24 November 2007

O AMOR FECHOU A LOJA!



O Amor fechou a loja!
Quero fazer o elogio do Amor.
Já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.
Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito.
Porque faz sentido.
Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo" e “ dão um tempo”.
O amor passou a ser passível de ser combinado.
Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade,ficam"praticamente" apaixonadas.
Eu quero o amor de antigamente. O amor cego, o amor estúpido, o amor doente, o amor da minha vida, estou farta de conversas, farta de compreensões, farta de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telémoveiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem,tudo numa boa", tomadores de bicas, cumpridores de compromissos, bananóides, borra-botas, assassinos do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona?
Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha.
Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso"dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea de “sopas e descanso”.
Odeio os novos casalinhos.
Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.
Eu quero um homem que corra para mim, no Rossio, na Praça de São Marcos, na Ponte Vecchio, numa praia, com um ramo de rosas na mão, me pegue pela cintura e dê voltas comigo no ar, que me beije como se a 2ª Guerra Mundial tivesse acabado, que faça amor comigo, independente de ser dia ou de ser noite, do sítio, da hora.
O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor.
É essa beleza. É esse perigo.
O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes.
Tanto pode como não pode.
Tanto faz. É uma questão de sorte.
O nosso amor é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor.
A "vidinha" é uma convivência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.
O amor puro É.
Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.
O amor não se percebe. Não dá para perceber.
O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desembrulhar-se.
A desatar a correr atrás do que não conhece, do que não apanha, do que não compreende.
O amor é uma verdade.
É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal.
Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra.
A realidade pode matar o amor mais bonito da vida.
Então, a vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém.
Por muito longe que..., por muito difícil..., por muito desesperadamente...
O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber.
É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
Não se pode ceder.
Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.
E valê-la também.
Entrelaçada em Miguel Esteves Cardoso

20 nhận xét :

Oliver Pickwick said...

Humm... o primeiro a fazer um comentário. Quanta honra!
Um post ilustrado por uma fotografia clássica, não poderia ser menos clássico, nem tampouco deixar de abordar com tamanha propriedade o quase-extinto-eterno romance clássico que, infelizmente, tal como uma ave rara, desaparece de modo gradual.
Flores, chocolates, bilhetinhos apaixonados, não deveriam continuarem existindo apenas nas histórias dos romances de literatura B.
Congratulações por esta crônica!
Um beijo, e tenha o melhor fim de semana!

rosa dourada/ondina azul said...

Será que a loja fechou?
Que já não há clientes?
Andarão todos adormecidos?

Adorei !


Beijinho,

Pekenina said...

Ofereço cartas perfumadas, faço amor às quatro da tarde, ando com um sorriso parvo o dia todo, choro desmedidamente pela saudade que me aperta coração e me suga a alma. Achas que não amo?
Beijo,
Pekenina*

Luís Galego said...

Eu quero o amor de antigamente. O amor cego, o amor estúpido, o amor doente, o amor da minha vida

eu subscrevo o amor de paixão à cova; o estar a olhar para o telefone para ver se ele toca; a vibração total; eu só aceito esse amor, o resto é fast food...

a.filoxera said...

Amiga:
Estás em grande! Que maravilha, este texto, acompanhado desta música!
Li de uma assentada, cheia de sede deste amor como todos deviam ser.
Vou reler com calma, saboreadamente. E voltarei, hoje ou quando possível, com um comentário em condições.
Beijos.

Oliver Pickwick said...

Babe Velvet, sua delicadeza supera a sua habilidade de esquiar em Vermont, tenho certeza! C'mon, baby, senti sua falta. O Frankie Avalon não aguentava mais, eu entrava no blog e dizia: "Play it again, Frankie!". E o pobre coitado, já com a voz rouca:
"She wore blue velvet
Bluer than velvet was the night
Softer than satin was the light
From the stars..."
See ya!

Outonodesconhecido said...

Veludinho...
obrigada por este post; obrigada mesmo.
Um dia dir-te-ei porque o teu psot foi taõ importante para mim...
Um bj.
Ah! naõ é que seja mazinha, mas enquanto a maioria arruma a roupa de verão eu coloco-a na mala para a grande viagem...:)
Sinto-me como o Gago Coutinho e Sacadura Cabral na sua grande viagem.
Um bj e feliz domingo.
E deixa-me dizer-te que o outono também tem os seus encantos. tens é que descobri-los...
As estações são como os felinos (há que ver em cada um o seu encanto especial)

Pekenina said...

Tenho andado a pensar num post novo. Mas sinceramente não sei o que escrever. Está tudo tão confuso. Este amor arrancou-me toda a sanidade que me restava.
Beijinho de bom Domingo (e desde quando os domingos são bons?!)
Pekenina*

melgadoporto said...

