10 November 2007

O MEU PAI


Imagem do livro de Andrew Clements " Because your Daddy loves you"
Hoje é o dia do aniversário do meu pai.
84 anos de uma vida que se tivesse que ser reduzida a uma só palavra, essa seria Amor.
Só transmitiu Amor a todos os que os rodeiam, e aos que ama.
A minha mãe, com quem vive há cinquenta e já não sei quantos anos, mas para quem ainda hoje olha com adoração.
A mim, sua filha única. Sendo a minha mãe uma mulher extraordinária e especial, é também uma mulher severa. Desde sempre e ainda hoje, o meu pai foi sempre o meu maior e único aliado que ainda hoje, ainda que embrulhado num corpinho frágil que parece poder voar com uma rabanada de vento mais forte, me dá os abraços mais fortes e sentidos e os beijos mais doces. Pudera ele ainda ser forte para me poder defender da vida que me abana todos os dias, e oferecer-me o seu ombro para me apoiar.
Era, como se dizia no seu tempo, um belo homem, com voz de locutor.
Aliás foi pela voz que a minha mãe se apaixonou, quando por um acaso de linhas trocadas, uma chamada dele foi parar ao seu telefone.
Mas isso são outras histórias.
Tinha uma mota potente e com a minha mãe à garupa muito passearam por este país.
Durante anos o seu hobby foi a pesca, e quando voltava com a cesta carregada de robalos, corvinas e linguados era uma festa.
Quando em 69 a terra se revoltou e gritando das suas entranhas se ouviu um rugido assustador, enquanto muita gente fugia para a rua, o meu pai correu para o meu quarto, arrancou-me da caminha onde dormia e foi só depois de me ter bem presa nos seus braços, equilibrando-se como podia, que saiu para a rua.
Excelente aluna que sempre fui, um período não fui para o quadro de honra.
Já se sabia que vinha aí grande tempestade.
Como foi sempre ele o encarregado de ver as minhas notas, levou-me para o seu escritório para me levar para casa e assim eu poder escapar à zanga da minha mãe.
Mas também foi ele que teve a alegria de ver que no exame de aptidão à Faculdade tinha tido 19 a Latim e 18 a Filosofia, tendo por isso dispensado.
Quando decidi que queria interromper o curso para ser assistente de bordo, foi ele que enfrentou a minha mãe e me apoiou na perseguição do sonho.
Quando, anos depois me licenciei foi o seu abraço o maior.
E coisa engraçada, a maior parte dos pais e das mães, quando falam dos filhos com os respectivos cônjuges dizem quase sempre: " a tua filha " " o teu filho ". Ele disse sempre, e ainda hoje diz " a nossa filha "
Eu e os netos guardaremos sempre dele imagens que só lhe pertencem a ele.
Cozinheiro de mão cheia, as suas lulas recheadas, os seus grelhados e as filhós do Natal, serão um segredo que levará, porque ninguém as faz como ele.
Foi meu chauffeur particular durante anos, em todos os sítios por onde passei e ele me ia pôr e buscar, para me livrar do perigo dos transpotes públicos: na natação, na Alliance Française, no Conservatório Nacional.
Quando o primeiro neto nasceu, levantou-o nos braços, todo nú, para ver se " o instrumento" era perfeito. Claro que apanhou com uma xixizadela.
E recomeçou com os netos, o percurso do amor: levando-os a passear no Jardim da Estrela ou na Mata de Benfica todos os fins de semana sem falhar um, ele que os ensinou a andar de bicicleta, ele que remendava os pneus quando se rompiam, ele que os levava à praia, que os ensinou a jogar ping-pong. Para eles sempre foi, e ainda hoje é o VÚ.
Há dez anos penosamente doente, nunca se queixa, e tudo o que quer é ver a família reunida.
Nunca se esquece de agradecer a Deus, quando tem a Família à volta da mesa de Natal repleta de iguarias.
Agarrado à vida, ainda hoje o dia dos anos é uma festa.
E afirma com toda a certeza, que não morre, porque todas noites reza a Nossa Senhora.
O meu pai é simplesmente o MEU PAI.
E eu o amo.

