá Gi,
adorei a frase:- O que os outros pensam de mim, não me diz respeito.
Vou decorá-la.
Beijinhos e bom domingo, para ti também

@nn@ said...

blue andas a crescer a olhos vistos ! IMANADA !

Luís Galego said...

a Billie Holiday sempre cantou sem cuecas e não foi isso que a impediu de ser quem foi.


só quando temos a noção que a nossa vida é tão curta é que percebemos a estupidez dos detalhes a que demos importância. Quero ser cada vez mais eu próprio e este texto revela muito do que sinto...

Statler said...

Sou antipático por simpatia a mim, os outros que se PIIIIIIIIII.

___________________________________

gaija, aquilo da TVcabo só tendo o caixote.
Capiche???
Fazte sócia de SportTV.

Statler said...

Merda, continuas numa de moderação, nunca mais atinas. Desmodera-te mulher!!!

Angel said...

Gostei muito do tema que abordas se tivessemos a conversar daria..conversa pela tarde fora...eu faço parte claro de uma Tribo...como pertencemos todos...gostei da frase que frisaste de Oscar Wilde..deixou-me a pensar...acho que o que é realmente importante é aprendermos a dar mais valor a nós próprios e a opinião dos outros..não intreferir com a nossa maneira de ser..não desvalorizando a opinião do próximo..porque tb acho importante...tás a ver isto..dava pano para mangas...bom tema um beijinho im optimo domingo para ti...

Olá!! said...

Acho que no fundo todos nos adaptamos a um determinado "gang", mas nunca esqueçamos de respeitar os demais... Pessoas assumidas são pessoas de bem com a vida...
Parabéns pelo excelente texto, não é fácil falar na 1ª pessoa...
Grande Beijo

Manuel Damas said...

Pois...
Tsh....
Tá pra aqui a sinhora dotora de leis a butar faladura im bez de if fazer os TPC's...num é justo, num tá benhe e num tem direito a suspinson da pena!!!Tá??!!

Spectrum said...

Concordo com o final: deve seguir-se sempre o coração.
O resto do texto levanta uma série de questões. Desde logo, a da liberdade individual, as tais tribos - eu sou um solitário por opção e dispenso as ditas -, e a família como entidade claramente posta em causa de há algum tempo a esta parte. (A família é uma instituição caduca. O facto de um fulano ser meu tio não implica afectos. Pode implicar, mas pode igualmente não implicar.)
Depois um item importante. A maior parte da população não tem ainda a possibilidade de aceder à net como nós por razões que todos conhecemos sobejamente. O facto de termos forma de vivermos com algum conforto dá-nos a possibilidade de podermos emitir opiniões e até tomar determinadas opções sem corrermos grandes riscos.
Céus, este post tem "pano p´ra mangas!"
Um abraço

Outonodesconhecido said...

Força veludinho. Adorei o teu post. Segue em frente...
Boa semana
bjocas

Outonodesconhecido said...

Força veludinho. Adorei o teu post. Segue em frente...
Boa semana
bjocas

MIMO-TE said...

Boa grande Mulher! :)
Já que gostas tanto de te desnudar...:))) conto-te um pequeno segredo, claro que aqui ninguem nos ouve.:) Sabes o que acontece comigo e é simplesmente natural,embora ninguem acredite? Não me preocupo nada com o que pensam de mim... nem dou conta quando se passa algo bem perto e que supostamente eu seria o tema. Pois simplesmente não noto. Sou como sou, sofro se magoo alguem, isso sofro e tento sempre explicar porque o fiz, geralmente sem querer. Mas dar continuidade a temas mais que resolvidos ou futilidades, não, também já não tenho idade. ;))))

Bjo
Mimo-te

Sol da meia noite said...

Grande, grande, grande post mesmo!!!
Parabéns!
Sabes porque o digo? Porque acho que a liberdade é algo que devemos defender com unhas e dentes. E a autênticidade em nós, é sinónimo de liberdade.
Sabes como reajo a modas, convencionalismos, regras pré-estabelecidas e afins?... Desprezando todos os seus ditames. Porque tudo isso tem o seu preço. A minha liberdade não...

Grande beijo, grande amiga

Gi said...

Sorri ao ler-te. Gostas de marcar a diferença e não há mal nenhum nisso . É a falta de afectos, de auto-estima e até mesmo a ambição que leva muitos a quererem pertencer a uma "tribo". Na generalidade concordo contigo mas durante a vida muitas vezes somos obrigados a engolir sapos, sabes? Marcar a diferença sem ofender ou magoar quem quer que seja é um dos principios fundamentais da liberdade e essa eu prezo-a muito. Se faz doer a alguém eu já não a consigo gozar em pleno. Ser diferente só "porque sim" pode levar a que mais tarde se fique orgulhosamente só ... e até é giro o convívio entre tribos, sempre dá motivo de conversa :)

Um beijinho e noite feliz, despeço-me com um sorriso (eu que tenho quase 50 e o cabelo pelo meio das costas :) )

Jotabê said...

Tiraste-me as palavras do teclado, bem, à excepção da parte das mini-saias e dos decotes..

:)

..joca

Ka said...

Bom texto blue!
Sem dúvida que vivêmos agarrados a convenções que não acrescentam nada de positivo à nossa vida na maior parte dos casos.

Sem dúvida que quem consegue ser fiel a si mesmo sem estar preso a convenções e preconceitos chega ao fim da sua vida e sentir-se-á muito mais realizado que a maior parte das pessoas.

beijinho

ps - Engraçao...hoje pus um pensamento do dia que encaixa neste post de certa forma

Manuel Damas said...

eu também não gosto de saramago...
Shiuuuuu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Como a compreendo, minha querida "Blue"...
Faço 47 daqui a poucas semanas. Mas adoro as minhas vans cor de rosa...
Ah!
E adoro gravatas...tenho mais de 100, certamente e de marca mas...não me apetece usar!
Por isso!
É mais do que altura de aprendermos a fazer o que nos apetece senão vamos fazê-lo quando...no lar? Já demenciados?
Para usarmos camisa-de-forças?!
Como a compreendo...como a compreendo ;)
(penso que se nota esta minha maneira de ser e estar no nosso programa de tv quando, num programa sério, brinco e pico com a Maria José porque...porque nos dá muito gozo e o facto de sermos lideres de aundiência, ainda mais gozo nos dá e, como tal, maior liberdade!)

nuvem said...

Tu fazes-me bem.

Nunca mudes e por favor nao deixes de escrever...

Beijinhos

Oliver Pickwick said...

Um dos seus melhores posts, Velvet! Como se diz aqui no Brasil, "é a sua cara". Ou seja, você é realmente como está escrito neste texto.
Uso meias pretas, sapatos pretos, sempre. Não pertenço a nenhuma tribo? Brancas, nem sob tortura. Uma azul escura ainda dá pra encarar. Nos cumprimentos, dou um único beijo. Isto é bom ou ruim?
Beijos!