O amor fechou a loja!
Fechou porque perdeu para as grandes “superficies”
Hoje não se vai a uma esplanada, vai-se ao butequo.
Hoje não se ao cinema, vai-se ver uma sessão.
Hoje não se namora, dá-se uns beijos.
Hoje não se dança, abanamos os rabos e sabe-se lá com quem.
Hoje não se presegue o perfume, compra-se ali ao lado.
Hoje o simples, tornou-se enfado.
Hoje o “complicado”, tornou-se o mais simples.
Hoje não se “conversa”, vai-se directo ao assunto.
Hoje não nos apaixonamos, acham do passado.
Por isso o amor não fechou a loja!
A loja é que fechou por falta de clientes!
:)

FM said...

Blogue interessante... Voltarei em breve.
Parabéns e... Bom Domingo.

Sol da meia noite said...

Amor... coisa do passado?...
De quando cada coisa ocupava o seu espaço e tinha o seu devido valor...

Já não há amor como havia antigamente... Hoje somos demasiado práticos e tanta coisa perdeu o sentido...

Beijinhos

a.filoxera said...

Está mesmo um "must", este elogio do amor!... Virei relê-lo de vez em quando e vou publicitá-lo.
Continua assim!

Som Do Silêncio © said...

Ai o amor...

Será por isso que não namoro?
Acho que realmente não me contento com pouco...
Mas eu quero um amor de verdade...

Um Beijo

LB said...

E será que sem amor há verdadeiramente vida?

Beijinho

Homem sem rosto said...

Ah, o amor...
e suas tão diferentes formas de se manifestar.
Homens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres: paixão, desejo, companheirismo, cumplicidade.
E, em cada uma dessas formas, mais modelos diferentes de relacionamento, outras expectativas, carências, medos, seguranças e certezas.
O curioso é ver como a combinação disso tudo se altera, com bases na opção sexual de cada casal.
As lésbicas dizem-se mais intensas e arrebatadas.
Os gays, mais tolerantes e liberais.
E os heterossexuais... bem, esses que como eu, achamos que somos o equilíbrio feliz e infeliz disso tudo.
É claro que generalizar, ainda mais quando o assunto é esse, é um tremendo perigo.
Mas, brincando com tudo isto, descubro que existe uma coisa em comum que une todos eles:
o amor.
Sempre e só o amor!!!

Olá!! said...

Muita realidade aí escrita, mas, para mim, o amor ainda existe... dou uma sortuda??? Sou..
Todos merecem a loucura de um amor e ela anda por aí... não basta esperar, nem ansiar, há que abrir o coração... foi o que vi aqui.
Parabéns
Beijos e boa semana

Blue Velvet said...

Não tenho o hábito de comentar os comentários que me deixam, mas desta vez não resisti.
Em primeiro lugar fico feliz por ver que os meus blogueiros querem o mesmo amor que eu.
Viva!
Depois, todos os comentários têm frases fantásticas:

"Flores, chocolates, bilhetinhos apaixonados, não deveriam continuarem existindo apenas nas histórias dos romances de literatura B." do Oliver

"Andarão os clientes todos adormecidos?" ironia da rosa dourada/ondina azul

"...faço amor às quatro da tarde, ando com um sorriso parvo todo
o dia." da Pekenina

O amor cego, o amor estúpido, o amor doente, o amor da minha vida

"eu subscrevo o amor de paixão à cova; o estar a olhar para o telefone para ver se ele toca;" do Luís

Pelos elogios da Filoxera e do Outono Desconhecido, muito obrigada.

O comentário/post do Melgado Porto, que vem complementar o meu.

As observações de LB, Homem sem Rosto, Olá e Sol da Meia Noite.

Agora deixem-me ser mázinha:
tenho aqui os comentários de 5 homens.
2 perguntas:
1ªExercem eles militantemente o que escrevem?
2ªOnde andam os outros que não encontro nenhum?


Obrigada a todos

tecas said...

vim visitar pela primeira vez e gostei muito. hei-de voltar!
parabéns

Xana said...

Que maravilha, este texto, acompanhado pela minha emoção ao ler, quanta saudade! do amor de verdade, de olhar para o telefone,e tocar... aquela dança...hum...junto ao mar, o amor da minha vida!

...O amor é uma coisa, a vida é outra.
A vida às vezes mata o amor.

Adorei ler-te Obrigada!

Beijo grande, boa semana

vsuzano said...

Esse poema, e com essa musica de fundo... adorei... é uma das minhas músicas preferidas...

E já agora:
Eu não tenho amor a prazo, mas a minha vida tem prazo, e o prazo da minha vida é que dá ao meu amor o seu prazo...............