9 nhận xét :

Oliver Pickwick said...

Passei pra deixar um veludinho. Que produção, hein? Eu havia parado nas desilusões, isto é, o último post que li. Humm... neurônios turbinados os seus!
No início de Vínculo ou amor?:
"Ao que nos une, ao que nos liga uns aos outros, ao sentimento que nos faz permanecer juntos e atentos, ainda que a distância de vez em quando se interponha, costumamos chamar amor". Pelo visto, não deixa as emoções mais fortes pra o gran finale, hein?
Na 25a. Hora, colhi este veludinho perolizado : "...quando todos dormem, quando a casa é só minha..."
Finalmente, em Uma história só prara mim, eu também lamento pela TV de 50 canais e, ainda acrescento os jogos sanguinários de computador.
Já que não tem tido muitas oportunidades para ir a Salvador, pelo menos apareça no meu pequeno espaço baiano para deixar um veludinho. Sempre tem acarajé e água de coco para os amigos.
Um beijo, e parabens pelo aniversário de seu pai.

Jasmim said...

Querida veludinha
Que bom ter um pai assim; por isso és como és...
A melhor coisa que te pode deixar ée sta caapcidade de aamr e de reconhecer o amor nas pequenas coisas.
PARABÉNS ao pai, à filha e à família
um bj

Alexandre said...

Talvez a melhor dedicatória que já fiz fazer a um pai... fiquei comovido porque nem todos os pais são assim como o seu... mas todos o deveriam ser... e terem filhos e filhas que merecessem todos os abraços e todos os cuidados - lembro-me bem desse tremor de terra de 28 de Fevereiro de 1969: os meus avós estavam lá em casa por isso eu dormi com os meus pais, talvez por isso não me tivesse assustado tanto - já agora, enquanto muitos vizinhos saíram para a rua nus, o meu pai ficou a vestir-se a rigor e saiu com sobretudo e chapéu... já agora, estava frio!!!

Muitos beijinhos e os maiores parabéns ao seu PAI.

Sol da meia noite said...

Minha amiga, tenho a certeza que sempre mereceste e mereces o pai que tens. A doçura das tuas palavras assim o demonstra. E fico feliz por ti.

Deixo beijinhos e xi-corações, para com o maravilhoso pai que tens os dividires.

a.filoxera said...

Parabéns ao teu pai. E a ti, que me pareces uma óptima filha.
Um pai é um exemplo, e nós gostaríamos de vê-lo sempre com saúde e reflexo do que era na nossa infância.
Estou contigo neste momento, também sei o que a doença operou no meu pai. Aliás, como leste no meu blog...
Estou comovida demais para escrever mais. Lembro-me do meu pai, que, agora, é parte desse mar que eu amo.
Ainda espero dar-te pessoalmente o abraço que te envio.

Oliver Pickwick said...

We meet again, Baby Velvet! Obrigado pelo seu interesse e, desculpe por andar fazendo "piseiro" (essa é do meio-rural baiano) no seu blog. Infelizmente, o tempo só me permite escrever um post por semana.
Contudo, se tiver interesse, pode visitar minha página onde eu posto algumas composições de jazz instrumental, de minha autoria. Tem um link no meu blog, mas se quiser acessar direto, anote aí:
http://www.myspace.com/guilhermexavier
Desse modo, enquanto não tem um novo post, você ouve as minhas músicas.
Acho até meio temerário fazer tal sugestão a alguém com um gosto musical tão refinado, mas, arriscarei. Todavia, lembre-se, eu sou um compositor e músico doméstico.
Bye!

Luís Galego said...

seria impossivel que um post com este conteúdo me fosse indiferente. Aliado ás qualidades de escrita, o sentimento broutou e emocionou. Assim, viver VALE A PENA!!!!

xtk said...

muito bonita a forma como descreves esses momentos únicos e k não serão nunca esquecidos, amar assim e sabermos k é para sempre é lindo, é tocante, é...maravilhoso.

Som Do Silêncio said...

Venho atrasada, mas desejo os meus sinceros parabéns ao teu pai.
Um post que denota o grande amor e carinho que existe entre ti e ele.
Um beijo doce